quinta-feira, 5 de março de 2015

"Petrobras precisa encolher para se recuperar", editorial de O Globo

Com endividamento excessivo, a estatal não conseguirá recorrer a novos financiamentos em condições razoáveis. A única saída está na venda de ativos


A Petrobras vai reduzir bastante os investimentos em 2015. De uma previsão inicial equivalente a US$ 45 bilhões, a empresa não deverá passar de US$ 33 bilhões. Mesmo assim, trata-se de um valor significativo, o mais elevado de toda a economia brasileira, e relevante mesmo para a indústria do petróleo no mundo (que investe algo como US$ 700 bilhões por ano).

A rede de fornecedores da Petrobras vinha se programando para esses US$ 45 bilhões iniciais. Por isso, a redução do ritmo de investimentos da estatal tem o efeito de um “freio de arrumação” na cadeia produtiva do petróleo no país.

Mas não há outro jeito. A companhia, por razões já debatidas exaustivamente, atingiu um patamar de endividamento insustentável considerando-se o nível das cotações internacionais do petróleo que deverá prevalecer nos próximos anos.

Esse endividamento exagerado contribuiu para que a estatal fosse rebaixada para “grau especulativo” no conceito de uma das mais influentes agências classificadoras de risco.

Desse modo, para concretizar investimentos, a Petrobras terá de contar essencialmente com sua geração de caixa, resultante dos próprios negócios e da venda de ativos. O conselho de administração da companhia autorizou a alienação de ativos em torno de US$ 13,7 bilhões, incluindo refinarias no exterior, encolhimento de subsidiárias lá fora, venda total ou em parte de usinas térmicas e de campos de petróleo no Brasil.

Para recuperar o “grau de investimento” perdido, a Petrobras terá que reduzir o endividamento em relação ao que gera de caixa anualmente. E mesmo se quisesse, não teria condições de contrair novos financiamentos em 2015, a não ser a custos tão altos que somente agravariam suas dificuldades financeiras.

A Petrobras terá de encolher para poder crescer mais à frente. Com a alienação de ativos, os índices de solvência financeira vão melhorar, e assim a empresa terá como se concentrar em projetos que lhe proporcionarão mais retorno no curto e médio prazos. A companhia tem pela frente muitos desafios, e eles não se restringem às questões financeiras. Os escândalos revelados pela operação Lava-Jato mostram o quão frágil a estatal esteve gerencialmente. Orçamentos mal elaborados deram margem a todo tipo de corrupção e desvios nos projetos executados, e isso só veio à tona a partir de confissões de pessoas envolvidas, dentro e fora da companhia, nesses golpes.

A Petrobras precisa de mecanismos internos que a protejam de assaltos generalizados. O risco de ingerência político-partidária na condução dos negócios da empresa sempre haverá. Sem mecanismos de defesa, situações como as ocorridas no governo Lula e no primeiro mandato da presidente Dilma continuarão a se repetir.