A Abin tem razão. Há, de fato, interferência estrangeira no Brasil. A agência apenas procurou em inglês o que provavelmente está escrito em cirílico, hanzi e persa
N o fim de agosto, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) despachou à Presidência, ao TSE e ao Ministério da Justiça um relatório intitulado “Ameaças ao processo eleitoral de 2026”. Era reservado e, como de costume, veio a público pela coluna de um militante petista de redação, a tempo de ser servido ao eleitor como prato forte da reta final do período eleitoral. O texto falava em “tendência de escalada de pressão sobre o Brasil” e descrevia a ação americana como um processo “gradual, combinado e adaptativo”.
Convém ler o relatório com a atenção que ele próprio não dedicou a problemas oriundos de fora dos EUA. Não há ali registro de fraude eleitoral, ataque a sistemas eletrônicos ou exércitos de robôs. Há sanções econômicas, pressão diplomática, declarações de Marco Rubio e a lembrança de uma minuta, de 2025, em que Washington exigia do Brasil o compromisso com eleições “livres e justas” e com a não limitação de “dissidentes políticos”. Lula disse que a proposta foi “recusada” e repousa no “arquivo morto”. O que a Abin definiu como “ameaça crítica à democracia brasileira” consistia, portanto, no fato de um governo estrangeiro dizer em voz alta o que pensava do nosso e demandar, por escrito, que o governo não perseguisse opositores.
Carl Schmitt ensinou que o político se define pela distinção entre amigo e inimigo, e que essa distinção não depende de critérios morais, estéticos ou econômicos. A Abin fez claramente essa distinção ao elaborar o tal relatório. O critério que orientou a escolha do inimigo não foi o grau de perigo, mas o grau de antipatia que ele desperta no governo de turno. Chamarei a esse fenômeno de inteligência estrábica: um olho fixo em Washington, arregalado, e o outro voltado para dentro, a fitar a própria consciência ideológica, sem jamais pousar sobre Moscou, Pequim ou Teerã — os maiores centros agressores às soberanias nacionais mundo afora.
Em 8 de outubro, quatro dias depois do primeiro turno no Brasil, a OpenAI publicou um relatório justamente sobre aquilo que a Abin preferiu não ver. A empresa desarticulou uma operação russa batizada de “Dark Clark”, que operava por meio de uma fachada chamada Social Research Center, apresentada como plataforma de estudos sobre a diáspora indiana na América Latina e gerida por uma persona fictícia, “Mia Clark”.
Pesquisadores latino-americanos de carne e osso trabalhavam para ela, ao que tudo indica, sem saber a quem serviam. Fontes abertas associam a operação à chamada Politology, ou La Compania, sucessora do Grupo Wagner. O repertório incluía áudios falsos, como o que anunciava um corte de água em La Paz durante protestos. A OpenAI classificou a operação na categoria 5 da escala de Brookings, a primeira desse nível que a empresa derrubou.
O Brasil não ficou fora do cardápio. O jornalista investigativo David Ágape, do portal A Investigação, encontrou entre as publicações do centro um estudo comparativo, “Entre el Arreglo y la Reconstrucción“, segundo o qual “a era de Lula, por sua vez, restaurou a posição moral e diplomática do Brasil”. Não é preciso imaginar que o Kremlin tenha escolhido abertamente o seu candidato brasileiro. Basta notar que, quando os fabricantes de fachadas russos resolveram falar do Brasil, foi isso o que acharam conveniente dizer.
Nada disso é improviso, por óbvio. O que estamos vendo aqui é o aprimoramento tecnológico da velha técnica russa da dezinformatsiya. Segundo o desertor romeno Ion Mihai Pacepa, o termo foi cunhado sob Stalin com sonoridade francesa, para sugerir que a prática viera do Ocidente. A Grande Enciclopédia Soviética de 1952 definia a palavra como “a difusão, na imprensa e no rádio, de informações falsas com o propósito de enganar a opinião pública”. A definição é correta, mas, como toda definição soviética, omite o essencial.
A mentira era a parte barata do serviço. O trabalho caro, paciente, às vezes de anos, consistia em erguer antes a fonte que a tornaria crível, uma fachada acima de qualquer suspeita. Anatoliy Golitsyn, que desertou da KGB em 1961, sustentou em New Lies for Old (1984) que a desinformação soviética não era um expediente de ocasião, mas uma estratégia de longo prazo, destinada a moldar a percepção que o Ocidente tinha do próprio bloco comunista. Nos anos 1920, a polícia política bolchevique inventou uma organização monarquista clandestina, o Trust, que enganou emigrados russos e serviços ocidentais e atraiu de volta à Rússia o espião britânico Sidney Reilly, que de lá não saiu vivo. Primeiro a fachada. Depois a mentira.
