quarta-feira, 17 de maio de 2017

Igor Gielow: "Doria ofusca Alckmin em NY, mas falar em rompimento é precipitado"

Prefeitura de São Paulo
O prefeito de São Paulo, João Doria, em evento em Nova York
O prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), durante evento em Nova York


Folha de São Paulo

"Ninguém vai conseguir nos distanciar", disse o governador paulista, Geraldo Alckmin (PSDB), ao comentar as crescentes intrigas palacianas que envolvem a postulação tucana ao Palácio do Planalto em 2018. O outro em questão, claro, é o prefeito tucano de São Paulo, João Doria.

Na noite anterior, na mesma Nova York, o prefeito jantara chuchu com champanhe, para ficar numa alegoria do marketing, ao dizer que o candidato do PSDB em 2018 será o melhor colocado nas preferências do público. 

Arrematou o repasto nesta terça (16), afirmando estar apto para a tarefa, se assim a sigla definir. Se já era a estrela maior do evento em que estavam, acabou por ofuscar de vez o padrinho político.

Crise no Jóquei!, gritam no serpentário tucano paulista. Me parece precipitado, já que na verdade ambos estão certos. Engana-se o apostador que coloca todo dinheiro hoje num rompimento ruidoso dos dois antes da eleição. Vale lembrar: os grandes divórcios do nosso bestiário político, como o de Paulo Maluf e Celso Pitta ou o de Orestes Quércia e Luiz Antônio Fleury Filho, resultaram de desavenças e fracassos pós-pleito.

Não dá para comparar historicamente os casos, como de resto também é simplificador demais igualar pelo valor de face Doria e o Fernando Collor de 1989, exceto pelo fato de que ambos vendem como o "novo" tendo origem e sustentação no "velho" —poder-se-ia, à Temer, tecer considerações sobre gosto estético, mas isso é irrelevante agora.

Claro, há sinais de estremecimento. Além de ambos se colocarem como candidatos potenciais, houve estranhamentos como no episódio em que Doria negou Alckmin sobre privatizar as vias marginais paulistanas. São entrechoques, acomodações geológicas por espaço que podem até sair de controle, mas isso ainda não aconteceu. Até porque ninguém ganharia, a começar pelo governador.

Sua litania sobre a lealdade do pupilo obviamente transpira a fragilidade de seu momento. De candidato natural da política tradicional para o pós-Lava Jato, Alckmin se viu colhido pela mesma turbulência que já havia derrubado as pretensões de seu adversário interno Aécio Neves, senador por Minas e presidente do PSDB. Seus correligionários defendem que as acusações de caixa dois são frágeis e que o paulista sobreviverá para chegar forte em 2018, mas a realidade não é tão simples.

Primeiro, Alckmin foi carimbado pela Lava Jato. Mesmo que seja inocente, o tempo da Justiça é mais lento que o da política, ainda mais no mundo da liquefação da realidade em fibras óticas tremelicantes. E há o risco premente de novas acusações decorrente das rodadas de "recall" de delações de empreiteiras, e o mundo político todo só fala no que a Andrade Gutierrez poderia revelar sobre São Paulo.

Ainda assim, sem Alckmin não há Doria. Antes de mais nada, porque talvez seja simplesmente verdade que ambos ainda alimentam uma relação, para ficar na figura da teoria dos jogos, de soma positiva. Ambos ganham. O padrinho ajudou o afilhado a montar uma equipe de governo robusta e controla a máquina tucana em São Paulo, enquanto Doria lhe empresta o verniz do "novo" —quando não rouba a cena, claro.

Como na lenda judaica do Golem, o rabino que dá vida um boneco de barro sempre corre sérios riscos de insubordinação por parte da criatura. Na política, ela vem pelo canto da sereia da oportunidade, e neste exato momento ela se coloca claramente em favor do prefeito paulistano: baixa rejeição, discurso forte antipetista, potencial eleitoral promissor e, acima de tudo, o selo de isento de lama da Lava Jato. Tudo o que Alckmin não possui agora. O caráter de incógnita que acompanha o prefeito fica para um segundo momento.

Um dos poucos que se arvoram a especular sobre o que pensa o governador, talvez o político mais fechado do país, diz que ele sabe disso e que não irá obstruir uma candidatura Doria se esse for o cenário mais viável. Não menos porque Doria é uma garantia de continuidade de grupo político no poder, mesmo que seja como candidato a governador. O mesmo observador, contudo, diz que é cedo para definir qual será o papel do tucano sênior da relação.

Do lado do prefeito, figura mais expansiva, o que se ouve é o mesmo com sinal trocado e um sorriso maroto de incredulidade em qualquer coisa que não seja a campanha presidencial à porta. Vide aí escorregões não tão escorregados como o da declaração sobre a candidatura.

Os fatores até 2018 são múltiplos, e envolvem a presença ou não de Lula na urna eletrônica —a ausência do cacique sangrando de morte na Lava Jato favorece Alckmin, pela lembrança da roubalheira generalizada e porque o governador hesita em bater no petista, ao contrário do que faz de forma diuturna o prefeito.

Salvo alguma grande instabilidade, tudo indica que caminharão juntos Doria e Alckmin. Como, e para onde, isso fica na conta do adivinho no outro guichê.

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