sábado, 29 de novembro de 2025

'A realidade que o Ocidente fingiu não ver', por Ana Paula Henkel

A administração Joe Biden optou, em 2021, por flexibilizar os critérios de entrada de afegãos. A urgência humanitária serviu de justificativa política, mas a triagem foi falha e a fronteira converteuse em uma avenida aberta


Agentes da lei se reúnem em uma área isolada após dois membros da Guarda Nacional terem sido baleados perto da Casa Branca, em Washington, D.C., EUA, em 26 de novembro de 2025 - Foto: Nathan Howard/Reuters 


D urante um bom tempo, discutir sistemas de imigração foi tratado como falta de compaixão. Como se proteger fronteiras fosse um ato de hostilidade, e não de responsabilidade. Por anos, elites políticas e parte significativa da imprensa repetiram que exigir critérios, triagem e lei era sinal de intolerância. Até que a realidade começou a cobrar a conta. Desta vez, foi em Washington, no coração político dos Estados Unidos, a poucas quadras da Casa Branca. 

Dois soldados da Guarda Nacional da Virgínia Ocidental patrulhavam o centro da capital americana quando foram surpreendidos por disparos à queima-roupa. Uma das balas atingiu o pescoço de Sarah Beckstrom, uma jovem de apenas 20 anos. Outra feriu gravemente o cabo Andrew Wolfe, de 24. Sarah não resistiu e faleceu na quinta-feira, 27 de novembro. 

O atirador não era um cidadão americano. Não era sequer um imigrante documentado e legalizado no país. Rahmanullah Lakanwal, afegão de 29 anos, entrou nos Estados Unidos em 2021, no fluxo de refugiados aceitos às pressas após a retirada caótica das tropas americanas de Cabul durante o governo Biden. Chegou com status provisório, viveu sem rastreamento, sem visto permanente e sem controle migratório real.

Há uma informação ainda em verificação por diferentes veículos e que levanta novas dúvidas sobre os mecanismos de seleção de refugiados nos EUA: relatos preliminares indicam que Rahmanullah Lakanwal teria tido sua solicitação de asilo aprovada em abril de 2025, já sob a administração Trump. A confirmação oficial ainda está em apuração, mas o simples fato de essa possibilidade existir reacende um debate mais amplo: o processo de checagem e triagem aplicado a refugiados e solicitantes de asilo é realmente capaz de identificar perfis de risco? 

Se o atirador passou por esse filtro e foi aprovado, surge a pergunta que Washington tenta responder desde o ataque: quem está avaliando essas pessoas, com quais critérios, e até que ponto os protocolos atuais conseguem distinguir colaborador de ameaça potencial? O caso, além de doloroso, pode se tornar um divisor de águas na revisão dos sistemas de triagem migratória previstos para os próximos meses. 

A administração Joe Biden optou, em 2021, por flexibilizar os critérios de entrada de afegãos. A urgência humanitária serviu de justificativa política, mas a triagem foi falha, superficial, insuficiente para lidar com milhares de pessoas cuja procedE aqui, não se trata de metáfora. Trata-se de Sarah, uma jovem fardada que acreditava estar servindo e protegendo o seu país, quando, na verdade, era o país que havia deixado de protegê-la. 

Seu nome agora se torna mais uma lápide na conta de uma política pública que confundiu compaixão com imprudência, e que expõe sua fatura mais alta: vidas que não voltam, famílias que se dilaceram, e uma Nação que desperta tarde demais para a realidade que ignorou durante anos.ência era, em muitos casos, impossível de verificar completamente. A fronteira converteu-se em uma avenida aberta, sem portões, sem segurança. 

E quando um país  não controla quem entra, também perde o controle do que acontece depois.

E aqui, não se trata de metáfora. Trata-se de Sarah, uma jovem fardada que acreditava estar servindo e protegendo o seu país, quando, na verdade, era o país que havia deixado de protegê-la. Seu nome agora se torna mais uma lápide na conta de uma política pública que confundiu compaixão com imprudência, e que expõe sua fatura mais alta: vidas que não voltam, famílias que se dilaceram, e uma Nação que desperta tarde demais para a realidade que ignorou durante anos.