Daí a predileção da KGB pela imprensa das democracias liberais, cuja liberdade se torna ao mesmo tempo alvo e veículo. Segundo o desertor Ilya Dzerkvelov, citado pelo Departamento de Estado americano em 1987, a KGB criou em 1962 o jornal indiano Patriot com o único propósito de publicar desinformação. Foi ali que apareceu, em julho de 1983, a carta anônima de um “conhecido cientista americano”, segundo a qual o vírus da aids fora fabricado em laboratório militar em Fort Detrick. Dois anos depois, a Literaturnaya Gazeta citou o Patriot como se fosse fonte independente, e a mentira correu o mundo com passaporte indiano. Em 1992, Ievguêni Primakov, então chefe da inteligência externa russa, admitiu a autoria.
A fachada da Dark Clark, observe-se, também se apresentava como dedicada à diáspora indiana. Os operadores de 2026 trocaram a máquina de escrever pelo ChatGPT, mas conjugam a gramática dos avós da Lubianka. A iraniana Bogus Bylines, também descrita no relatório, seguiu a mesma cartilha: inventou sete jornalistas ocidentais e emplacou quase cem artigos em cerca de uma dúzia de veículos. A fisionomia era americana. A procedência, persa. Não se ouviu da Abin, do Itamaraty ou do Planalto uma palavra pública sobre nada disso.
A Rússia, aliás, não aparece nos trechos do relatório da agência que vieram a público. Apareceu noutro lugar. Segundo a Reuters, entre 9 e 11 de setembro, representantes da Abin receberam em Brasília delegações da França e da Alemanha e lhes confirmaram “a existência de interferência dos EUA e também da Rússia”. Sobre os americanos, foram eloquentes: a ameaça iria “do lawfare à interferência abertamente reconhecida”. Sobre os russos, nenhum detalhe. A inteligência estrábica, como se vê, também sabe a quem convém mostrar cada olho.
Vladimir Putin e Ievguêni Primakóv, na Rússia (03/07/2013) -= Foto: Wikimedia Commons
Em 4 de agosto, semanas antes de o relatório da Abin seguir para o Planalto, Lula recebeu Nikolai Patrushev, diretor do FSB entre 1999 e 2008, depois secretário do Conselho de Segurança da Rússia e hoje assessor de Putin. O encontro não constava da agenda oficial e só se tornou conhecido porque a embaixada russa o divulgou. No mesmo dia, o Descondenado telefonou a Putin. Patrushev foi recebido por Celso Amorim, pela secretária-geral do Itamaraty e pelo comandante da Marinha, e dois dias depois passeava pelo convés do Atlântico, o maior navio de guerra da esquadra brasileira, no Rio de Janeiro. Um assessor de Rubio que fizesse o mesmo roteiro teria virado capítulo de relatório. O velho chekista virou foto de embaixada.
E não estamos falando aqui de um burocrata russo qualquer. Em janeiro de 2016, a investigação pública britânica sobre a morte de Alexander Litvinenko, ex-agente do FSB envenenado em Londres com polônio-210 em 2006, concluiu, pela pena do juiz Sir Robert Owen, que a operação “provavelmente foi aprovada pelo senhor Patrushev e também pelo presidente Putin”. Ainda que a afirmação não configure uma sentença criminal, tampouco se pode reduzi-la a um mero boato. Trata-se da conclusão formal de um inquérito oficial de uma democracia, após o exame das provas. Antes disso, em setembro de 1999, explosões em prédios residenciais mataram centenas de pessoas na Rússia e serviram de pretexto para a segunda Guerra da Chechênia.
Em Ryazan, moradores flagraram agentes do FSB depositando sacos suspeitos no porão de um edifício, e Patrushev, que comandava o serviço, explicou que se tratava de um exercício de treinamento. Nenhum tribunal independente estabeleceu sua participação nos atentados, e é improvável que algum venha a fazê-lo. Mas o episódio basta para mostrar com que espécie de interlocutor o governo brasileiro julgou dispensável registrar uma reunião.
Quanto à China, o relatório da Abin a menciona apenas como a potência que Trump pretende conter. Pequim surge ali como vítima da hegemonia americana, e não como agente de coisa alguma. Ocorre que, em 1999, dois coronéis do Exército Popular de Libertação, Qiao Liang e Wang Xiangsui, publicaram Guerra sem Restrições, tratado em que o comércio, o direito, a mídia e as redes figuram como armas tão legítimas quanto mísseis. O que hoje se convencionou chamar de guerra híbrida tem ali uma de suas cartas de fundação. A doutrina é pública e estudada no mundo inteiro. Mas, para ser lida, exige o olho que a Abin mantém virado para o outro lado.
Eric Voegelin, tomando a expressão do romancista Heimito von Doderer, falava em “segunda realidade” para designar a construção imaginária que certos espíritos erguem para não ter de habitar a primeira. O relatório da Abin é um documento dessa segunda realidade. Nela, o perigo à soberania é a crítica pública de um aliado histórico, e não as fachadas encomendadas por uma potência em guerra. Nela, o pedido de respeito a dissidentes é uma agressão, e o ex-chefe do FSB circulando pelo Planalto sem registro na agenda é cooperação bilateral.
A Abin tem razão, portanto. Há, de fato, interferência estrangeira no Brasil. A agência apenas errou o alfabeto e procurou em inglês o que provavelmente está escrito em cirílico, hanzi e persa
Flávio Gordon - Revista Oeste






