sábado, 6 de maio de 2017

Esquema de caixa 2 de cerveja abasteceu máquina de propinas da Odebrecht

Julia Affonso, Ricardo Brandt, Fausto Macedo, Valmar Hupsel Filho e Luiz Vassallo - O Esxtado de São Paulo

Donos da Itaipava venderam R$ 105 milhões em dinheiro vivo para a máquina de propinas montada por Marcelo Odebrecht, em 2007 e 2008, em esquema de dólar-cabo via conta no Caribe



Hilberto Mascarenhas. Foto: Reprodução

O chefão do Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, Hilberto Mascarenhas da Silva Filho, afirmou em sua delação premiada que um esquema de desvio de cerveja do Grupo Petrópolis abasteceu a máquina de pagar propinas, montada por Marcelo Bahia Odebrecht, com R$ 105 milhões de dinheiro vivo, em 2007 e 2008. Era a corrupção e o caixa 2 de políticos e agentes públicos, alvos da Operação Lava Jato.
“Eu soube, eles comentaram que era um desvio de quantidade, no medidor. Porque o imposto é gerado em função na quantidade de cerveja que passa em determinado medidor. Então eles criaram, parece, um by pass, para adulterar a quantidade de imposto”, afirmou Hilberto Silva, em seu Termo 02, da delação premiada fechada com a Procuradoria Geral da República (PGR).
“Essa venda dessa cerveja, que passava a latere, era vendido, e o dinheiro gerado ia para o caixa 2. Esse caixa 2 era vendido para nós”, explicou o delator, de maneira fria e sem cerimônia – tal qual se recomenda a ingestão da bebida, unanimidade dos botecos nacionais.
Hilberto Silva detalhou, no anexo redigido por sua defesa e entregue à PGR antes de prestar depoimento aos procuradores, o que sabe.
“Segundo me foi dito por Vanuê (Faria, da Petrópolis), em visita à fábrica de Boituba, não me recordo o ano, a disponibilidade de gerar reais em caixa 2 da Itaipava vinha através de uma espécie de burla do medido de produção de sua (s) fábrica (s), produzindo assim cerveja ‘fria’ sem pagar imposto que era vendida em pequenos bares sem nota, gerando disponibilidade desses recursos.”
O esquema de caixa 2 de cerveja, batizado por investigadores de “caixa 2 da cevada”, será investigado pela força-tarefa da Lava Jato, em Curitiba, para onde será enviado o material da delação da Odebrecht. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, acolheu argumento da PGR de que a competência para o caso é o juiz federal Sérgio Moro – origem do escândalo Petrobrás.
Esquema cruzado. O empresário Marcelo Odebrecht confessou em sua delação que à partir de 2006 o grupo passou a ter relação ilícitas de parceria com o Grupo Petrópolis. A parceria rendeu dois momentos de práticas criminosas de fraudes, lavagem de dinheiro e atos contra o sistema financeiro, em que os dois grupos empresariais cruzaram suas estruturas paralelas.
A que envolve o “caixa 2 da cevada”, em um primeiro momento, de 2006 até 2008. A Odebrecht comprava reais não-contabilizados da cervejaria no Brasil e pagava em dólares, em conta secreta no exterior – típica operação de dólar-cabo.
A segunda fase, à partir de 2010, até 2014. O Grupo Petrópolis teria sido espécie de “laranja” para a Odebrecht fazer repasses oficiais para campanhas políticas e partidos. A cervejaria fazia doações em seu nome, dentro da cota legal permitida à ela, e recebia da empreiteira por fora, como no acerto de valores das obras das duas fábricas da Itaipava construídas pela construtora.
Três delatores do setor de propinas da Odebrecht detalharam a sistemática das operações e como se aproximaram os dois grupos.
Dólar-cabo. O chefão da máquina de propinas, Hilberto Silva, e outros dois delatores do setor confirmaram que quem aproximou o Grupo Petrópolis da Odebrecht foram os representantes do banco Antigua Overseas Bank (AOB), em 2006.
A ponte com o grupo foi Olívio Rodrigues Júnior, que abria e controlava contas secretas da empreiteira em paraísos fiscais. O AOB, que faliu em 2010, ficava em Antigua e Barbuda, no Caribe.
