sexta-feira, 12 de maio de 2017

A vida (e a licença) poética de Emily Dickinson no cinema

Rafael Aloi - Veja



Cynthia Nixon interpreta a famosa escritora americana em cinebiografia conduzida pelas próprias poesias


Cynthia Nixon e Emily Dickinson
Cynthia Nixon como a autora Emily Dickinson no filme "Além das Palavras" e a própria Emily (Além das Palavras/Wikimedia Commons/Reprodução)
Emily Dickinson (1830-1836) é uma das escritoras mais importantes da literatura americana, considerada um dos cânones da poesia do país. Mas a vida pessoal da autora é obscura e desconhecida, já que ela viveu por muito tempo reclusa em casa, e seus escritos só ganharam fama após a morte. Cartas revelaram detalhes da vida íntima dela, mas ainda assim pouco, pois muitas foram queimadas pela irmã, a pedido da autora, após a morte. O diretor e roteirista Terence Davies resolveu abordar o mistério que ronda Emily Dickinson na cinebiografia Além das Palavras, já em cartaz.
O filme, conduzido pelas próprias poesias da escritora, evita eventos específicos ou detalhados, já que pouco se sabe a respeito. No longa, a poeta é interpretada com maestria pela atriz Cynthia Nixon (Sex and the City) e apresentada como uma personagem que, à medida que se afasta da juventude, se torna cada vez mais solitária, depressiva e amargurada, embora não abra mão das ideias que tem, consideradas avançadas para as mulheres do século XIX.
“Cinebiografias distorcem características históricas, isso é de se esperar. O filme faz um bom trabalho em retratar a intensidade da vida de Dickinson e a forma como sua poesia foi tecida ao longo dela. A imprecisão histórica me incomoda, mas só porque sou uma estudiosa de Dickinson – ou seja, não sou realmente o público-alvo do diretor. Aprecio a forma como ele traz Dickinson para uma audiência moderna”, diz Cristanne Miller, professora de literatura na Universidade de Bufallo, nos Estados Unidos, e editora de sete livros sobre a escritora, que falou sobre o filme ao blog É Tudo História.

Poemas não assinados

(Divulgação)
No filme, ao começar a escrever nas madrugadas em casa, com a autorização do pai, Emily Dickinson consegue também por meio dele o contato com um jornal, e passa a oferecer seus textos à imprensa. Alguns foram publicados no Springfield Republican, um periódico de Massachussets, estado onde ela vivia, na cidade de Amherst. Ao apresentar à tia aquele que seria seu primeiro poema publicado, ela é questionada sobre a assinatura: por que o texto não tinha o seu nome? O longa dá a entender que isso acontece porque o texto é muito ousado – ou, talvez, despudorado. Mas, na verdade, naquela época era muito comum que poemas fossem publicados de forma anônima. “Ela nunca enviou seus próprios poemas para qualquer editor ou publicação, até onde sabemos, nem nunca discutiu como os poemas foram editados ou padronizados pelos editores de jornais. Seus poemas foram publicados anonimamente. Ela nunca usou pseudônimo”, conta Miller. Como os escritos eram publicados de forma anônima, não é possível definir com precisão qual foi o primeiro poema de Dickinson, e mesmo se estes foram publicados na mesma ordem cronológica em que foram escritos. Ao longo do filme, é possível ver a poeta escrevendo em pequenos cadernos e, durante um diálogo, diz não saber quantos textos seus foram publicados. “Não há uma contagem clara do número de poemas que Dickinson escreveu. Dez foram publicados durante a sua vida (ela não publicou nenhum por conta própria). Eu juntei 1 786 na minha edição. Acho que é seguro dizer que existem cerca de 1 800 poemas”, explica a estudiosa.

Papai não deixa?

(Divulgação/Divulgação)
Em uma cena, Susan (Jodhi May), a cunhada de Emily, a encontra escrevendo durante a madrugada sozinha na sala de casa, à luz de uma lamparina, e a escritora explica que aquele é o único momento em que o pai a deixava escrever. Segundo a professora Miller, Dickinson nunca precisou de autorização para produzir sua arte. “Porém, o óleo da lamparina era caro e, portanto, ela provavelmente pedia permissão para ter uma em seu quarto e usá-la até tarde. Eu acredito que era de conhecimento de todos em sua família que ela escrevia à noite.”

