sexta-feira, 9 de outubro de 2026

'Piás bons de voto' - Reportagem da Revista Oeste

 A nova geração conservadora transforma audiência nas redes em força nas urnas


Com marcas recordes nas urnas, Lucas Pavanato e Nikolas Ferreira se consolidam como os deputados federais mais votados do país | Foto: Reprodução/Facebook/Lucas Pavanato

A multidão vestida de verde e amarelo que toma as ruas de Belo Horizonte responde à convocação de Nikolas Ferreira, um jovem cuja voz há muito ultrapassou as fronteiras de Minas Gerais e conquistou o país. “Nunca subestime um piá”, fala ao microfone o deputado federal mais votado da história do Brasil. A declaração responde à grosseria da primeira-dama, Janja da Silva, que horas antes o chamara de “piá de bosta” por ter criticado mais uma das incontáveis asneiras ditas pelo presidente Lula. Ao abordar a resistência masculina a realizar exames de prevenção do câncer de próstata, Lula havia dito que “as mulheres aprendem a tomar toque desde pequenas”.

Enquanto líderes tradicionais construíram suas bases ao longo de décadas na política institucional, jovens com pouca experiência no meio político operam na lógica de algoritmos, gerando inúmeras visualizações e pautando o debate público. Nikolas recebeu 3,1 milhões de votos em Minas Gerais e garantiu a reeleição para a Câmara. Antes da votação, apoiadores do parlamentar já haviam incorporado o termo à campanha. Em um dos atos, um cartaz dizia: “Somos todos piá”. Em vídeo publicado nas redes sociais, Nikolas aparece cercado por apoiadores, sob gritos contra o PT, e diz: “É assim que se faz blocão, Janja.”

Nikolas não garantiu apenas a própria reeleição, mas também conseguiu emplacar 21 deputados federais em todo o país. Muitos deles foram os mais votados em seus Estados. É o caso do vereador paulistano Lucas Pavanato (PL), de 28 anos, que também ultrapassou os 3 milhões, e o deputado estadual capixaba Lucas Polese (PL), de 30, que conseguiu 419 mil votos. 

Os três chegaram ao topo da votação nacional, enquanto nomes com décadas de mandatos ficaram pelo caminho. Eles representam uma geração da direita que combina militância nas redes, pautas conservadoras e ambição de ampliar sua influência no Legislativo. Eduarda Campopiano (PL-SP) também entrou para a história das votações milionárias ao ser eleita deputada estadual com quase 2 milhões de votos aos 23 anos. Nenhuma outra mulher recebeu tantos votos nas disputas para a Câmara e as assembleias legislativas. Dois anos antes, Eduarda havia conquistado seu primeiro mandato com 3,5 mil votos. Eduarda, Nikolas, Pavanato e Polese somam mais de 8,5 milhões de votos. 


Do sótão aos 3 milhões 

Antes da eleição, Pavanato calculava que poderia chegar a 700 mil votos. Considerava 1 milhão ou 1,2 milhão um cenário excepcional. Quando a apuração terminou, 3.038.438 eleitores haviam digitado seu número. O resultado fez dele o deputado federal mais votado de São Paulo e colocou seu nome, ao lado do de Nikolas, acima dos antigos recordes de votação para a Câmara

A escalada eleitoral ocorreu em apenas quatro anos. Em 2022, Pavanato recebeu pouco mais de 36 mil votos na disputa por uma cadeira na Assembleia Legislativa e ficou como suplente. Em 2024, saltou para 161 mil e se tornou o vereador mais votado da cidade de São Paulo. Dois anos depois, multiplicou essa votação quase 19 vezes. 

A trajetória começou antes da fama nas redes. Nascido em Sorocaba e criado em São José dos Campos, Pavanato entrou na militância durante as manifestações pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Aos 18 anos, mudou-se para a capital paulista. Sem uma estrutura familiar montada na cidade, chegou a morar no sótão de um comitê político na Vila Mariana e recebia um salário de R$ 1 mil. 

Ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL), começou como estagiário no gabinete do então vereador Fernando Holiday. Mais tarde, rompeu com o movimento, aproximou-se do ex-presidente Jair Bolsonaro e filiou-se ao PL. Se os gabinetes lhe ensinaram a mecânica da política, foram as redes que deram escala à carreira. Pavanato construiu sua audiência com vídeos curtos, abordagens nas ruas e confrontos sobre temas políticos.


Com mais de 3 milhões de votos, Pavanato supera as próprias previsões e bate recorde | Foto: Reprodução/Redes sociai

Depois da eleição, atribuiu parte da votação à autenticidade que o público reconhece nele. A explicação ajuda a entender uma característica compartilhada pelos quatro personagens. A presença nas redes vai além dos meses de campanha. O seguidor acompanha discussões, viagens, reações a notícias e disputas políticas ao longo do tempo. 

Quando chega a eleição, já os conhece, ainda que essa familiaridade nem sempre se transforme em voto. Pavanato pretende levar a Brasília bandeiras que defendia como vereador: segurança pública, redução da maioridade penal, fiscalização do Judiciário e legislação sobre ideologia de gênero. 