Olívio revelou que, em 2007 e 2008, os donos da Cervejaria Itaipava forneceram o equivalente a US$ 98 milhões em dinheiro vivo, no Brasil.
O valor, em reais, foi distribuído no Rio e em São Paulo pelo departamento da propinas – que ao todo movimentou US$ 3,3 bilhões, em nove anos.
O dinheiro era recebido na conta da Legacy International Inc, usada segundo os delatores pela Petrópolis, das contas offshores usadas pela Odebrecht, a Klienfeld Services e a Inovattion Research Engineering.
“Tenho conhecimento de uma conta no exterior de nome Legacy aberta junto ao Banco AOB”, relatou o delator, aos procuradores da Lava Jato. “Na conta, foi feita a compensação de valores já disponibilizados em reais no Brasil. Em 2007 foi pago nesta conta US$ 25,5 milhões e em 2008 cerca de US$ 73 milhões.”
O delator entregou documentos para os investigadores da Lava Jato, como prova daquilo que fala. No material, estão um contrato entre as offshores, detentoras das contas secretas da Odebrecht e da Petrópolis, e uma planilha com os registros de movimentação de dinheiro.
Amizade. Os delatores contam que a Odebrecht teve papel importante em aproximar o dono do Grupo Petrópolis e o PT.
Olívio foi um dos que contou que foi apresentado para o Grupo Petrópolis em 2006, por dois executivos do AOB. “Ela (Cervejaria Petrópolis) era uma empresa que tinha muitos reais e gostaria de transforma-los em dólares. A Odebrecht precisava de alguém que disponibilizasse reais no Brasil e quisesse receber o equivalente, em dólar, no exterior, e a Cervejaria tinha interesse nessa operação”, relatou o delator.
Os delatores narraram o almoço, em um restaurante do quilômetro 53, da rodovia Castelo Branco, em que foram apresentados os parceiros. Entre eles, o dono do Grupo Petrópolis, Walter Faria, seu sobrinho Vanuê Faria e um contador ligado à empresa, Silvio Pelegrine, que seria o controlador da conta da Legacy International Inc.
Delivery. Os delatores relataram que quem entregava esses valores era a equipe da Hoya Corretora, de Álvaro Novis, um dos prestadores de serviços fixos do setor de propinas.
“Toda operação da Petropolis foi feita com a Hoya”, afirmou o delator. Novis tinha até senha no sistema Drousys, espécie de intranet segura, com servidor na Suíça, que os funcionários do setor de propinas da Odebrecht usavam: “Vinho”.
OLIVIO HOYA
O delator afirmou que o dinheiro da Petrópolis passou a ser entregue para Novis em uma transportadora de valores, no Rio, em que ambos tinham “contas fictícias”.
“A hora que você me transferir dentro da transportadora os recursos, a pessoa na transportadora vai me avisar e você avisa o pessoal da empresa, o Luiz Eduardo ou o Fernando (ambos do setor de propinas) que você está me pagando, eu aviso que estou recebendo, e fecha a operação. Aí o Luiz Eduardo falava: ‘recebemos lá no Rio R$ 1 milhão, precisa transferir para a conta da Legacy, na época, o dólar estava um para um, quase, eu transferia US$ 1 milhão para a conta da Legacy, que era do senhor Silvio Pedegrini”.
Banco. Em 2008, a Legacy teve que ser encerrada, quando a Operação Avalanche chegou ao contador do Grupo Petrópolis e ao dono Walter Faria, narraram os delatores. “Não podemos mais mandar dinheiro para a conta da Legacy.”
Olívio conta que um representante do AOB abriu subcontas na conta Legacy e que eles eram usadas para pagar agentes públicos. Por isso, a conta usada pela cervejaria para receber o dinheiro da Odebrecht teve que ser fechada.
COM A PALAVRA, O GRUPO PETRÓPOLIS
“As relações do Grupo Petrópolis com a Odebrecht sempre foram profissionais, inclusive por conta da construção de suas fábricas. Todas as transações financeiras estão declaradas. A empresa não tem qualquer vínculo com a referida conta”.

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