domingo, 28 de maio de 2017

Viagem de Trump foi calcada na experiência do homem de negócios

MONIQUE SOCHACZEWSKI e NAJAD KHOURI - Folha de São Paulo


A visita de Trump à Arábia Saudita e Israel foi histórica. Foi o primeiro caso recente de presidente dos EUA que inaugurou viagens internacionais sem ser para Canadá ou México. Fez voo direto de Riad a Tel-Aviv. Foi ainda o primeiro presidente no exercício do cargo a visitar o Muro das Lamentações, local mais sagrado do judaísmo. O tempo dirá o que de concreto surgirá das relações que ali estabeleceu, mas vale aqui algumas reflexões.

Na Arábia Saudita, a visita de Trump foi vista como sinalização da renovação das relações estratégicas, iniciadas em 1945 entre Roosevelt e Ibn Saud. Por estas, os americanos garantiriam segurança saudita em troca de abastecimento ininterrupto de petróleo aos EUA e aliados.


Em 2015, sob Obama, essa aliança foi abalada com a assinatura do acordo nuclear com o Irã, principal rival regional saudita. E desde 2011, em função da produção americana de "tight oil", a dependência energética do Oriente Médio diminuía.

A reunião entre Trump e Salman foi assim movimento para aparar arestas. Oficialmente, o encontro tratou de segurança, estabilidade regional e combate ao terrorismo transnacional. O foco, porém, foi a contenção da interferência iraniana nos países árabes. Para Riad, Teerã vem projetando poder através da religião, cultura e ajuda assistencial, bem como pela intervenção militar na Síria, Iêmen, Iraque e Líbano.

Celebraram-se também acordos comerciais de US$ 300 bilhões em encomendas civis e cerca de US$ 110 bilhões em equipamentos bélicos. Essas negociações articulam e operacionalizam o "America First" de Trump e a "Visão 2030" saudita, plano que prevê a modernização da economia e redução da dependência do petróleo até o fim da próxima década.

Em Israel, a expectativa em relação a Trump era alta desde sua eleição. A extrema direita, em especial, via-o quase como um "messias". Às vésperas da viagem essa visão já mudava com Trump mantendo na prática a embaixada em Tel-Aviv, falando contra assentamentos e aventando reconhecimento de um Estado palestino.

Trump chegou ao país em fase de luta intra-direitista, com o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu enfraquecido por investigações criminais e questionado pelo ministro da Educação Naftali Bennett, defensor de retórica mais assertiva contra o Estado palestino. O discurso de Trump, porém, foi de que vinha direto de Riad e de encontro com líderes árabes, em que estes se mostravam prontos para se aproximar de Israel, caso o processo de paz com palestinos andasse.

As conversas giraram então, em grande medida, mais numa tentativa de intermediação entre Israel e países árabes em função do temor comum tanto do Estado Islâmico como do Irã, do que questões específicas sobre palestinos. Ao que tudo indica, a visita foi mais favorável a Bibi que a Bennett, com pesquisa feita após esta indicando vitória fácil do Likud em próximas eleições.

Apesar das muitas críticas, a ida de Trump ao Oriente Médio parece ter sido calcada em sua experiência de homem de negócios, buscando criar ambiente favorável para negociações futuras.

Para sauditas, a viagem restaurou laços de cooperação estratégica e confirmou o país como líder regional e mesmo pan-islâmico. Não se pouparam críticas ao Irã, com os sauditas, inclusive, sinalizando a possibilidade de reconhecimento de Israel, dentro de certos parâmetros.

Israel e Arábia Saudita compartilham preocupações comuns no cenário regional, porém ainda não a ponto de fazer aliança aberta. Resta saber se Trump vai conseguir, como disse o presidente do Egito, Abdel Fattah al-Sisi, "realizar o impossível".

MONIQUE SOCHACZEWSKI é professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares da ECEME
NAJAD KHOURI é economista pós-graduado em Relações Internacionais pela FGV

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