sexta-feira, 4 de setembro de 2026

É nulo pedido de Gonet contra relatório da PF que o liga a Vorcaro, diz Eliana Calmon

 Relatório da PF detalha os vínculos Gonet-Vorcaro


A jurista Eliana Calmon foi a primeira mulher a ocupar o cargo de Superior Tribunal de Justiça (STJ) - Foto: Glaucio Dettmar/CNJ.



A jurista Eliana Calmon, primeira mulher a ocupar o cargo de ministra do Superior Tribunal de Justiça, afirmou que é nulo o parecer da Procuradoria-Geral da República pedindo a anulação do relatório da Polícia Federal. 

Segundo ela, a manifestação do procurador-geral Paulo Gonet “não tem nenhum valor jurídico, porque ele está envolvido nos fatos relatados pela Polícia Federal” e, por isso, “jamais poderia agir como PGR”. 

Calmon sustentou que Gonet deveria ter encaminhado o tema ao substituto legal, por estar “absolutamente impedido” e ser “suspeito”. A declaração da jurista foi noticiada no site direitoglobal.com.br.

O pedido de nulidade foi formulado pelo próprio Gonet depois que o ministro André Mendonça, relator no STF da Operação Compliance Zero, retirou o sigilo de um relatório de 218 páginas da PF, elaborado a partir de dados extraídos de um celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, preso em novembro de 2025. 

O documento não registra contato salvo como “Paulo Gonet” no aparelho do banqueiro. 

As menções ao PGR aparecem sobretudo em conversas com o advogado Ciro Soares, apontado pela PF como interlocutor entre os dois. Soares foi um dos defensores que impetraram habeas corpus no STJ contra a prisão preventiva de Vorcaro.

Abaixo, item a item, o que o relatório da PF descreve sobre essas relações.

1. Intermediação permanente de Ciro Soares
A PF localizou, em chats de WhatsApp, menções a pessoa que “pode se tratar de Paulo Gonet”, especialmente nas conversas de Vorcaro com o terminal salvo como “Ciro Soares”. O advogado encaminha recados, fotos e áudios e, em vários trechos, atribui as mensagens ao PGR.

2. Interferência atribuída a Gonet em eleição do CNPG (abril de 2024)
Em 14 de abril de 2024, Soares escreveu a Vorcaro: “Amizade é tudo viu irmão” e “Gonet é firme”. Pediu que o banqueiro lesse uma mensagem encaminhada e reforçou: “Fique só com vc”. Em áudio, o advogado relatou: “Cara, eu pedi o Gonet ontem, ele me ligou falar um assunto, aí eu falei, Gonet, pede o cara para tirar a candidatura, pede o cara que o cara vai tomar uma porrada arretada. Aí o Gonet me ligou ontem à noite e falou: Ciro, acabei de ligar para ele, ele vai desistir.” Vorcaro perguntou se “o cara largou?”; Soares confirmou; o banqueiro respondeu “Top demais”. O contexto, segundo a PF e reportagens que reproduziram o material, era a disputa pela presidência do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais (CNPG), em favor de Jarbas Soares Júnior, então procurador-geral de Justiça de Minas Gerais e irmão de Ciro. Jarbas assumiu o colegiado em 15 de maio de 2024. Uma mensagem de Jarbas, encaminhada a Vorcaro, agradece a “presença mais próxima do PGR Dr. Gonet”.

3. Foto ao lado de Gonet e ligações em cadeia (15 de março de 2025)
Ciro Soares enviou a Vorcaro uma selfie ao lado de Paulo Gonet e escreveu: “Liga aqui” e “Ele quer falar com você”. A perícia registrou chamadas consecutivas entre o banqueiro e o advogado na sequência, o que a PF interpretou como indício de que Vorcaro teria falado com Gonet pelo aparelho de Soares.

4. Mensagens de “saudade”, “torcida” e convite a Londres (28 e 29 de março de 2025)
Soares encaminhou a Vorcaro textos que atribuiu ao PGR: “Que bom! Estou na torcida por vocês!” e “Já estou com saudades de você! Estou embarcando para Roma”, além da instrução “Manda essa mensagem para ele”. O advogado acrescentou que Gonet “lhe adora” e “vai para Londres com a gente”. Encaminhou ainda o comentário “Oba!!! Tomara que tenha charuto e macalan!”. Vorcaro respondeu pedindo para agradecer o carinho e falando em marcar um encontro. No dia seguinte, Soares disse que “Gonet perguntou se o filho dele pode ir com a gente para Londres”. Vorcaro respondeu: “Obvio ne”. Soares também encaminhou a frase “Você é uma máquina”, atribuída a Gonet. O fórum jurídico em Londres, patrocinado pelo Master, acabou cancelado.

5. Custeio da viagem de Pedro Gonet
Em 11 de abril de 2025, a funcionária identificada como “Ana Matos Mkt” perguntou a Vorcaro se nomes da lista estavam aprovados “para irem pra Londres com despesas pagas por nós”. O banqueiro rejeitou a lista ampla (“Piraram”, “Não da para bancar outros”), mas autorizou: “Pedro e ciro ok” — referência, segundo a PF, a Pedro Gonet, filho do PGR, e a Ciro Soares. Em junho de 2025, Soares voltou ao tema: “PG confirmou a ida para Londres” e perguntou se o “Pedrinho, filho do PG, pode ir com a gente?”.

6. Ida à PGR após reportagem sobre o Master
Em abril de 2025, depois de reportagem sobre operações entre o Banco Master e o BRB, Soares disse a Vorcaro que precisava falar com urgência e que estava “indo no PG agora”.

7. Pedido para “reforçar com Andrei e Paulo” às vésperas da prisão
Em notas do celular de Vorcaro e em mensagens enviadas a interlocutor que a PF associa a Alexandre de Moraes, o banqueiro pediu, em novembro de 2025, que se reforçasse a situação com “Andrei e Paulo”, para que “ninguém de baixo” fizesse “uma sacanagem”, senão iria “tudo pro saco”. A PF registra que “Andrei” pode indicar o então diretor-geral da PF, Andrei Passos Rodrigues, e “Paulo”, o procurador-geral Paulo Gonet. Vorcaro foi preso em 17 de novembro de 2025, na Operação Compliance Zero.
Gonet pediu a anulação do relatório sob o argumento de que Mendonça teria excedido a competência do relator ao determinar exame do material com foco em autoridades específicas, sem pedido do Ministério Público. No parecer, o PGR não tratou publicamente das mensagens em que o próprio nome aparece. Calmon inverte o raciocínio: justamente porque Gonet figura nos fatos narrados pela PF, ele estaria impedido de opinar sobre a validade do documento.
As atribuições ao PGR, é preciso registrar, passam pelo filtro de Ciro Soares. A PF trabalha com inferência a partir de encaminhamentos, fotos, áudios e contexto — não com um chat direto salvo em nome de Gonet no telefone de Vorcaro. Isso não apaga o conteúdo das peças tornadas públicas; apenas delimita o que o relatório prova de forma direta e o que reconstrói por cadeia de interlocução. É sobre esse conjunto que Eliana Calmon afirma que o chefe da PGR não poderia atuar.


Diário do Poder