Fui colocar o sono em dia, porque em noite está muito difícil. Quando acordei, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, havia recomendado ao Supremo Tribunal Federal (STF) que não abra investigações sobre “um possível” envolvimento da presidente Dilma Rousseff no petrolão, da mesma maneira como fez em relação ao senador Aécio Neves.
Revolta. Gritaria. Memes. Pizzas por toda parte.
Venho me incluir fora, ao menos por enquanto, dessa especulação generalizada sobre Janot, embora apelar à sensação de impunidade do público talvez me rendesse mais visitas. Vamos lá.
Ninguém ignora os golpes do PT contra a Operação Lava Jato, enumerados e explicados neste blog aqui, aqui, aqui e aqui. O último deles, envolvendo o ministro José Eduardo Cardozo, o advogado-geral Luís Inácio Adams, o Tribunal de Contas da União e a Controladoria Geral da União, felizmente foi brecado pelo parecer do ministro Augusto Nardes, do TCU.
Agora, cada acordo de leniência entre a CGU e uma empreiteira do petrolão terá de passar antes pelo crivo do Ministério Público Federal e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, e não à margem da Justiça como queria o PT. Cada etapa de qualquer acordo será verificada por auditores do TCU e, para que seja aprovado pelo tribunal, ele precisará não apenas ser vantajoso economicamente para a administração pública, como “alavancar o processo investigativo na busca de outras pessoas físicas e jurídicas praticantes dos fatos delituosos”.
O que isso tem a ver com a lista de Janot?
Tem a ver que esses recentes golpes aparentemente fracassados do PT visavam impedir NOVAS delações premiadas temidas pelo partido, especialmente a de Ricardo Pessoa, dono da UTC e coordenador do cartel da Petrobras, que antecipou duas amostras de suas revelações demolidoras à VEJA, incluindo a doação de 30 milhões de reais a campanhas do PT e de Dilma, além de 3,5 milhões de reais entregues ao tesoureiro da presidente, Edinho Silva.
Já a lista de Janot se baseia em provas obtidas apenas nas primeiras fases da Lava Jato, as quais ele considerou insuficientes – e cabe a ele agir dentro da lei: “Diante das inúmeras e naturais variáveis decorrentes de uma investigação de tamanha complexidade, fiz uma opção clara e firme pela técnica jurídica”, explicou Janot em carta a integrantes do MP. “Afastei, desde logo, qualquer outro caminho, ainda que parecesse fácil ou sedutor”, completou.
Não condeno ninguém por pressioná-lo a ser rígido com Dilma. Apenas relembro que a ânsia de Justiça muitas vezes é o caminho da injustiça, inclusive com aquele que ainda poderá trazê-la.
Já é público, também, que os procuradores da Lava Jato confiam plenamente em seu trabalho, e o fato puro e simples de Dilma ter sabido do petrolão, segundo o doleiro Alberto Youssef, por enquanto é menos uma questão para o STF do que para a CPI da Petrobras – da qual aliás pode sair seu impeachment, se a oposição souber fazer o seu trabalho e o presidente Hugo Motta nãoamarelar de novo. (A julgar pela primeira reunião deliberativa, em que ele foi atacado por petistas e psolistas por tirar poder do relator Luiz Sérgio, do PT, anunciando quatro sub-relatorias que não devem ficar nas mãos do partido governante, Motta começou muito bem.)
Sim: Dilma se livrou de um inquérito por ora, mas diariamente surgem novas denúncias e os empreiteiros podem fechar acordos de delação com o MP, como fizeram noutro dia dois da Camargo Corrêa. Nas próximas semanas, ainda chegarão extratos bancários do exterior para ajudar no esforço de esquadrinhamento das contas dos operadores do esquema de corrupção.
Quanto a Aécio, a falta temporária de provas contra duas pessoas não as iguala em matéria de responsabilidades, como lamentam críticos do PT: ela só reúne seus nomes numa mesma lista.
Na de nomes com a letra F, por exemplo, eu estou na mesma de Fernando Collor.
