sexta-feira, 9 de outubro de 2026

'A força de um sobrenome', por Yasmin Alencar

 Dos 19 candidatos registrados nas urnas com o sobrenome Bolsonaro, seis foram eleitos, quatro da própria família



“E stá decretado o fim da era do PT.” A frase foi dita por Flávio Bolsonaro ao fim da apuração do primeiro turno, no último domingo, 4. O senador terminou a primeira etapa à frente de Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Flávio recebeu cerca de 47% dos votos válidos, 56 milhões. Lula teve 45%, menos de 54 milhões. A diferença é de quase dois pontos porcentuais, e o resultado final será decidido em 25 de outubro. 

Embora Flávio estivesse se referindo à disputa presidencial, o resultado do primeiro turno também permitiu medir a força eleitoral dos políticos que levaram os nomes “Bolsonaro” e “Lula” às urnas. Dos 19 candidatos que levaram “Bolsonaro” no nome, seis foram eleitos, sem contar Flávio, que segue na disputa. Quatro são parentes do expresidente e dois não têm vínculo com ele. Michelle Bolsonaro foi eleita senadora pelo Distrito Federal com quase 1 milhão de votos. Carlos Bolsonaro obteve um mandato de senador por Santa Catarina com votação acima de 2 milhões. No mesmo Estado, Jair Renan Bolsonaro, que concorreu como “Jair Bolsonaro”, foi eleito deputado federal com 131 mil. 

Em São Paulo, Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente, chegou a 379 mil e terminou como o segundo deputado mais votado do PL no Estado. Juntos, os quatro receberam mais de 3,4 milhões de votos. Entre os que não têm parentesco, Fabiana Bolsonaro foi eleita deputada estadual em São Paulo com 61 mil votos. 

No Paraná, Crysthofour Pereira de Almeida, registrado como Fão do Bolsonaro, conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa com 48 mil. Além dos candidatos que levaram o sobrenome, Bolsonaro também deixa um legado político de ex-ministros eleitos. É o caso de Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito governador de São Paulo no primeiro turno com mais de 14 milhões de votos, mais de 62% dos válidos. Ex-ministro da Infraestrutura, Tarcísio se firmou como um dos principais nomes do campo da direita.

Para o cientista político Elton Gomes, professor da Universidade Federal do Piauí, o sobrenome funciona como marca licenciada. Ele descreve o movimento em torno de Bolsonaro e Lula como “as duas grandes franquias políticas”. “O nome Bolsonaro ficou muito forte, semelhante ao que aconteceu em 2018, mas com muito mais força agora, porque o grupo busca voltar ao poder”, observa. 


Com Lula, a escala foi outra



Sobrenome Bolsonaro soma mais de 3,4 milhões de votos no Legislativo, e aliado Tarcísio de Freitas se consolida ao ser reeleito em São Paulo | Foto: Reprodução/X


No primeiro turno, nove candidatos chegaram à urna com “Lula” no nome, e nenhum tem parentesco com o presidente. Apenas dois foram eleitos, ambos para o Senado. Júlio César de Carvalho Lima (PSD) concorreu como “Júlio César O Julim do Lula” e fez 973 mil votos no Piauí. Aos 78 anos, ele foi eleito deputado federal pela primeira vez em 1994, cumpriu mandato de 1995 a 1999, ficou de fora, voltou à Câmara em 2003 e se reelegeu quatro vezes. Samanda Alves de Freitas, presidente estadual do PT e vereadora de Natal, concorreu como Samanda de Lula e fez 636 mil votos no Rio Grande do Norte, a segunda mais votada do Estado. 

Um terceiro eleito carrega o nome e não entra na conta. Lula da Fonte (PP) foi reeleito deputado federal por Pernambuco, mas “Lula” é seu apelido desde criança, derivado de Luiz. Filho do deputado Eduardo da Fonte, ele se elegeu com o mesmo nome em 2022, e a família é aliada de Bolsonaro. Para Gomes, o tamanho da vitória traz um problema próprio. “Enquanto o Lula não tem sucessor nenhum, o Bolsonaro tem sucessores demais”, enfatiza. 

“É uma espécie de briga por herança de alguém que ainda está vivo, mas inelegível, incomunicável.” A campanha de Lula, no entanto, discorda do diagnóstico e revela que, no entorno do PT, não é tão simples a transmissão de uma herança política. Para Marco Aurélio Carvalho, que coordena a campanha do presidente, os dois campos operam de maneiras diferentes. “No progressista, você não herda de forma automática um legado”, afirma. A fala de Carvalho reflete a dificuldade que o PT possui em construir um herdeiro político para Lula.


Enquanto Bolsonaro tem excesso de herdeiros políticos, Lula enfrenta a falta de um sucessor claro no PT | Foto: Shutterstock


A diferença entre os dois campos fica evidente quando se olha para o futuro. Enquanto o movimento em torno de Bolsonaro já tem sua segunda geração empossada e novos protagonistas surgindo, o PT encara o dilema de como sobreviver politicamente sem sua principal liderança. Lula disputa aquela que tende a ser sua última eleição, já que em 27 de outubro fará 81 anos. Gomes acredita que o presidente não preparou um sucessor por enxergar a ascensão de outro nome dentro da sigla como uma ameaça à sua hegemonia.

Para Gomes, o PT se transformou numa “estrutura de culto ao líder” e cercou Lula de conselheiros que competiam entre si pela atenção dele. “Tenho sérias dúvidas se esse grupo tem condições de sobreviver à morte física de Lula”, afirma. “Vai existir uma luta muito grande pelo espólio do lulopetismo.

” Mesmo inelegível e sem direito a voto, o ex-presidente Bolsonaro mantém influência por meio de familiares, aliados e ex-ministros que ampliaram seu espaço na política. Se a previsão de Flávio sobre o “fim da era do PT” vai se confirmar, ainda não é possível saber. Os resultados, porém, mostram dois movimentos distintos: enquanto o grupo ligado a Bolsonaro amplia sua presença por diferentes candidaturas, o PT enfrenta o desafio de preservar seu espaço político sem depender exclusivamente da liderança de Lula. 

O resultado dessa disputa terá impacto sobre a eleição de 2026 e sobre a composição das forças políticas nos próximos anos.


Yasmin Alencar  - Revista Oeste