domingo, 14 de maio de 2017

Clóvis Rossi: "O Brasil precisa de um Emmanuel Macron"

Folha de São Paulo


É o sonho de significativa parte dos brasileiros a lista (parcial) que o "República Em Frente!", o movimento encabeçado pelo novo presidente francês, Emmanuel Macron, apresentou para o pleito legislativo de junho.

Começa pelo fato de que 95% dos candidatos não são deputados em exercício e 52% jamais o foram.

Conhecida que é, no Brasil, a rejeição ao mundo político dominante e, em especial, aos atuais congressistas, uma renovação de porte semelhante seria aplaudida de pé (por mim, a renovação deveria ser até mais ampla). A rejeição é tão elevada que até um dos partidos-âncora da política brasileira, o PSDB, se diz agora disposto a fazer uma "nova política". Seria risível, não fosse cinismo puro.

O partido de Macron ainda cravou perfeita igualdade de gênero na sua lista: 214 homens e 214 mulheres. No Brasil, a legislação obriga incluir apenas 30% de mulheres nas listas de candidatos aos pleitos legislativos -e, mesmo assim, a obrigatoriedade é quase sempre driblada.

Como o país foi forjado pelos homens e chegou ao ponto a que chegou, é forçoso imaginar que as mulheres estão condenadas a fazer melhor que nós, homens. É verdade que o fracasso redondo de Dilma Rousseff me desmente, mas prefiro acreditar que foi um ponto fora da curva.

Por fim, a lista Macron inclui 52% de personalidades da sociedade civil, uma força importante e, em geral, renovadora, que, no entanto, foge, no Brasil, de se misturar à sujeira que vê na política partidária e eleitoral.

Não é apenas pela lista que o movimento do novo presidente francês merece atenção e até inveja. Não estou me referindo a aspectos pontuais de seu programa de governo, mas à agenda macro que ele pôs em circulação na campanha vitoriosa.

Começa com o fato de que engrossou seu movimento de baixo para cima, ao contrário do que sempre ocorre no Brasil. Continua com o fato de que está tentando incorporar o melhor da esquerda e o melhor da direita. Pode ser demagógico, irrealista, o que se quiser, mas é pelo menos um ensaio de superar o estéril debate entre duas correntes tradicionais.

Tratar-se-ia, diz a "El País" Alain Minc, intelectual de referência na França e conselheiro de Macron, de criar um "populismo mainstream". Traduzindo: "um populismo não extremista, que aceita as regras dominantes da modernidade".

Num Brasil avesso a extremismos mas simpático a populismo (Lula só se elegeu quando caminhou para o centro), é uma receita que, em tese, faria sucesso.

Quando fala em "modernidade" -conceito que pode ter diferentes significados-, Minc está se referindo a uma agenda que, no Brasil, mal chega a pôr a cabeça para fora: uma transição ecológica, a revolução digital, a modernização dos serviços públicos e a melhora da capacitação profissional.

E há um valor concreto para dar início à agenda: € 50 bilhões (R$ 170 bilhões).

O Brasil precisa desse tipo de mexida, mas não vejo ninguém que possa encabeçá-la nem sei se o país, tão medíocre como anda (ou sempre foi), esteja maduro para ela.

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