sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O Brasil de Alexandre de Moraes e Lula, por Adalberto Piotto

 As eleições de outubro são a chance de o país se livrar dos abusos do STF e de um governo capenga pendurado na Corte


O Brasil de Alexandre de Moraes e Lula


A lexandre de Moraes é Lula. E Lula é Alexandre de Moraes. Nos bastidores barulhentos de Brasília, há quem compare a relação indicando que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) é o líder da bancada do governo na Corte. A anedota política não é um exagero, embora constitucionalmente trágica. No escândalo atual que expõe o ex-todo-poderoso “Xandão” como o advogado de fato do banqueiro Daniel Vorcaro, preso acusado de corrupção, Lula, o PT e o ministro estão todos juntos e misturados. 

O terceiro mandato de Lula só existe e resiste pelo ativismo político desmesurado do Supremo Tribunal Federal, cuja parte mais barulhenta escolheu fazer política em vez de obedecer à Constituição. E tudo começa quando a Corte anula as condenações da Justiça Federal de Curitiba, com a malfadada e estapafúrdia “tese do CEP”, a tempo de reabilitar o ex-presidente politicamente e fazer dele o seu candidato. Até a paredes da Corte gritam que Lula se reelegeu e só governa por causa disso. Moraes, que já conduzia o Inquérito 4.781, o “do Fim do Mundo”, desde 2019, e o transformou na mais violenta ferramenta de perseguição da direita, dobrou a aposta. 

Tornou-se o maior prócere aliado de Lula na Corte. Desde então, não fez questão de disfarçar que seu gabinete tinha lado.

Os acenos entre Lula e Alexandre são muitos. Alguns que deveriam causar constrangimentos se os pudores ainda estivessem na moda na era sobre população de rua, mas ao ser anunciado para discursar, o ministro ouviu a plateia do lulopetismo tratá-lo como um dos seus. Aos gritos de “Xandão” e “Sem Anistia”, ganhou o afago “de mano” da primeira-dama e sorrisos de Lula. Era indisfarçável o deslumbre de todos que se imaginavam intocáveis em seus abusos. Parecia até uma comemoração. É que no mês anterior, Alexandre havia sido agraciado por Lula com a medalha da Ordem de Rio Branco, a mais alta distinção da diplomacia brasileira.

A relação era séria, de absoluta cumplicidade. Em novembro de 2025, mais um aceno, um mimo, outro agrado. Lula concedeu a Moraes a condecoração da Ordem Nacional do Mérito Educativo, também em sua mais alta distinção. Isso deveria causar espanto, revolta e sabe-se lá mais qual sentimento nos brasileiros que prezam pela democracia de verdade. Tamanho o absurdo, também nos que se beneficiam da atual ditadura.

É que entre as homenagens de novembro de 2023 e o final de 2025, o país vivia o pesadelo de uma ditadura. Cleriston da Cunha, o Clezão, preso injustamente nos atos do dia 8 de janeiro, havia morrido na cadeia, apesar de um parecer da Procuradoria-Geral da República concordar com sua prisão domiciliar por problemas de saúde. O documento ficou parado na gaveta do ministro Alexandre de Moraes, sem despacho, por 80 dias. Neste mesmo período, Filipe Martins foi perseguido de forma implacável, e prisões arbitrárias contra qualquer um que fosse de Direita foram determinadas sem o devido processo legal, com todos os abusos típicos de um estado de exceção. 

Atos ilegais vertiam do gabinete de Moraes, como se tudo fosse permitido ao ministro. Sem limites, sem observância da Constituição, só com condecorações de Lula. Era Alexandre liderando o governo no STF, tal como suas decisões inviabilizaram o governo Bolsonaro e interferiram na eleição de 2022 a favor da reeleição de Lula.


