sexta-feira, 6 de março de 2015

"Ventos de mau cheiro", por Luiz Garcia

O Globo

É curiosa, para não dizer reveladora, a reação de Renan Calheiros, o alagoano que preside o Senado. Ele não perdeu tempo, ao que parece, defendendo sua imagem


Como sabe qualquer recém-chegado a Brasília, a atividade mais importante no Planalto é o exercício da política, por nomeação ou mandato. É natural e desejável, portanto, que figuras importantes dessa área tenham lugar, quase todos os dias, nas páginas dos jornais mais sérios do país.

Por outro lado, poderia ser visto com tristeza e alarme que cidadãos que deveriam usar seu tempo, pelo menos supostamente, na defesa do interesse público, estejam atuando principalmente em favor de suas próprias contas bancárias. É, lamentavelmente, o que nos contam as notícias da capital do país.

Aconteceu esta semana: os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado — respectivamente, Eduardo Cunha e Renan Calheiros — teriam sido incluídos pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, na lista de investigados da Operação Lava-Jato. Ele os acusa de estarem envolvidos em sérias irregularidades.

Os acusados — que estão a pouca distância de serem definidos como réus — fazem parte de uma lista de 54, em 28 pedidos de abertura de inquérito. É coisa séria, ninguém se iluda.

É curiosa — para não dizer reveladora — a reação de Renan Calheiros, o alagoano que preside o Senado. Ele não perdeu tempo, ao que parece, defendendo sua imagem. Preferiu mostrar sua irritação devolvendo ao Palácio do Planalto um projeto de medida provisória que torna mais severa a política de desonerações fiscais.

A escolha de uma proposta eticamente respeitável talvez ajude o leitor a entender — e, quem sabe, lamentar — como está sendo presidida a mais alta casa do Poder Legislativo. Pelo visto e percebido, há ventos de mau cheiro soprando em Brasília.