Quando a retirada de um candidato presidencial derrotado exige a participação da Casa Branca, a crise institucional de um país já ultrapassou suas fronteiras
O que precisa acontecer com as instituições de uma democracia para que um candidato presidencial, depois de receber quase 60 milhões de votos, precise ser retirado de seu próprio país?
A pergunta ganhou uma dimensão perturbadora nesta semana, quando Flávio Bolsonaro, senador da República, vencedor do primeiro turno e apontado como favorito pelas pesquisas para o segundo, deixou o Brasil em uma operação cuidadosamente organizada, com a participação de autoridades americanas e o envolvimento direto da Casa Branca e do Departamento de Estado dos Estados Unidos, conforme noticiado em primeira mão pela Revista Oeste.
A história reúne elementos que, até pouco tempo atrás, dificilmente seriam considerados verossímeis na política brasileira, parecendo pertencer a um roteiro cinematográfico ou aos acontecimentos recentes de alguma ditadura latino-americana.
Veículos utilizados para despistar observadores, deslocamentos cuidadosamente planejados, uma travessia de fronteira, um avião particular e a participação de interlocutores próximos aos presidentes Donald Trump e Javier Milei compuseram uma operação de extração que terminou na manhã de quarta-feira, 28 de outubro, quando Flávio Bolsonaro desembarcou em Miami acompanhado da mulher e das duas filhas.
Segundo o Wall Street Journal, quatro veículos deixaram a residência de Flávio Bolsonaro em Brasília, seguindo trajetos diferentes para despistar observadores. O senador atravessou a fronteira com a Argentina, embarcou em um avião particular em Puerto Iguazú e, depois de uma escala no Equador, chegou a Miami. Tudo sob a proteção de Washington.
O contexto brasileiro torna o episódio ainda mais grave. Apenas sete minutos depois da confirmação do resultado pelo TSE, a Polícia Federal já havia solicitado a apreensão dos passaportes de Flávio Bolsonaro, medida autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. A decisão judicial surgiu em um momento de enorme tensão política, quando o país ainda procurava compreender as controversas circunstâncias do segundo turno e suas consequências.
A extração de Flávio Bolsonaro precisa ser compreendida à luz dessa distinção. Reconhecer a excepcionalidade do que aconteceu não exige ter votado nele, concordar com suas posições ou compartilhar das convicções de sua campanha. O respeito às garantias constitucionais perderia qualquer significado se dependesse da simpatia que um cidadão desperta em seus adversários. Direitos fundamentais existem precisamente para impedir que a força política de uma maioria, a autoridade de um governante ou a atuação de um tribunal possam determinar arbitrariamente quem merece a proteção da lei.
O caso de Flávio Bolsonaro exige, urgentemente, uma reflexão que ultrapasse as disputas entre lulistas e bolsonaristas. Um candidato presidencial que recebeu quase 60 milhões de votos deixou o Brasil com a participação de autoridades de uma potência estrangeira, em circunstâncias que desnudam uma profunda desconfiança quanto à segurança jurídica que encontraria em seu próprio país. O fato de uma operação dessa magnitude ter sido considerada necessária deveria provocar inquietação em qualquer brasileiro preocupado com a credibilidade de nossas instituições.
A gravidade do episódio também se reflete na repercussão internacional, com reportagens e editoriais de veículos como The Wall Street Journal, The Washington Post e The New York Times, cuja cobertura atravessa diferentes orientações editoriais e está longe de se restringir à direita americana.
O precedente venezuelano e a erosão das instituições na América Latina
Em dezembro de 2025, María Corina Machado, principal liderança da oposição venezuelana, também precisou ser extraída de seu país. Perseguida pelo regime de Nicolás Maduro, ela vivia escondida havia quase um ano, sob ameaça constante de prisão e sem condições de circular livremente ou exercer publicamente sua atividade política. A operação, batizada de Dinamite Dourada, permitiu que deixasse a Venezuela e viajasse à Noruega para receber o Prêmio Nobel da Paz, com apoio de autoridades americanas.
A Venezuela de Nicolás Maduro e o Brasil de 2026 não se encontram na mesma situação institucional. O regime chavista acumulou décadas de perseguição à oposição, destruição de mecanismos de controle político e repressão sistemática à sociedade civil. Ignorar essas diferenças comprometeria a seriedade de qualquer análise. Entretanto, a operação que retirou María Corina da Venezuela evidencia um fenômeno que merece atenção: a necessidade de recorrer à proteção internacional quando a segurança de figuras políticas passa a ser considerada ameaçada em seus próprios países.
A história latino-americana demonstra que a deterioração das instituições democráticas raramente acontece de maneira instantânea. Regimes autoritários podem preservar Constituições, parlamentos, tribunais e eleições enquanto esvaziam progressivamente os mecanismos destinados a limitar o poder e proteger as liberdades individuais.