 

Rahmanullah Lakanwal, 29, é acusado de balear Sarah Beckstrom e Andrew Wolfe - Foto: Reprodução/ X


Durante a campanha de 2024, Donald Trump retomou com vigor a bandeira que o consagrou em 2016: proteger as fronteiras americanas, priorizar a segurança interna e colocar a vida dos cidadãos e residentes legais no centro das decisões do Estado. Seus discursos, diretos e sem eufemismos, sustentavam que nenhum país permanece livre se não controla quem entra em seu território, e que a compaixão sem filtro não é virtude, mas imprudência. O tema, por anos tratado com constrangimento pelas elites encasteladas, transformou-se em ativo eleitoral. Em um país exausto por crises migratórias, cidades sobrecarregadas e sensação crescente de vulnerabilidade, o discurso de soberania e proteção não apenas ganhou ressonância — foi decisivo para sua vitória.

Donald Trump classificou o atentado desta semana como terrorismo, covardia e ódio, e anunciou a revisão completa das permissões migratórias concedidas a cidadãos de nações consideradas de risco. Foi um recado duro, objetivo e previsível: os Estados Unidos retomam, ainda que tardiamente, a defesa de suas fronteiras. A pausa na concessão de vistos e na tramitação de pedidos de asilo de afegãos não é apenas medida administrativa; é mudança de clima político. A complacência ideológica perdeu o verniz moral. A realidade rompeu o véu da hipocrisia.


A civilização ocidental é forte e já sobreviveu a muitos desmandos, mas protegê-la requer zelo constante e rigor, não ingenuidade.


Há poucos anos, questionar políticas migratórias era, no Ocidente, um ato quase proibido, sinônimo de insensibilidade, falta de empatia, suposta xenofobia. Líderes evitavam o debate, jornalistas suavizavam números, universidades tratavam o tema como tabu moral. Defender controle de fronteiras era ser “reacionário”, “populista”, “antihumanitário”. O establishment progressista decretou que o bem residia no acolhimento irrestrito e que o mal estava em perguntar quem entra, por que entra e com quais antecedentes. Foi essa moral invertida que permitiu o ingresso de Rahmanullah Lakanwal. Foi essa moral invertida que matou Sarah. 

Agora, porém, o eixo parece estar se deslocando. Não por ideologia, mas por urgência prática. Dinamarca, Reino Unido e Irlanda, antes defensores entusiastas de fronteiras fluidas, passaram a restringir de forma severa o acesso de imigrantes e solicitantes de asilo. 

A Dinamarca anunciou que vai endurecer o processo de residência permanente, limitar benefícios a imigrantes recém-chegados e transferir refugiados para instalações desconfortáveis como forma de desencorajar a permanência massiva. 

O Reino Unido decidiu ampliar o tempo necessário para cidadania (de 5 para 20 anos), restringir apoio financeiro, eliminar a reunião automática de familiares e acabar com o modelo de hospedagem de requerentes em hotéis. 

A Irlanda segue no mesmo caminho. Nos últimos meses, o país aprovou um amplo endurecimento de suas regras de imigração e asilo: quem solicita proteção internacional ou busca naturalização deverá agora comprovar autonomia financeira, ausência de dívidas ao Estado e não ter recebido determinados benefícios sociais nos dois anos anteriores. A exigência mínima de residência para cidadania aumentou, e as regras de reunificação familiar tornaram-se mais rígidas: os requerentes deverão demonstrar meios financeiros e moradia adequada para acolher parentes. O acesso à cidadania poderá ser negado a quem já viveu ilegalmente no país.

Esse movimento na Europa não é coincidência histórica: é reação. O que ontem era chamado de radicalismo é, hoje, política pública. O que antes era denunciado como “agenda xenófoba” é, agora, reconhecido como simples defesa da soberania. 

