sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Virada à Direita - Reportagem da Revista Oeste - Cristyan Costa, Mateus Santos e Sarah Peres

 Fortalecidos no Congresso e nos Estados, conservadores ganham poder para avançar reformas e abrir processos de impeachment contra ministros do STF



Após a vitória no primeiro turno das eleições de 2026, Flávio Bolsonaro participa de encontro com aliados e apoiadores em Goiânia (GO) | Foto: Vittor Sales


“E u tenho certeza.” Em 15 de julho de 2025, o ex-presidente Jair Bolsonaro fez uma aposta ousada sobre o Congresso que sairia das urnas no ano seguinte. “Eu vou fazer uns 120 deputados federais na próxima”, afirmou em entrevista ao site Poder360. Para o Senado, projetou pelo menos 20 eleitos pelo Partido Liberal (PL). Quase 15 meses depois, a apuração entregou ao partido 121 deputados e 19 senadores. Um deputado a mais, um senador a menos, os 140 eleitos mostraram que Bolsonaro sabia o que estava falando. 

O resultado retrata o crescimento da nova direita e o lugar que ela ocupará em Brasília. Somados os senadores que continuam no mandato, o PL terá 28 das 81 cadeiras da Casa, além da maior bancada da Câmara. Quando Bolsonaro fez sua previsão, o partido contava com 88 deputados e 14 senadores. A partir de 2027, terá 33 representantes a mais na Câmara e o dobro de integrantes no Senado. Ocupará quase uma em cada quatro cadeiras entre os deputados e mais de um terço entre os senadores. Com isso, o PL será decisivo na escolha do comando do Congresso, na definição da agenda do próximo governo e na contenda com o Supremo Tribunal Federal (STF).


O ex-presidente Jair Bolsonaro (@jairmessiasbolsonaro) (PL) acertou, com mais de 1 ano de antecedência, o número total de deputados federais e senadores que o PL elegeria em 2026. Em entrevista ao Poder360 em 15 de julho de 2025, Bolsonaro projetou que a sigla elegeria 120 deputados federais e pelo menos 20 senadores. “Tenho certeza, vou fazer uns 120 deputados federais na próxima. 

O PL faz pelo menos 20 [senadores]”, View more on Instagram 09/10/2026, 11:43 Bolsonaro e a virada do Brasil à direita https://revistaoeste.com/revista/edicao-344/virada-a-direita-bolsonaro/ 4/18 declarou à época. Encerrado o 1º turno das eleições de 2026, o PL elegeu 140 congressistas, exatamente o total indicado por Bolsonaro. A distribuição, porém, ficou ligeiramente diferente da previsão: foram 121 deputados federais e 19 senadores. 


O tamanho da mudança 

Para o cientista político Leandro Gabiatti, o resultado consolida um movimento iniciado nas manifestações de 2013, fortalecido pelo impeachment de Dilma Rousseff e pelas eleições de 2018 e 2022. “Não estamos diante de um fenômeno eleitoral passageiro, mas de uma transformação estrutural na representação política brasileira”, afirma. 

Na Câmara, a distância em relação ao PT ajuda a medir o resultado. Os petistas elegeram 70 deputados — só um a mais que em 2022 e 51 a menos que o PL. Mesmo reunidos, PT, PCdoB e PV terão 88 representantes — o mesmo número que o partido de Bolsonaro tinha sozinho quando ele anunciou sua aposta. 

O Novo, com dez eleitos, também terá espaço para defender uma agenda de redução do Estado e de oposição à esquerda.


Composição da Câmara dos Deputados a partir de 2027 


Perfil da Casa é mais à direita

A direita tem nas mãos bancadas fortalecidas no Congresso e governos estaduais capazes de sustentar uma agenda nacional. Essa força pode abrir caminho para promover reformas econômicas, endurecer o combate ao crime e levar adiante processos de impeachment contra ministros do STF. Uma vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno acrescentaria à equação a Presidência da República. Trata-se de uma chance singular para mudar o Brasil. E que não pode se desperdiçada. 