Na Venezuela, a reforma de 2004 ampliou de 20 para 32 o número de
magistrados do Tribunal Supremo de Justiça, permitindo que o governo
de Hugo Chávez consolidasse sua influência sobre o Judiciário. Em 2015,
quando a oposição conquistou a maioria qualificada na Assembleia
Nacional, decisões judiciais passaram a restringir a atuação do
Parlamento e anular suas deliberações. Em 2017, o Tribunal Supremo
chegou a assumir competências legislativas. A Venezuela conservava
Constituição, eleições e tribunais, mas os mecanismos institucionais
destinados a limitar o poder já haviam sido profundamente
comprometidos.
Em Cuba, a Revolução de 1959 foi seguida pela eliminação da competição política, pela restrição da liberdade de imprensa e pela submissão progressiva das instituições à autoridade revolucionária. A Constituição de 1976 consolidou o papel dirigente do Partido Comunista, preservando tribunais e procedimentos jurídicos dentro de uma estrutura que não admitia alternância democrática de poder.
Na Nicarágua, Daniel Ortega ampliou sua influência sobre o sistema judicial depois de retornar à Presidência, em 2007, utilizando mecanismos institucionais para restringir a atuação de adversários políticos. Em 2021, vários possíveis candidatos da oposição foram presos às vésperas das eleições presidenciais. A repressão também atingiu jornalistas, organizações civis e, de maneira crescente, membros da Igreja Católica.
Esses exemplos possuem trajetórias próprias, mas revelam uma vulnerabilidade comum: a transformação das instituições encarregadas de proteger o cidadão em instrumentos de preservação do poder. A existência de tribunais não garante a independência judicial, assim como a realização de eleições não assegura a liberdade política quando os mecanismos de competição e fiscalização deixam de funcionar adequadamente.
Daniel Ortega, ditador da Nicarágua, é acusado de perseguir todas as formas de oposição política | Foto: Divulgação/Presidência da Nicarágua
O Brasil sob o olhar da imprensa internacional
Em editorial publicado na quarta-feira, 28 de outubro, intitulado “To Brazil’s Victor Goes Political Revenge” (“Ao vencedor no Brasil, a vingança política”), o Wall Street Journal criticou o risco de perseguição ao candidato derrotado e destacou que Lula poderá indicar até quatro novos ministros ao Supremo Tribunal Federal durante seu próximo mandato, ressaltando a responsabilidade do Senado na preservação da independência judicial.
Wall Street Journal Opinion @WSJopinion · Seguir To Brazil’s victor goes political revenge. Lula’s government targets losing opponent Flávio Bolsonaro.
No mesmo dia, o Washington Post publicou o editorial “When Judges Become Prosecutors” (“Quando juízes se tornam promotores de Justiça”), questionando a concentração de funções investigativas e judiciais no Supremo brasileiro, especialmente na atuação de Alexandre de Moraes, e os riscos dessa prática para o devido processo legal e a confiança pública na Justiça.
O New York Times, por sua vez, dedicou reportagens aos bastidores da extração de Flávio Bolsonaro e à participação americana na operação. A contundência dos editoriais, somada à cobertura jornalística da operação, revela a gravidade das críticas internacionais à atuação do Judiciário brasileiro e à deterioração das garantias constitucionais.
Essa repercussão não significa que o Brasil precise de aprovação estrangeira para suas instituições. A questão é a gravidade de uma situação em que autoridades de outro país participaram diretamente da operação necessária para retirar e receber um candidato presidencial brasileiro.
O Brasil atravessou sete anos de controvérsias judiciais que deixaram marcas profundas na confiança de parte da população. A reeleição de Lula, os questionamentos sobre o segundo turno e, sobretudo, a extração de Flávio Bolsonaro agravaram esse cenário. A dimensão extraordinária da operação, sem precedentes na história política recente do país, exige uma reflexão que ultrapasse as disputas eleitorais e impõe perguntas difíceis sobre a situação de nossas instituições.
Com a perspectiva de novas indicações ao Supremo Tribunal Federal, torna-se ainda mais urgente discutir a responsabilidade do Senado e os mecanismos constitucionais destinados a impedir a concentração excessiva de autoridade.
Novas indicações ao STF reforçam o debate sobre o papel do Senado e os limites constitucionais à concentração de poder - Foto: STF
As ditaduras se consolidam quando uma sociedade permite que os limites constitucionais ao poder sejam enfraquecidos em nome de conveniências políticas ou do combate a adversários considerados perigosos. A operação que retirou Flávio Bolsonaro do Brasil deveria ser recebida como um alerta de enorme gravidade. O Brasil já pagou um preço alto demais pelos abusos de poder, e a história latino-americana oferece exemplos suficientes das consequências dessa permissividade.
Quando a extração de um candidato presidencial mobiliza autoridades americanas, a crise institucional brasileira adquire uma dimensão que já não pode ser explicada apenas pelas disputas políticas internas. Mais alarmante, porém, é que um acontecimento dessa gravidade esteja sendo tratado por parte da imprensa brasileira como mais um episódio corriqueiro da política nacional.
Regimes autoritários não anunciam sua chegada em editoriais de jornal nem publicam no Diário Oficial a data de sua instalação.
Ana Paula Henkel - Revista Oeste




