sexta-feira, 23 de outubro de 2026

'A morte do muito vivo', por Augusto Nunes

 Alckmin perdeu a aposta no fator biológico


Geraldo Alckmin discursa após a divulgação dos resultados do primeiro turno das eleições, São Paulo, 4 de outubro de 2026 | Foto: Reuters/Marina Uezima/Brazil Photo Press


A trajetória do britânico Winston Churchill é uma montanharussa com escalas em velórios apressados e ressurreições consagradoras. Comandante da Marinha na Primeira Guerra Mundial, o desempenho pouco brilhante parecia ter bloqueado a ascensão política. Errado. Em maio de 1940, atormentado com os arrasadores avanços da Alemanha nazista no continente europeu, o Parlamento inglês enxergou em Churchill, então com 65 anos, o único de seus integrantes capaz de liderar a resistência aos exércitos inimigos e o triunfo sobre Adolf Hitler. Terminada a guerra, os eleitores negaram ao vencedor uma vaga no Parlamento — e, portanto, a permanência no cargo de primeiro-ministro.



 

Os ingleses não acham Churchill um primeiro-ministro suficientemente bom para tempos de paz, deduziram analistas apressados. Erraram outra vez. Em 1951, aos 76 anos, ele voltou à chefia do governo para colocar a casa em ordem e concluir a maratona de conversas a dois que ajudaram a fazer de Elizabeth II uma rainha exemplar. Como se não bastasse, o primeiro-ministro ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 1953. Tinha 80 anos quando decidiu encerrar a vida política. Parou porque quis. Parou quando quis. E ficou dez anos em sua casa de campo, entre seus quadros e livros, esperando em sossego a chamada para a Eternidade. Foi-se aos 90. Viverá para sempre na memória do mundo como o maior dos estadistas.


Winston Churchill foi primeiro-ministro do Reino Unido de 1940 a 1945, durante a Segunda Guerra Mundial, e novamente de 1951 a 1955 | Foto: Reprodução/Wikimedia Commons


No País do Carnaval, não há lugar para um Churchill. Aqui vigora o mantra recitado por vereadores, prefeitos, deputados estaduais, deputados federais, senadores, governadores, presidentes da República e síndicos de prédio, que sobe muitos decibéis quando convalescem da derrota recentíssima: “A morte política só vem com a morte física”. Ou nem com ela, prova a saga de Getúlio Vargas, que sobreviveu politicamente ao tiro no coração disparado em agosto de 1954. Pelo menos por mais dez anos, o presidente suicida continuou influenciando disputas eleitorais. 

Representados pelo candidato a vice-presidente João Goulart, os órfãos de Getúlio garantiram o triunfo de Juscelino Kubitschek em 1955 e, cinco anos mais tarde, ajudaram a eleger Jânio Quadros. Jânio pareceu ter optado pelo suicídio político em agosto de 1961, quando renunciou ao cargo que assumira sete meses antes. Em 1962, lá estava ele tentando instalar-se de novo no governo de São Paulo, e usá-lo como trampolim para outro salto em direção ao Palácio do Planalto. Derrotado, fingiu-se de aposentado até 1985, quando venceu o duelo pela prefeitura de São Paulo contra Fernando Henrique Cardoso. Mas Jânio não iria além dali. A vida política acabara. 

Reeleito senador em 1986, FHC estava ainda mais descrente em 1994: na melhor das hipóteses, conseguiria uma vaga na Câmara dos Deputados. Conformado, aceitou assumir o Ministério da Fazenda do governo Itamar Franco. O sucesso imediato do Plano Real, que domou a inflação selvagem, transformou FHC em candidato natural à Presidência. Um mês depois do início da campanha, já era franco favorito. Em outubro, goleou Lula já no primeiro turno. 

Repetiu a dose em 1998 e encerrou a vida de candidato. Vencido também por Fernando Collor em 1989, Lula resolveu transformar a candidatura à Presidência em profissão. Depois dos fiascos impostos por FHC, ganhou no segundo turno em 2002 e 2006, venceu em 2010 com o codinome Dilma Rousseff, que voltou a usar para se reeleger em 2014. Em 2022, conseguiu no segundo turno um terceiro mandato. 23/10/2026, 13:45 A morte do muito vivo - 


O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso| Foto: Alessandro Carvalho/Flickr


Tenta agora o quarto. Ganhando ou perdendo, se estiver vivo será candidato a alguma coisa em 2030. Terá 85 anos (mas com tesão de 30, mentirá como sempre). Terá o apoio de várias relíquias recusadas neste 4 de outubro pelo Brasil decente. José Dirceu queria voltar à Câmara. Rui Falcão sonhava permanecer por lá. José de Abreu queria saber como é ser deputado. Renan Calheiros caiu do cavalo junto com o filho. Marina Silva e Simone Tebet foram aposentadas. Todos continuam circulando por aí. Mas são defuntos políticos. 

Geraldo Alckmin tinha 69 anos quando mandou às favas quatro mandatos de governador, milhões de eleitores paulistas, os parceiros de tantas campanhas, os incontáveis ataques a Lula e à roubalheira do PT, o terço de carola praticante, o partido que ajudara a fundar e a vergonha na cara, fora o resto — tudo para infiltrar-se na chapa do inimigo como candidato a vice-presidente. Apostava no fator biológico: é sete anos menos velho que Lula. (Em 2001, era vice de Mário Covas quando o governador morreu). Convertido em esquerdista, filiou-se ao PSB, aprendeu a cantar a Internacional Socialista, a gritar “Viva Lula!” com o entusiasmo de cantor à caça de patrocínio. Aos 73 anos, faz o possível para disfarçar a decadência política.

No início da campanha presidencial, foi escalado para melhorar o desempenho dos companheiros no Estado que governou. Ou pelo menos em Pindamonhangaba, onde nasceu e foi prefeito. No primeiro turno, Lula teve perto de 27 mil votos. Flávio Bolsonaro passou de 52 mil. Se conseguir a reeleição, o vice continuará duplamente atormentado pela desconfiança dos petistas, que não aceitam recém-chegados, e pelo desprezo do Brasil que pensa e presta. Neste segundo turno, aliás, de passagem por Pindamonhangaba, o governador Tarcísio de Freitas foi abordado por dois desconhecidos. “Somos parentes do Alckmin”, disse um deles. “Mas votamos no senhor e no Flávio”, esclareceu o outro. O vice de Lula é hoje um morto político porque se achava vivo demais.


Geraldo Alckmin e Lula da Silva, durante pronunciamento após o 1º turno das eleições, São Paulo – SP | Foto: Ricardo Stuckert


Augusto Nunes - Revista Oeste