sexta-feira, 29 de julho de 2022

'Não deixe que transformem crianças em pacientes', por Frank Furedi

 

Foto: Shutterstock


Tratar problemas normais da infância como casos médicos fragiliza as novas gerações


Os brasileiros fariam bem em aprender com a terrível experiência do Reino Unido, onde crianças são cada vez mais levadas a médicos e tratadas como potenciais pacientes de saúde mental, e não como jovens.

Desde que pesquisei, há mais de duas décadas, para meu livro Paranoid Parenting (“Paternidade Paranoica”, em tradução livre), notei uma proliferação de relatos alarmistas sobre o estado supostamente aflitivo da saúde mental dos jovens. A cada ano, o número de problemas psicológicos que afligem os jovens parece aumentar. Normalmente, esses relatórios afirmam que “o problema é maior do que pensávamos” e que provavelmente vai piorar.

Segundo os assim chamados especialistas, o estado da saúde mental das crianças está sempre em crise, e a resposta deles é transformar a infância num caso médico e as crianças em pacientes ou pacientes em potencial. É por isso que não estou surpreso ao descobrir que as crianças na Inglaterra estão sendo medicadas em nível recorde com drogas para ansiedade, como o Valium! Sedar crianças está servindo como uma alternativa para lidar com problemas emocionais normais enfrentados por algumas delas.

De acordo com números divulgados em um recente questionamento da Câmara dos Lordes britânica, o número de crianças que receberam Valium aumentou quase 57% nos últimos quatro anos. Cresceu muito durante a pandemia. Esse aumento acentuado é atribuído à angústia causada pelo lockdown.

Sedar crianças está servindo como uma alternativa para lidar com problemas emocionais normais enfrentados por algumas delas

Durante o lockdown, relatórios sobre a saúde mental das crianças previam que a pandemia causaria uma crise de bem-estar entre os mais jovens. A mídia afirmou constantemente que a pandemia teria um impacto devastador na saúde mental das crianças. O jornal britânico Sunday Times publicou um artigo sobre como a covid-19 espalhou uma “epidemia de medo” entre os mais novos, pintou uma imagem infernal da vida dos jovens trancados, e de sua saúde mental deteriorada.

“Transtorno desafiador opositivo”

Na realidade, a medicação na infância e a repetição incessante da alegação de que a saúde mental das crianças está piorando começaram décadas antes da pandemia. Anos antes do lockdown, um relatório alarmista após o outro informava que o “problema é maior do que pensávamos e provavelmente vai piorar”. Um ano antes da pandemia, uma pesquisa com professores concluiu que a saúde mental dos alunos estava “no ponto de crise”. Dos docentes, 80% afirmaram que a saúde mental entre os alunos na Inglaterra havia se deteriorado nos dois anos anteriores.

Desde a década de 1980, a fabricação de patologias de saúde mental relacionadas à infância se transformou numa indústria. Pesquisas afirmam que a doença mental entre as crianças está aumentando. Esses relatórios insistem que as crianças estão mais ansiosas, estressadas e deprimidas do que no passado. O comportamento infantil é constantemente diagnosticado por meio de um rótulo psicológico. Um padrão similar também é verificado nos Estados Unidos e em todas as sociedades anglo-saxãs.

O comportamento infantil é constantemente diagnosticado por meio de um rótulo psicológico

É importante constatar que a tendência em medicar crianças diz muito mais sobre os poderes inventivos da imaginação terapêutica do que sobre as condições da infância. O que aconteceu é que a dor emocional da criança e suas ansiedades foram reinterpretadas através da linguagem da psicologia. Quando as crianças se comportam de maneira que foge ao normal, não as chamamos mais de rebeldes ou problemáticas, mas damos a elas um rótulo médico.

Crianças confusas ou inseguras são diagnosticadas como deprimidas ou traumatizadas. Presume-se que jovens agitados ou bagunceiros sofrem de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Crianças que dão trabalho aos seus professores ou discutem com adultos podem até ser rotuladas como vítimas de “transtorno desafiador opositivo”. Crianças que realmente odeiam ir à escola podem ter “fobia escolar”. Alunos preocupados com as provas são diagnosticados como sofrendo de “estresse de exames”. Em outras palavras, as respostas emocionais às experiências cotidianas estão sendo renomeadas na linguagem terapêutica.

A profecia autorrealizável

Como esperado, nos últimos 30 anos, as crianças introjetaram elementos dessa narrativa. Os jovens de hoje comunicam sem hesitação seus problemas em um vocabulário psicológico. Eles descrevem seus sentimentos em termos de estresse, trauma e depressão. Na década de 1940, o sociólogo Robert Merton caracterizou esse tipo de desenvolvimento como uma “profecia autorrealizável”. Ou seja, as suposições e as crenças sobre as pessoas as levam a se comportarem de maneira a confirmar essas suposições e crenças. Diga às crianças que elas sofrerão estresse, trauma e depressão ao passar por certas experiências, como exames escolares, e muitas começarão a responder a essas experiências precisamente nesses termos.

Uma vez que as crianças são instruídas a perceber o que antes era considerado uma infelicidade cotidiana através da linguagem da psicologia, é provável que adotem o papel atribuído a elas. A relação entre essa narrativa clínica de bem-estar e seu impacto é dialética. Ele não apenas enquadra a maneira como as pessoas devem se sentir e se comportar, mas também convida as pessoas a “não se sentirem bem”. É por isso que o “não estar bem” hoje se tornou parte da identidade de muita gente.

A experiência mostra que não há solução médica para os problemas da existência

Alguma coisa deu muito errado quando os muito jovens são tratados como pacientes em potencial e recebem medicamentos para lidar com a vida. É difícil discordar do professor Sami Timimi, psiquiatra consultor de crianças e adolescentes e diretor de Educação Médica do NHS (o sistema de saúde nacional britânico), que respondeu ao aumento no número de crianças prescritas com Valium afirmando que “estas estatísticas são chocantes e eu não acho que houve uma geração tão rotulada patologicamente como esta, o que é realmente preocupante”.

Valium goela abaixo

Mas o que realmente choca são as atitudes culturais que levaram à medicalização da infância e à tendência de considerar as crianças como pacientes em potencial. Ao retratar os jovens como potenciais pacientes de saúde mental, os profissionais médicos os enfraquecem e minam sua capacidade de resiliência.

Parece que a sociedade adulta acha mais fácil mandar as crianças para o médico do que educá-las para aprender a lidar com circunstâncias difíceis e os muitos problemas que elas provavelmente encontrarão. A experiência mostra que não há solução médica para os problemas da existência. Enfiar Valium goela abaixo das crianças fará pouco para ajudá-las a lidar com os problemas da vida. Pelo contrário, torna-as passivas e mina sua capacidade de lidar com os problemas. É por isso que não devemos deixar que transformem nossos jovens em pacientes permanentes.

Tenham cuidado, pais brasileiros!!!

Leia também “Parem de educar as crianças para se sentirem indefesas”

Revista Oeste