domingo, 28 de maio de 2017

"Brasil é tão otimista quanto imaturo, o que eleva as chances de frustração", por Marcelo Neri

Folha de São Paulo

Economista sustenta que o brasileiro tem dificuldade de conciliar expectativas individuais e projetos coletivos. Desse impasse, diz o autor, advém a incapacidade de fazer concessões que preparem terreno para gerações futuras, um problema agravado pela crise. Exemplo disso é a resistência à reforma da Previdência.

Eduardo Anizelli/Folhapress
Manifestantes protestam contra as reformas da Previdência, trabalhista, e por eleições diretas em Brasília
Manifestantes protestam contra as reformas da Previdência, trabalhista, e por eleições diretas em Brasília

A crise na qual o Brasil se encontra é daquelas que acontecem a cada meio século e deixam marcas por um período longo. Ela é fruto da combinação de forte desequilíbrio nas contas públicas com uma situação de produtividade estagnada.

Seja qual for o desfecho do episódio iniciado pela delação da JBS, convém não perder de vista o longo prazo. Para além dos arranjos de conjuntura, o país precisa enfrentar desafios estruturais.

O maior deles é realizar mudanças na Previdência. Seus impactos econômicos são conhecidos. Talvez falte entender melhor as causas da resistência à reforma e suas consequências sociais.

Para isso, lançamos mão de dados sobre respostas subjetivas da população em 160 países pelo Gallup World Poll. O caráter internacional do levantamento permite diferenciar a visão do brasileiro daquela vigente em outras nações.

Exploramos dois tipos de evidência sobre nossas particularidades. A primeira é a existência de forte otimismo do brasileiro em relação a seu próprio futuro, o que é possível depreender da elevada expectativa de satisfação individual dos entrevistados.

De 2006 a 2014, a nota média de felicidade esperada para cinco anos depois entre as pessoas ouvidas por aqui foi de 8,69 pontos, numa escala de 0 a 10. O Brasil se manteve em primeiro lugar na classificação todas as nove vezes em que a pesquisa foi a campo.

Tal regularidade empírica fornece pistas sobre problemas derivados do otimismo individual do brasileiro, como o baixo índice de poupança familiar e a alta taxa de juros. Além dessa dificuldade nacional de lidar com o tempo e o planejamento, a questão da Previdência reflete uma inconsistência coletiva.

Uma segunda regularidade do levantamento é a baixa expectativa de cada brasileiro quanto à felicidade geral do país, indicando dissonância aguda entre a visão dos filhos deste solo sobre sua vida particular e sobre o conjunto da população. Apresentamos a nona maior diferença entre notas individuais e coletivas num universo de 160 países. Como cada brasileiro pode dar nota tão alta para sua vida e tão baixa para a vida de todos?

Esse descompasso sugere uma relutância em pensar em termos coletivos que torna o todo menor do que a soma das partes.

Daí a necessidade de coordenação da sociedade. O enfrentamento de problemas coletivos pauta os principais avanços ocorridos nas últimas quatro décadas, tais como a volta gradual da democracia a partir dos anos 1980, a estabilização da inflação em meados dos anos 1990 e a queda da desigualdade de renda nos anos 2000.

Nos dias correntes, marcados pela corrupção, o repúdio consensual contra os desvios de recursos guarda a promessa de unir um país ainda mais dividido.

Não basta, contudo, que a sociedade reaja coesa ao inadmissível. É preciso distinguir as condições necessárias das suficientes.

A agenda de transformações que se impõe tem essa natureza coletiva e temporal. A dificuldade de reformar a Previdência é fruto dessa jabuticabeira: cada um espera muito para si e não enxerga o outro.

PAÍS IMATURO

A satisfação com a vida no presente é relativamente estável em todas as faixas etárias mundo afora. Já a expectativa de contentamento no futuro cai com o avanço da idade, passando de 7,4 pontos, aos 15 anos, para 5,5 depois dos 80 anos.

Juventude é um estado de espírito, marcado pela atitude diante do futuro. O jovem acredita que o melhor ainda está por vir. Como mencionado, somos eneacampeões mundiais de expectativa de felicidade futura –ou de atitude jovem. 

O que nos permite reconciliar duas qualificações atribuídas ao Brasil: "país do futuro", para alguns, "país jovem", para outros.

Mais do que um país de jovens na sua composição demográfica, o Brasil é um país habitado por jovens de espírito. A média de felicidade futura do brasileiro de 15 a 29 anos é de 9,3, índice superior ao de qualquer outro país pesquisado. Nos levantamentos feitos até 2014, a nota média do jovem brasileiro jamais caiu abaixo de 9.

