quinta-feira, 5 de março de 2015

O que os petistas fazem com Temer para afastar a ideia de impeachment de Dilma ´trambique`

Com Blog Ricardo Setti - Veja

(Foto: Geraldo Magela/Agência Senado)
O vice Michel Temer, do PMDB, com Dilma em sua segunda posse: petistas esgrimem como argumento contra a ideia de um impeachment o fato de que ele seria o presidente (Foto: Geraldo Magela/Agência Senado)

O QUE OS PETISTAS FAZEM COM TEMER PARA EVITAR O IMPEACHMENT

Artigo de Paulo Moura*
O debate sobre o impeachment de Dilma chegou para ficar nas páginas da imprensa e nas redes sociais e no meio.
Inicialmente tratado com reservas quando emergiu nas manifestações de rua posteriores à vitória de Dilma, hoje o debate é visto com naturalidade. Juristas, analistas políticos, jornalistas e lideranças políticas opinam a favor ou contra, construindo o ambiente necessário para a consumação do impedimento da presidente no momento em que as condições políticas estiverem maduras para isso.
A primeira reação dos petistas e de seus porta-vozes na mídia foi primária: “é golpe!”, bradavam eles, esquecendo muito rapidamente que defenderam o impeachment do ex-presidente FHC, logo após sua reeleição e a desvalorização do Real em janeiro de 1999. Mas os defensores do impeachment nas redes sociais não perdoam.
As declarações de Lula, Tarso Genro e demais próceres do PT a favor do impedimento de FHC circulam implacavelmente pelas mídias sociais, deixando os MAV (Militância em Ambientes Virtuais) do PT sem argumentos.
No entanto, petistas nunca dão o braço a torcer. Rapidamente sofisticaram seus argumentos para dissuadir os defensores do impeachment nas mídias sociais, repercutidos na grande imprensa por ninguém menos que Luis Fernando Verissimo em artigo recente noEstadão e em O Globo.
Se os líderes do PMDB quiserem conferir a pérola do principal argumento petista contra o impeachment de Dilma, basta confirmarem presença nas centenas de páginas do Facebook que convocam pessoas para as manifestações de 15 de março.
O argumento central que o PT vem plantando na internet há cerca de duas semanas é o de que “se Dilma for impedida, Temer será presidente”. Isso mesmo, senhores peemedebistas, os petistas estão tentando convencer o povo brasileiro de que é melhor deixar Dilma no cargo, pois se ela for cassada, algo pior pode acontecer: Temer será presidente e o PMDB comandará o Brasil.
Já constatei em conversas nos meus círculos de relacionamento que o argumento tem certo apelo junto a expectadores leigos da política, que também compraram o argumento de Lula, de que a corrupção sempre existiu na política brasileira, que os petistas apenas agem como outros e que, portanto, o PT é igual aos outros. Não é verdade!
A corrupção sempre existiu e mesmo na Petrobras existia antes do governo do PT, é fato. No entanto, essa corrupção era, em parte, dirigida para bolsos privados, em parte, para financiamento eleitoral. Mesmo essa segunda finalidade dos desvios; presente em toda a máquina pública brasileira, não tinha duas características exclusivas da “corrupção petista”:
a) Ela tornou-se sistêmica; isto é, não é mais praticada pontualmente por indivíduos a serviço de interesses privados ou de partidos, mas sim, como estratégia de conquista e preservação no poder por um partido a partir de sua direção central; e,
b) A finalidade dessa corrupção não é apenas financiamento eleitoral ocasional ou a compra eventual e pontual de votos no parlamento, mas sim, a compra regular e permanente de uma maioria parlamentar a partir de uma estratégia gradual de perpetuação do poder, usando as instituições democráticas para destruí-las.
Antes de o PT chegar ao poder, o financiamento eleitoral funcionava de outra maneira, não menos imoral ou ilegal do que a atual, mas qualitativamente diferente. Ou seja, os partidos procuravam os fornecedores do setor público em busca de patrocínio na véspera dos pleitos e pediam contribuição sugerindo garantia de resultados em novas licitações.
Se o partido estava no governo, liberava pagamentos de serviços já licitados, recebendo percentuais em troca. O detentor de mandato executivo sempre concorria em vantagem pelas contribuições devido à vantagem competitiva de posse da caneta que assina “os cheques”. Mas, por precaução dos patrocinadores, a oposição sempre recebia sua parte. Com o tempo esse custo foi embutido nos preços das contratações do setor público na forma de um sobrepreço, convertendo-se em “normalidade”.
Depois que o PT chegou ao poder, tudo indica que se introduziu uma mudança de modelo, especialmente após a tentativa amadora e fracassada de comprar políticos com malas de dinheiro vivo (mensalão).
Assim, os fornecedores do setor público e tomadores de crédito dos bancos oficiais, notadamente grandes empreiteiras e os escolhidos como “campeões nacionais” abençoados com financiamentos a juro subsidiado pelo BNDES, teriam sido procurados para montar um esquema de institucionalização do sistema.
Ou seja, os tradicionais financiadores de campanhas, para serem abençoados com os resultados das licitações deveriam se organizar em cartéis para distribuir entre si as obras públicas de todo o país, e, somente venceriam as licitações se garantissem, por antecipação, o pagamento regular e periódico de “mesadas” para o PT e partidos alugados.
Igualmente, os grandes tomadores de crédito dos bancos públicos somente teriam seus financiamentos liberados mediante a garantia do pagamento dessas mesmas “mesadas”, em percentuais abatidos dos créditos superfaturados recebidos.
*Paulo Moura, professor universitário, é cientista social, consultor de comunicação e marketing político em campanhas eleitorais e analista político e de pesquisas de opinião e de mercado