Donald Trump não mudou esse caminho sozinho, mas foi o primeiro a pagar o preço político por dizer o óbvio em voz alta. Ele não discutiu o mundo como desejavam que fosse, mas como o mundo é — e foi ridicularizado e hostilizado por isso. Agora, o próprio establishment que o demonizou adota aquilo que ele apontou há quase uma década. O futuro, enfim, encontra a realidade e expõe o óbvio: “causas humanitárias” não podem caminhar ao lado da negligência estatal.


Donald Trump, durante pronunciamento sobre o atentado em Washington | Foto: Reprodução 

O desafio, daqui para frente, não é apenas fechar brechas migratórias, mas resgatar a noção de responsabilidade. Não se cobra culpa coletiva de uma comunidade inteira por um crime. Mas se cobra responsabilidade de um governo que permitiu a entrada sem rigor. Um Estado civilizado protege o inocente antes do risco. Um governo maduro compreende que compaixão sem prudência é crueldade disfarçada. O discurso humanitário que ignora a segurança transforma-se, inevitavelmente, em tragédia. 

Os defensores do modelo vigente tentarão reduzir o episódio a um incidente isolado. Dirão que casos como o de Lakanwal são raros, excepcionais. Talvez sejam. Mas basta um. Basta um tiro para encerrar uma vida. 

Basta um documento concedido sem verificação para transformar uma política em fatalidade por procuração. Segurança nacional não se mede pela média estatística, mede-se pela consequência do erro. E a consequência será enterrada no fim de semana. Tem nome. Tinha sonhos. Tinha 20 anos. Washington agora vive o dilema que o Ocidente tenta adiar há décadas: como conciliar abertura e responsabilidade? Como equilibrar acolhimento e soberania? Como exercer compaixão sem abdicar do dever primário de proteger seus próprios cidadãos? 

A resposta se impõe, lenta, porém inevitável: o Estado que renuncia à defesa de suas fronteiras renuncia também ao direito de existir. A paz não se sustenta na boa intenção. Sustenta-se na ordem, na lei, na capacidade de dizer sim — e de dizer não. Sarah Beckstrom não terá outra chance. Sua família jamais verá o futuro que ela prometia. Os Estados Unidos, porém, ainda têm a oportunidade de reescrever seu curso e mostrar ao mundo que soberania não é palavra suja — é pedra angular que sustenta a civilização. 

Nenhuma nação permanece grande se transforma seu território em corredor, suas fronteiras em véu simbólico, sua segurança em gentileza abstrata. Nenhum país sobrevive por muito tempo ignorando quem entra, por que entra e sob quais riscos entra. A liberdade americana sempre foi imensa demais para caber num mundo ingênuo, mas é igualmente frágil para sobreviver sem vigilância.



Membros da Guarda Nacional, da esquerda para a direita, o Sargento Andrew Wolfe e a Especialista Sarah Beckstrom | Foto: Reprodução/MS Now 

Talvez o Ocidente esteja, enfim, acordando. Não pela sabedoria, mas pela dor. Não pela elegância do debate, mas pelo estampido de uma arma na capital da maior democracia do planeta. A morte de uma soldado de vinte anos deve ser o ponto de inflexão de uma política, se encarada com honestidade e coragem. 

Que o nome de Sarah Beckstrom não desapareça entre manchetes. Que seu sacrifício não seja estatística, mas alerta. Que seu corpo não tenha servido apenas à pátria que ela amou e jurou defender, mas à lucidez de um tempo que ainda hesita em proteger o que construiu. 

A civilização ocidental é forte e já sobreviveu a muitos desmandos, mas protegê-la requer zelo constante e rigor, não ingenuidade. Não deixamos a porta de casa aberta para estranhos entrarem livremente; tampouco uma nação pode sobreviver se age como se não tivesse muros. 

Fronteiras escancaradas não são generosidade — são renúncia. E toda renúncia cobra seu preço, às vezes tarde demais para evitar o luto

Ana Paula Henkel - Revista Oeste