Perfil da Casa é mais à direita Partido Deputados eleitos PL 121 PT 70 União 46 PSD 43 PP 41 Republicanos 41 MDB 36 Podemos 27 PSB 15 PSOL 14 PCdoB 11 PSDB 11 Novo 10 09/10/2026, 11:43 Bolsonaro e a virada do Brasil à direita https://revistaoeste.com/revista/edicao-344/virada-a-direita-bolsonaro/ 6/18 PV 7 PDT 6 Avante 5 PRD 5 Solidariedade 2 Missão 1 

O alcance dessa direita, contudo, exige olhar além das siglas. Republicanos e PP terão 41 deputados cada; União Brasil, 46. Nessas bancadas convivem parlamentares de perfil conservador e políticos dispostos a negociar apoio conforme a pauta e o governo. 

No Senado, o avanço do PL altera de maneira ainda mais visível a distribuição de forças. Seus 28 integrantes formarão uma bancada três vezes e meia maior que a do MDB, com oito senadores, e quase três vezes maior que a do PT, com dez. 

O partido conquistou 19 das 54 vagas disputadas neste ano. Houve também avanço na representação feminina. Doze mulheres foram eleitas para o Senado neste ano, um recorde. Somadas às seis que continuarão no mandato, serão 18 senadoras em 2027, equivalentes a 22% da Casa. O número representa um crescimento de 80% em relação às dez mulheres que começaram a legislatura em 2023. 

O PL elegeu três: Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, pelo Distrito Federal, e Carol de Toni, por Santa Catarina. No Distrito Federal, Michelle e Bia se juntarão a Damares Alves, do Republicanos, cujo mandato vai até 2031. Será a primeira vez que uma unidade da Federação terá suas três cadeiras no Senado ocupadas por mulheres. 

Uma das consequências mais importantes do novo cenário é a possibilidade de abertura de processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal. Os 28 votos do PL, sozinhos, não bastam. Será necessário reunir aliados, eleger uma presidência disposta a dar andamento aos pedidos e sustentar a maioria ao longo do processo. 

Uma eventual condenação exige 54 votos. Eleito senador por São Paulo, Guilherme Derrite (PP) tem uma posição clara: não votará em Davi Alcolumbre para a presidência da Casa “em hipótese alguma”. Derrite cita Rogério Marinho e Tereza Cristina como alternativas para o comando do Senado.


Composição do Senado a partir de 2027 Oposição ganhou mais espaço 


Composição do Senado a partir de 2027

Oposição ganhou mais espaço

Partido 

2027 PL 28 PT 10 MDB 8 PP 6 União 6 Republicanos 5 PSB 4 PSD 4 Novo 3 Podemos 2 PSDB 2 PDT 1 Rede 1 Sem partido 1 


Os excessos do Supremo entraram na disputa eleitoral. O STF ofereceu à direita farta munição. E a associação das atitudes de alguns integrantes do tribunal ao governo Lula era inevitável. Candidatos conservadores se apresentaram como caminho para enfrentar a agenda petista e os arroubos dos ministros. A proximidade com o Supremo contribuiu para o revés de Lula no primeiro turno. 

Quem chega ao Congresso encontrará espaço para construir sua própria influência. A primeira oportunidade será a eleição dos presidentes da Câmara e do Senado, responsáveis por decidir quais propostas avançam e quais são jogadas na gaveta. Ali começará o teste da nova direita: transformar o crescimento das bancadas em decisões concretas. 

A força dos vencedores tem como contrapartida a despedida de figuras que, durante anos, ajudaram a conduzir a política nacional. Renan Calheiros e Randolfe Rodrigues, por exemplo, não conseguiram renovar seus mandatos. Eliziane Gama também ficou pelo caminho. Na disputa pela Câmara, José Dirceu viu frustrada a tentativa de voltar ao Congresso. (Leia também nesta edição o artigo “Mudanças já” , de Augusto Nunes.) 

A renovação vai além da troca de nomes. A direita viu crescer uma geração de políticos que aprenderam a se comunicar diretamente com os eleitores, sobretudo pelas redes sociais, e transformaram essa presença digital em votos.

Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato são exemplos desse fenômeno. Suas votações expressivas mostram como a política passou a abrir espaço para lideranças que não dependem das estruturas partidárias tradicionais para alcançar projeção nacional. (Leia também nesta edição a reportagem “Piás bons de voto” , de Vanessa Araújo, Rachel Díaz e Tauany Catan.)

Essa renovação revela outro fato: Bolsonaro inspirou uma série de herdeiros políticos. A maioria cresceu sob influência do bolsonarismo, mas construiu trajetórias independentes. A continuidade desse campo político já está assegurada.

Na esquerda, o cenário é diferente. Aos 80 anos, Lula disputa provavelmente sua última eleição. Depois de décadas de protagonismo na política nacional, o presidente não tem um sucessor. Continua sendo o principal nome em torno do qual seu partido organiza as disputas presidenciais. 


Além de Brasília 

A mudança atravessou as divisas dos Estados. Enquanto o PL ampliava suas bancadas no Congresso, candidatos de direita conquistavam governos, levando segurança pública e economia ao centro de suas campanhas. O enfrentamento ao crime, a geração de empregos e a atração de investimentos deram conteúdo estadual a um movimento que também cresceu na política nacional. 

Em São Paulo, Tarcísio de Freitas, do Republicanos, garantiu a reeleição no primeiro turno com 62,65% dos votos válidos. No Sul, Zucco venceu no Rio Grande do Sul, Sergio Moro no Paraná e Jorginho Mello em Santa Catarina, os três pelo PL. Zucco apresentou um programa centrado em segurança pública e retomada econômica. Cabe aos governadores comandar as polícias estaduais, administrar presídios e definir prioridades de investimento. O discurso de combate à criminalidade terá de aparecer no policiamento das ruas, na investigação das facções e na capacidade de impedir que seus chefes continuem dando ordens de dentro das cadeias. 

Tarcísio levou à campanha a proposta de ampliar o Muralha Paulista, sistema que integra câmeras e dados para auxiliar o trabalho policial, e de criar um centro de inteligência com participação de diferentes forças de segurança. Na economia, apresentou uma carteira de projetos de infraestrutura que combina recursos públicos, concessões e parcerias com a iniciativa privada.

No Paraná, Moro vinculou sua trajetória no combate à corrupção a propostas para enfrentar o crime organizado. Seu programa prevê forças-tarefa para investigar facções e confiscar seu patrimônio, uma agência estadual anticorrupção e um presídio de segurança máxima para isolar lideranças criminosas. O plano também reúne medidas de desburocratização, equilíbrio das contas e desenvolvimento da infraestrutura. 

Esses governos também poderão fortalecer a agenda da direita no Congresso. A afinidade entre bancadas e Executivos estaduais oferece uma base para articulação nacional. A partir de janeiro, os vencedores controlarão orçamentos, nomearão equipes e tomarão decisões que afetarão a rotina de milhões de brasileiros.


A hora de usar a força

 Na noite do primeiro turno, Lula apareceu diante das câmeras cercado de aliados. Atrás dele, dirigentes e políticos que participaram da campanha acompanhavam o pronunciamento com expressões fechadas. A cena contrastava com as comemorações dos candidatos conservadores que haviam conquistado espaço no Congresso e nos governos estaduais. 

Mesmo que o presidente conseguisse vencer o segundo turno — o que não é a aposta de nenhum especialista —, teria pela frente um Congresso fortalecido à direita e uma oposição com maior presença nos Estados. 










O presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT), faz pronunciamento após a apuração do 1º turno das eleições de 2026, em São Paulo (SP), em 4 de outubro de 2026 | Foto: Daniel Teixeira/Estadão Conteúdo


A direita tem nas mãos bancadas fortalecidas no Congresso e governos estaduais capazes de sustentar uma agenda nacional. Essa força pode abrir caminho para promover reformas econômicas, endurecer o combate ao crime e levar adiante processos de impeachment contra ministros do STF. Uma vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno acrescentaria à equação a Presidência da República. Trata-se de uma chance singular para mudar o Brasil. E que não pode se desperdiçada.


Cristyan Costa, Mateus Santos e Sarah Peres - Revista Oeste