A reclusão branca

(Divulgação/Divulgação)
Até metade do longa, Emily, a princípio uma jovem cheia de vitalidade, gostava de passear com as amigas e conversar com pessoas diversas, e até ia a bailes. Porém, após a morte do pai, a escritora cortou qualquer tipo de relação social fora da família e passou a levar uma vida reclusa em seu quarto, vestindo apenas branco. É verdade que a artista pouco saía do cômodo, e que era vista com frequência de branco, mas essa não era a cor que ela vestia, nem foi a morte de seu pai que a levou a esse hábito, como explica a professora americana. “Evidências sugerem que ela normalmente usava xales de cores claras, de modo que sua apresentação não era estritamente branca, mesmo que estivesse usando vestidos brancos. Ela começou a se retirar dos encontros sociais por volta de 1860 – muito antes da morte do pai, que pode ter tornado a sua reclusão mais extrema, mas isso não é um fato conhecido.”

Amor platônico proibido

(Divulgação)
Além das Palavras mostra que Emily Dickinson tinha interesse romântico pelo reverendo Wadsworth (Eric Loren), que era casado. Há outros rapazes que a cinebiografia indica que possam ter sido pretendentes da escritora, mas que foram rejeitados por ela. O religioso seria o único, segundo o longa, com quem ela teve a iniciativa de se abrir. “Há muitas teorias sobre um interesse romântico em seus anos mais novos, e Wadsworth foi visto como um candidato por décadas, mas não há nenhuma evidência forte de que algo tenha acontecido. O filme também muda alguns detalhes: os dois na realidade se conheceram na Filadélfia durante a década de 1840, não depois da Guerra Civil (1861-1865).” O longa deixa de lado o que, segundo a professora, teria sido uma atração de Emily Dickinson pela cunhada, Susan, a quem ela escreveu muitas cartas apaixonadas.

Irmão adúltero

(Divulgação/Divulgação)
Bem no fim do longa, somos apresentados a Mabel Todd (Noémie Schellens), uma vizinha de Emily que tem um caso extraconjugal com Austin (Duncan Duff), o irmão da escritora. A protagonista flagra os dois em sua casa e fica indignada, gritando e os expulsando dali. O affaire era de conhecimento de toda a cidade, segundo a estudiosa, e há evidências de que eles usavam a casa da autora como ponto de encontro. “Não está claro se ela ficou indignada. Era muito leal a seu irmão, mas também à esposa dele, a sua melhor amiga. Eu acho que é razoável imaginar que Emily desaprovou o caso e criticou Mabel”, completa. O que o filme não mostra é que foi Mabel a responsável por editar os poemas de Dickinson após sua morte. “O que aconteceu com os poemas depois, no entanto, não era algo que ela pudesse controlar. Austin provavelmente teria apoiado os desejos de Lavinia (Jennifer Ehle), irmã da poeta, de primeiro dar os poemas a Susan para editar e, depois, quando Lavinia sentiu que Susan estava devagar, dar-lhes a Mabel, que estava ansiosa para assumir este trabalho”, explica Miller.

Morte

(Divulgação/Divulgação)
O filme se encerra com a morte da escritora, devido a complicações renais, que a deixaram de cama por dias. Durante sua vida, a doença também seria responsável por ataques epilépticos e muitas dores, o que teria contribuído para a reclusão da poeta. Porém, Cristanne Miller discorda dessa representação. “Na minha opinião, não há provas de que Dickinson tenha sido epiléptica ou sofrido graves problemas de saúde e nas costas durante anos. O retrato de Dickinson, especialmente em seus últimos anos, era muito amargo e sombrio. Os poemas e as cartas tornam evidente que ela também experimentou muita alegria em sua vida, por exemplo, trabalhando em seu jardim e com a natureza.”



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