Flávio Dino, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes - Foto: Antonio Augusto/STF

O Alexandre das conversas com Vorcaro, do contrato de R$ 131 milhões do escritório da esposa com o Banco Master, que ele próprio, o ministro, teria editado e sobre o qual fora consultado, segundo nota oficial do próprio escritório, é o mesmo que interferiu na economia a favor de Lula. Quem não se lembra do caso do IOF, uma interferência grotesca em que Moraes derrubou uma decisão do Congresso e moldou sua sentença a favor — e a pedido — do governo? Naquele momento, Palácio do Planalto e o Legislativo discordavam sobre a aplicação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Transformado por Lula em arrecadatório via decreto presidencial, Câmara e Senado derrubaram a medida, alegando o óbvio: não se pode aumentar impostos por decreto sem redução dos gastos. Eleito por influência do STF, o governo Lula nunca teve maioria de votos nas duas casas. 

A eleição do presidente não combinava com a do Congresso. Alexandre de Moraes deu de ombros e anulou o decreto legislativo que derrubava o decreto presidencial. Democracia pra quê, não é? Como soberano, tomou uma decisão muito mais favorável ao governo federal. Os presidentes da Câmara e do Senado, pendurados em processos na Corte, não reagiram. A independência dos Poderes prevista na Constituição foi transformada em letra morta. No final, o Brasil pagou mais imposto por decisão monocrática de um ministro. 

Pressionado pelas pesquisas eleitorais que já mostram Flávio Bolsonaro empatado ou até à frente dele, Lula tenta agora desesperadamente se dissociar de Alexandre, tratado como radioativo pelos marqueteiros. Lula só pensa nele, não tem problemas em abandonar velhos aliados em momentos que possam comprometer seus objetivos de poder. Mas, desta vez, não bastasse ter o filho Lulinha, o irmão e o ex-assessor enrolados com outro escândalo, o do roubo de aposentados do INSS, afastar-se de Alexandre e do STF não será tão fácil. Não é que não cola, apenas. 

Não dá. Lula deve ao STF e, ainda mais, a Alexandre, seu companheiro de terceiro mandato. Tanto que fez questão de se regozijar no lançamento do SBT News, no ano passado, que foi à Casa Branca e interveio em favor do ministro na revogação da sanção Magnitsky aplicada a Moraes, veja só, por violação dos direitos humanos. Era para pagar dívida ou gerar ainda mais crédito dentro da relação que ofende a República. No mês passado, sem se incomodar com as câmeras, mais um gesto de intimidade foi flagrado: o convite a Moraes para um cafezinho nos bastidores. Era mais um pedido de Lula ao ministro. 

Dias depois, Alexandre de Moraes seria o anfitrião do jantar de reconciliação entre o presidente e Davi Alcolumbre. Dono do passado dos dois — no estilo “eu sei o que vocês fizeram no verão passado” —, o ministro do STF selou o acordo que fez o presidente do Senado dar andamento a pautas eleitoreiras do governo no Congresso.

Lula, Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro são a cara da República do PT que tomou de assalto o Brasil. O banqueiro foi recebido por Lula, no gabinete presidencial e fora da agenda, em 4 de dezembro de 2024, quando ouviu conselhos do presidente para não vender o seu banco ao BTG de André Esteves. Verborrágico e se achando dono do país, apontou como trunfo para Gabriel Galípolo, seu indicado ao Banco Central, que acabara de ser aprovado pelo Senado e assumiria a instituição em janeiro.

O acesso privilegiado de Vorcaro não era de graça. Além do mega contrato com a esposa de Moraes, custou milhões em consultorias com os ex-ministros Guido Mantega e Ricardo Lewandowski, além de favores ao senador Jaques Wagner — que teve um apartamento pago por Guga Lima, ex-sócio de Vorcaro, a título de adiantamento. Todos petistas e íntimos do presidente. 

Termino como comecei, porque as coisas são como estão. Lula é Alexandre. E Alexandre de Moraes é Luiz Inácio Lula da Silva. O desespero da campanha petista em tentar se afastar do escândalo que, segundo as investigações da Polícia Federal, expôs o ministro aliado do STF como o advogado de fato do banqueiro corruptor Daniel Vorcaro, não vai colar. Não dá. Cansados de tanta sujeira deste governo e de tantos abusos do STF, o Brasil ganhou a tempestade perfeita para lavar o país da imundície de corrupção e atraso que nos assola como nação.


O presidente Lula e o ministro Alexandre de Moraes em solenidade em Brasília | Foto: Wilton Junior/Estadão


Adalberto Piotto - Revista Oeste