sábado, 13 de maio de 2017

Radiografia de uma fraude (2): A executiva

Com Blog do Augusto Nunes - Veja

Assim como nunca foi além da segunda divisão da luta armada, Dilma percorreu sem queixumes os caminhos escolhidos pelo marido da vez


Dilma Rousseff em 1991, quando era presidente da Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul
Dilma Rousseff em 1991, quando era presidente da Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul (Mauro/Zero Hora/VEJA)

Brizola confessou que nunca entendeu direito o que dizia aquela mineira que trocou o PDT por uma secretaria no governo do PT

A Dilma Rousseff dos relatórios hiperbólicos dos órgãos de segurança também nunca foi vista pelos dois maridos de Dilma Vana Rousseff, filha da mineira Dilma Jane, dona-de-casa, e do búlgaro Pedro Rousseff, advogado e empresário. Sorte deles. Caso a cônjuge correspondesse à descrição superlativa da polícia política, os noivos incautos teriam acumulado derrotas devastadoras na guerra conjugal travada contra a superguerrilheira sem paciência, voluntariosa, onisciente, nascida para comandar e conduzir, que distribuía ordens e pitos entre marmanjos de alta periculosidade empenhados em derrubar a ditadura militar a bala.
Como essa Dilma nunca existiu, ambos conviveram sem maiores sobressaltos com uma mineira de Belo Horizonte que sempre falou pouco, jamais abrilhantou encontros secretos com intervenções luminosas, nunca foi além da segunda divisão da luta armada e percorreu sem queixumes os caminhos escolhidos pelo marido da vez.
Por decisão do primeiro, o também mineiro Cláudio Galeno de Magalhães Linhares, Dilma filiou-se a uma organização comunista chamada Política Operária, a Polop, e depois se transferiu para o Comando de Libertação Nacional, o Colina. Por decisão do segundo, o gaúcho Carlos Franklin Paixão de Araújo, juntou-se à Vanguarda Popular Revolucionária-Palmares e, em 1973, depois de três anos na prisão, foi para o Rio Grande do Sul e para o PDT de Leonel Brizola. Ali, seguiu o script escrito de ponta a ponta pelo parceiro influente no partido.
O primeiro emprego público relevante caiu-lhe no colo em 1986, quando o prefeito Alceu Collares, a pedido de Carlos Araújo, instalou na Secretaria da Fazenda de Porto Alegre uma correligionária que mal conhecia. Ao deixar o cargo dois anos mais tarde, para dedicar-se à campanha do marido candidato à prefeitura, Dilma recomendou ao jornalista Políbio Braga que recusasse o convite para substituí-la. “Não assume não, que isso pode manchar a tua biografia”, avisou. “Eu não consigo controlar esses loucos e estou saindo antes que manche a minha”.
Políbio admitiria tempos depois que talvez devesse ter examinado a sugestão com mais carinho ─ mas por outros motivos: “Ela não deixou sequer um relatório. A secretaria era um caos”. Esse arranhão no autorretrato da superexecutiva foi ampliado no ano seguinte com a curta passagem pela diretoria-geral da Câmara de Vereadores. “Eu a exonerei porque houve um problema com o relógio de ponto”, lembra o ex-presidente Valdir Fraga. “Ela chegava atrasada todo dia”, traduz um assessor. De novo pelas mãos de Araújo, saiu do limbo em 1990, graças à chegada de Collares ao governo gaúcho. Presidiu por três anos a Fundação de Economia e Estatística e, em 1993, virou secretária de Energia, Minas e Comunicações.
A ascensão seria encurtada se o marido não se tivesse equivocado em 1986: em vez de apoiar Pedro Simon, adversário histórico do regime militar e candidato a governador pelo PMDB, Dilma também defendeu a aliança com o PDS de Nelson Marchezan, que ofereceu ao PDT a vaga de vice. Ela não viu nada de estranho na parceria com o deputado federal que comandara a Câmara durante o governo do general João Figueiredo? Nem com o partido que dera sustentação parlamentar à ditadura? “Marchezan foi líder da ditadura, mas nunca foi um enragé”, desconversou vinte anos depois da derrota. “A ala Marchezan era a ala da pequena propriedade radicalizada. E ele era um cara ético”. Ninguém entendeu o palavrório. Mas, como Dilma falava só de vez em quando, os ouvintes acabaram assumindo a culpa: deveriam ter prestado mais atenção ao pronunciamento de uma sumidade.
Assim seria em 2000. Dois anos antes, a bordo do acordo entre o PDT e o PT do governador Olívio Dutra, Dilma voltara à secretaria de Energia. Forçada a decidir-se entre Alceu Collares e Tarso Genro, que disputavam a prefeitura de Porto Alegre, optou pelo PT para continuar no emprego. Contrariou o marido pela primeira vez, renegou o padrinho, fez de conta que a aliança com Marchezan não existiu e ressuscitou o vocabulário da juventude: “Não aceito alianças neoliberais e de direita”. Brizola mirou na testa dos pedetistas que, como Dilma, migraram para o PT depois da vitória de Tarso no segundo turno: “Eles se venderam por um prato de lentilhas”.
Ao fim de uma reunião do PDT gaúcho de que Dilma participara, Brizola confessou que, “talvez porque essa moça fale pouco”, não conseguia entender direito o que ela dizia. Morreu sem saber que ninguém entende dilmês.

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