quarta-feira, 17 de maio de 2017

Em sua 5ª temporada, 'House of Cards' evoca paralelos com noticiário

Luciana Coelho - Folha de São Paulo


É um exercício educativo acompanhar um episódio da quinta temporada de "House of Cards" em uma tela e, em outra, um canal com o noticiário político do Brasil, dos EUA ou alhures. Não fossem as caras conhecidas dos atores em cada caso, seria difícil discernir um de outro.

Os 13 novos episódios do drama político chegam à Netflix em 30 de maio, uma terça-feira (dia em que os EUA costumam promover suas eleições presidenciais, mote de toda a nova temporada). A Folha foi uma das publicações que já viram a temporada, com o compromisso de não revelar "spoilers".

Criticada por cruzar o limite da verossimilhança em anos anteriores, "House of Cards" nunca foi tão realista quanto na nova temporada –exceto, claro, pela dobradinha entre presidente e primeira-dama na mesma chapa eleitoral e pelo amante dela vivendo na Casa Branca.


De hackers ligados à Rússia a um veto à entrada de cidadãos de determinados países nos EUA, há uma série de paralelos com o governo de Donald Trump. O roteiro, porém, precede a eleição do republicano, segundo dizem os atores em entrevistas –o que prova que a política atual está bem além da imaginação.

Mas não é só a era Trump que a nova temporada ecoa.

Em dado momento, Tom (Paul Sparks), o redator de discursos que é também amante de Claire Underwood (Robin Wright) diz que o marido da primeira-dama, Frank (Kevin Spacey no auge do personagem), está velho.

O confronto de Frank Underwood com Will Conway (Joel Kinnaman) na disputa pela Presidência espelha o embate entre "velha política" e "nova política" que absorveu meio mundo.

Se Frank é um populista versado nos truques mais baixos, para Conway, asséptico até ao fazer sexo com a mulher, falta substância e a temperança que a experiência traz ou deveria trazer.

Finalmente, há o papel-chave que o Congresso desempenha nesta temporada, assim como desempenhou na primeira, e sua rede comezinha de troca de favores que tão bem conhecemos.

POLITICAGEM

É nesses momentos mundanos que "House of Cards" vai melhor. E, ao amarrar pontas que ficaram soltas em desdobramentos de roteiro mais radicais, a série evolui para sua temporada mais instigante desde a de estreia.

Spacey e Wright também estão no melhor momento.

Mais comedidos, os monólogos shakespearianos de Frank, que dão alma à série, são um estudo preciso da política no nosso tempo, mais do que a voz de um narrador onisciente –o do quarto episódio é um espetáculo.

Se em outras temporadas o casal presidencial mostrava uma alternância clara no controle, desta vez as linhas entre eles se borram, como em uma cena na qual o presidente fictício brinca em seu computador com imagens do rosto de um se metamorfoseando na do outro.

No decorrer dos capítulos, é impossível saber qual dos dois prevalecerá caso sua aliança aparentemente inquebrantável se desfaça.

Afinal, como o Francisco e a Clara originais, aqueles da hagiografia católica, a dupla pode até às vezes ser entendida como um casal, mas a matriz de sua afinidade é a devoção a algo imaterial e supremo –neste caso, o poder.

A nova temporada também traz reforços no elenco de apoio, que começou opaco e tem ganhado vigor.

Patricia Clarkson ("A Sete Palmos") entra na série como uma subsecretária de Comércio Exterior muito bem conectada, e Campbell Scott ("Damages"), como um discreto estrategista político.

Finalmente, uma reverência a Doug Stamper (Michael Kelly), o mais sofrido (e melhor) personagem da série.

Na selva de egos desumanizados que ela retrata, o sujeito que está na política não por altruísmo ou egoísmo, e sim por devoção e lealdade, é o único com quem o espectador pode ter empatia.

Havia temor de que a saída do criador Beau Willimon –ele desenvolveu e vai produzir o drama de ficção científica "The First" para a plataforma de vídeo concorrente Hulu– afetasse a qualidade de "House of Cards", o que não ocorreu.
Willimon, nas últimas semanas, tem se dedicado a criticar Trump no mundo real (e nas redes sociais) e a propor resistência contra aquilo que chama de tirania.

A equipe de roteiristas veteranos que assumiu em seu lugar, contudo, conseguiu dar fôlego ao enredo, algo nada fácil após quatro anos. Muito menos em política.
*

PASSADO PARA TRÁS (Temporada 1, ep. 1)
Após ajuda na eleição, o presidente eleito Garrett Walker promete cargo de secretário de Estado a Frank Underwood, mas dá para trás. Assim, ele continua como líder dos Democratas na Câmara

RUSSO, O ALCOÓLATRA (Temporada 1, ep. 7)
Peter Russo é convencido por Frank a concorrer como governador da Pensilvânia. Alcoólatra, Russo cai em armadilha de Frank, bebe e estraga campanha. Frank mata Russo e simula suicídio

O VICE VENCE (Temporada 1, ep. 13)
Após a morte de Russo, Frank faz com que o então vice-presidente concorra ao governo da Pensilvânia. O presidente acaba transformando Frank em seu vice

ZOE, A JORNALISTA (Temporada 2, ep. 1)
A jornalista Zoe Barnes passa a ter um caso com Frank em troca de informações. Após confrontá-lo sobre morte de Russo, Frank a empurra na frente de um trem

SALÃO OVAL (Temporada 2, ep. 13)
Frank arma emboscada para o presidente Walker, que se vê envolvido em escândalo de corrupção. Sem saída, Walker renuncia e Frank assume a Presidência dos EUA

ELEIÇÕES (Temporada 3, ep. 11)
Após ocupar o cargo devido à renúncia de Walker, Frank Underwood decide que quer concorrer à Presidência dos Estados Unidos nas próximas eleições

TIRO (Temporada 4, ep. 4)
Em campanha eleitoral, Frank leva um tiro do jornalista Lucas Goodwin, que mantinha um relacionamento com Zoe e investigava as falcatruas do político. Sua popularidade aumenta
'HOUSE OF CARDS', 5ª TEMPORADA 
QUANDO: 30 de maio, 4h01
ONDE: Netflix

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