sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Augusto Nunes - Mudanças geral

 O Brasil decente redesenhou a paisagem política


Gleisi Hoffmann, Renan Calheiros, Jean Wyllys, José Dirceu, Paulo Pimenta e Fernando Haddad | Foto: Montagem Revista Oeste/Agência Brasil


N unca houve um 1º turno assim. Neste 4 de outubro, milhões de eleitores decidiram mudar o país dominado pelo consórcio formado por duas siglas e um clube de vigaristas: PT, STF e Centrão. Transformado em arma do povo, o voto transferiu figurões mumificados para o mausoléu dos vigaristas, promoveu a protagonistas jovens parlamentares confiáveis, manteve no cargo governadores eficientes, livrou-se dos ineficazes, começou a dedetizar o Congresso, proibiu que alcolumbres e mottas continuem desmandando no Senado e na Câmara, ordenou aos ministros do Supremo Tribunal Federal que cumpram a lei, comunicou à nação que a ditadura do Judiciário acabou e avisou que pretende consumar a aposentadoria de Lula em 25 de outubro. 

Nunca houve um 1º turno assim, confirmam tanto a lista de vitoriosos quanto o cortejo dos excluídos da paisagem política brasileira. Amparado no critério da meritocracia, ressuscitando valores como a honradez e a vergonha na cara, o Brasil decente tornou muito mais estimulante a paisagem política brasileira. Os eleitores do Maranhão, por exemplo, não perderam a chance de punir simultaneamente o clã comandado por José Sarney e o bando chefiado por Flávio Dino.


José Sarney na tribuna do Senado Federal | Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

No momento, os candidatos a governador apoiados pela dupla estão à procura de emprego. Sarney, ex-deputado federal, ex-governador, exsenador pelo Maranhão e pelo Amapá, repassou à filha Roseana a missão de piorar o Estado e o país. Governadora quatro vezes, senadora e agora deputada federal, Roseana não passou do quarto lugar ao tentar o retorno ao Senado. Aos 96 anos, seu pai viveu para ver o fim de uma era: faz 72 anos que algum integrante da família ocupa um cargo eletivo. Pela primeira vez desde 1955, não haverá nenhum Sarney exercendo qualquer mandato quando 2027 chegar.


Roseana não passou do quarto lugar ao tentar o retorno ao Senado | Foto: Reprodução/Redes Sociais


Flávio Dino que se cuide (e alerte seus pares de capa preta). Exgovernador, ex-senador e ex-ministro da Justiça, anda delinquindo no Supremo Tribunal Federal desde que Lula o presenteou com uma toga. Lahesio Bonfim, eleito senador pelo Novo, prometeu vingar-se da perseguição que Dino lhe moveu durante os oito anos em que foi prefeito de São Pedro dos Crentes. “Agora, Flávio Dino, eu é que estou indo atrás de você em Brasília”, advertiu. O que houve em 4 de outubro transformou o que parecia bravata em promessa de campanha a ser cumprida sem demora. Como a maioria dos eleitos, Bonfim garantiu que ministros fora da lei serão punidos com o impeachment. Quem se opôs ao fim da ditadura do Judiciário foi devolvido ao recesso do lar. Marina Silva e Simone Tebet, por exemplo. 

Por ordem de Lula, a ex-ministra acreana e a ex-ministra sulmatogrossense se consideraram prontas para representar São Paulo no Senado. Já festejavam a obtenção de ao menos uma vaga quando o governador Tarcísio de Freitas entrou em cena. A exumação do que diziam de Lula antes de juntar-se à seita ajudou a anexar a dupla à procissão dos que buscaram em vão uma vaga na mais cobiçada casa do Congresso. Foram proibidos de entrar, entre outros destaques, os gaúchos Paulo Pimenta e Manuela D’Ávila, a paranaense Gleisi Hofmann, a carioca Benedita da Silva e o mineiro Aécio Neves. E há o bloco dos despejados, merecidamente puxado pelo alagoano Renan Calheiros, o mais antigo frequentador do lugar.

Senador há 30 anos, campeão de processos (e absolvições) no Supremo Tribunal Federal, Renan desfrutou desde o começo de 2023 da companhia de Renan Filho. Quando o sucessor chegou, o patriarca já era uma sombra do poderoso alagoano que, presidente por três mandatos, garantiu-se no comando com a ameaça de divulgar dossiês que revelavam a face oculta do inimigo. O fracasso da tentativa de voltar ao governo estadual vai devolver Renan Filho ao Senado. Longe do pai, também sentirá saudade de parceiros como Randolfe Rodrigues, Leila do Vôlei, Ciro Nogueira e Soraya Thronicke. E não poderá conhecer mais intimamente os proibidos de entrar no Senado por escassez de voto.

Senador Renan Calheiros (MDB-AL) | Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Não foi por falta de aviso que a plateia convocada para ornamentar a primeira aparição de Lula tinha cara de velório. Livre de intervenções do TSE governista e de um STF reduzido a partido político, a eleição municipal de 2024 atestou a insatisfação nacional com o PT e seus satélites. O alerta foi ignorado pelos donos do poder. Geraldo Alckmin traía no rosto a descoberta de que não terá chances de substituir, favorecido pela vantagem etária, o ex-inimigo que agora o chefia. Fernando Haddad exibia o meio sorriso abobalhado de recordista em fiascos formidáveis. Todos pareciam surpresos. O estrategista José Dirceu nem deu as caras por lá. Candidato a deputado federal, conseguiu uma votação de vereador de grotão. Foi outra celebridade fulminada pelo tsunami que devastou também uma Câmara controlada pelo centrão com o endosso do PT. 

O falatório confuso de Lula lembrou o pugilista que se acha invencível depois da primeira queda no ringue. Nos dias seguintes, a discurseira de grogue piorou. “O povo gosta de me ver no segundo turno”, jurou num palavrório. É improvável que mesmo um petista tenha tamanha admiração pelo deus da seita que vota no adversário só para aplaudir outra apresentação do artista do palanque. O retrospecto do palanque ambulante colide com a arrogância do campeão de araque. 

Em 1989, foi derrotado por Fernando Collor no 2º turno. Em 1994 e 1998, Fernando Henrique Cardoso atropelou-o já no primeiro. Venceu só no segundo as disputas contra os frágeis José Serra e Geraldo Alckmin. Ao enfrentar Jair Bolsonaro, precisou da ajuda do juiz e dos jurados para ganhar — de novo no 2º turno. “Política só tem porta de entrada”, recita Sarney há 70 anos. 

A frase é endossada por todos os viciados em exercício do poder. Existe outra porta, corrigiu a primeira etapa da disputa. É a porta dos fundos, usada por eleitores para despejar escolhas erradas e, assim, redesenhar o cenário político. Desta vez, como reiteram as pesquisas iniciais sobre o 2º turno, a maioria dos brasileiros resolveu que mudanças drásticas na rota que conduz ao futuro devem ser feitas já.


Augusto Nunes - Revista Oeste