“Vão sair vários Nikolas”, diz. “Vamos construir os próximos prefeitos, parlamentares e governadores usando a força das redes sociais.” 


Das telas para as urnas 

Eduarda esperava obter cerca de 500 mil votos. Na noite da eleição, pediu aos convidados no QG de campanha que guardassem os celulares numa caixa. Queria receber a notícia de uma vez. Apenas um amigo acompanharia a apuração; o chefe de gabinete anunciaria os resultados quando a contagem terminasse. Ao ouvir que Pavanato havia ultrapassado 3 milhões, ficou pálida. 

Quando veio o anúncio de sua própria votação, os óculos saíram do rosto. Choravam os pais, o noivo e a equipe. Aos 17 anos, Eduarda mudou-se para a Praia Grande. Mais tarde, um livro que ganhou da mãe a estimulou a gravar vídeos sobre aborto e feminismo. 

O cabelo colorido e as tatuagens chamavam a atenção de quem não esperava ouvir posições conservadoras. A reação do público, segundo ela, ajudou a difundir os primeiros conteúdos. “Nossa, essa menina aqui, com cara de esquerdista, toda metaleira, meio emo, falando de política de direita?”, lembra. A repercussão trouxe convites para podcasts, palestras e, em 2024, a proposta de disputar uma cadeira de vereadora. Eduarda hesitou: pensava em continuar produzindo conteúdo. 

Com o incentivo da mãe, de Pavanato e de integrantes do PL, decidiu concorrer. Nikolas também apoiou a campanha. Na Câmara Municipal, Eduarda afirma ter aprovado três dos cerca de 20 projetos apresentados. Atribui as dificuldades a objeções jurídicas e à resistência dos colegas. Segundo ela, os vereadores evitam votar propostas polêmicas.



Eduarda Campopiano, a deputada estadual mais votada do Estado de São Paulo | Foto: Reprodução/X


Entre as propostas aprovadas, Eduarda cita a conscientização sobre saúde mental masculina, a preferência de matrícula para irmãos na mesma escola e restrições a contratações. Esta última limita o acesso a cargos públicos de condenados por violência sexual contra crianças e adolescentes. Ela pretende levar a medida à Assembleia. 

“Ser pró-vida não é só defender o direito de nascer, é você proteger essas crianças depois que elas nascem também.” Na Assembleia, como seu primeiro ato, pretende pedir informações sobre abortos realizados no Estado, seus motivos e investigações de clínicas clandestinas para orientar a elaboração de propostas. 

Ascensão em todo o Brasil Fora do maior colégio eleitoral do país, a renovação chegou ao Espírito Santo, que tem cerca de 3 milhões de eleitores aptos a votar. Lucas Polese (PL) recebeu aproximadamente 419 mil votos e tornou-se o deputado federal mais votado da história capixaba. “Fiquei muito surpreso”, afirma. “Nem nas melhores projeções imaginávamos esse resultado. Estamos muito honrados pela confiança dos capixabas, mas também é muita responsabilidade. De cada cinco eleitores do Estado, um votou em mim”.


Lucas Polese (PL) é o deputado federal mais votado da história do Espírito Santo | Foto: Reprodução/Assembleia Legislativa do ES


Toda a receita da campanha veio de doações, sem recursos do fundão eleitoral. “Foi a campanha mais barata do país para a Câmara dos Deputados. Custou cerca de 18 centavos o voto”, relata.

 Natural de Cariacica (ES), Polese mudou-se para Colatina, no interior do Estado. Sua família possui uma pequena propriedade rural em Linhares, dedicada ao cultivo de café, onde o parlamentar trabalhou na agricultura. Eleito deputado estadual em 2022, Polese priorizou a oposição ao governador Renato Casagrande (PSB), aliado do presidente Lula, e a defesa de pautas ligadas ao agronegócio.

Próximo de Nikolas, o parlamentar projeta uma atuação na Câmara baseada na defesa da propriedade privada, da desburocratização e de um Estado mais enxuto. Ele divide sua plataforma em grandes blocos. O primeiro visa a um “reequilíbrio de forças entre os Poderes”. 

“Apesar de o Senado conduzir o impeachment, a Câmara também é muito importante nesse processo de investigação política,” defende, citando a necessidade de reformas para que o Supremo “deixe de ser uma delegacia”. A terceira prioridade do mandato é a segurança pública. Seu alvo principal é o domínio das facções, que impõem “uma legislação própria e tribunais do crime” em partes do país.

O teste do Congresso 

A presença de jovens com forte atuação digital entre os mais votados do país desenha a troca geracional em curso. Em vez de estruturas partidárias consolidadas e décadas de mandatos, parte dos novos campeões de voto chegou à política na era dos vídeos curtos e construiu ali a própria base eleitoral. Os quatro assumem a legislatura com capital político erguido fora do roteiro tradicional. 

Se a velha política ensinava a esperar a vez, as urnas de 2026 provaram que essa geração decidiu chegar antes.


Vanessa Araújo, Rachem Diaz e Tauany Cattan - Revista O)este