O povo brasileiro é tão otimista quanto imaturo. O corolário da alta expectativa juvenil é uma elevada probabilidade de frustração.

Em termos demográficos, o Brasil vive desde 2003 uma onda jovem que deve se prolongar ao menos até 2023. Nesse interregno, haverá no país 50 milhões de jovens, o maior contingente dessa faixa etária que já tivemos.

Caberá a essa geração arcar com os custos da nossa incapacidade de implementar soluções razoáveis para financiar o fato de vivermos mais. A cada três anos, a expectativa de vida do brasileiro sobe um ano, o que é sensacional, mas exige responsabilidade.

A principal vítima da crise econômica prolongada é o jovem. Não falo da conta que ainda será cobrada pelo deficit da Previdência. Falo das perdas reais de renda observadas de 2014 a 2017, que atingem com mais intensidade o grupo dos que têm de 15 a 29 anos.

Para esse segmento, a retração foi de 8% por ano, ante 2,5% de encolhimento de renda na média geral do país. No subconjunto dos indivíduos com idades de 15 a 19 anos, a queda foi de 13% por ano.

Se nada for feito quanto à Previdência, será só o início de uma longa derrocada. É o tal autoengano exterminador do futuro.

As manifestações de rua de junho de 2013 protagonizadas pelos jovens pareciam, aos olhos de hoje, antever esse tombo. Elas não foram exclusividade brasileira. A Primavera Árabe, a mobilização estudantil no Chile e os protestos nas periferias de metrópoles europeias refletem a frustração juvenil potencializada e instrumentalizada pelo uso intensivo das redes sociais. O jovem está com dificuldade de se encaixar no velho mundo.

Apesar dos progressos notáveis nas últimas décadas em temas como pobreza, acesso a bens e serviços e expectativa de vida, estamos perdendo a guerra nas ações voltadas à juventude. Problemas típicos dessa faixa etária, como violência, desemprego, acidentes de trânsito, uso de drogas e prisões, só têm piorado.

Estudos mostram que a combinação desses infortúnios os torna ainda mais devastadores. Por exemplo, Mônica Viegas e Marcos Lisboa ("Mortalidade nos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais") relacionaram a crise de desemprego juvenil dos anos 1980 a sequelas permanentes na taxa de homicídio daquela geração.

REFORMAR O FUTURO

Os "baby boomers" nascidos no pós-Segunda Guerra constituíram a geração dos jovens de 1968 que muito revolucionou ideias e costumes. Têm muito a ensinar. 

Está na hora de os jovens do novo milênio, nascidos até a virada do século, fazerem valer seu tamanho, reformando seu futuro. Não há hoje questão econômica mais premente para a juventude do que a previdenciária.

Gostaria de ver uma reforma da Previdência mais voltada para a instituição de princípios de um sistema de capitalização, com mais isonomia entre setores público e privado, com menos privilégios aos primeiros e mais cuidado com os pobres. Mas ela é apenas o começo. Outras virão.

A resistência em relação à reforma não só joga contra o nosso futuro coletivo como atenta contra o presente. Não falo de crescimento a longo prazo, nem mesmo do mecanismo de antecipação dos problemas fiscais de que somos lembrados todos os dias pelas flutuações dos mercados financeiros. Refiro-me à miopia mesmo em relação à economia cotidiana.

No Brasil, temos robusta restrição de oferta e, agora, de demanda agregada. Se quisermos recuperar a economia logo, a contrarreforma da Previdência (leia-se, a inação) é péssimo impulso de demanda. Quase tão ruim quanto a liberação do FGTS ou o aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda.

A Previdência tem efeitos multiplicadores sobre o PIB de menos de 1/3 do observado no Bolsa Família. Por quê? O segundo vai para o pobre, que consome toda a renda, fazendo a roda da economia girar.

Incrementos na Previdência quase não chegam ao pobre. Aposentadorias e pensões correspondem hoje a 6,3% da renda dos 5% mais pobres e a 19,5% da renda dos 5% mais ricos. Se não ajustarmos a seguridade social, vamos continuar transferindo renda para quem tem mais e gasta menos.

Se não avançarmos na reforma da Previdência, vamos cair numa estagnação secular. Ficaremos todos, e os jovens em especial, deitados eternamente em berço não esplêndido.

MARCELO NERI, 54, economista, é diretor do FGV Social e professor da EPGE/FGV. 

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