Moraes terá de escolher entre o antigo professor e o pior aluno da classe
Os ministros André Mendonça, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes em sessão plenária do STF (4/2/2026) - Foto: Luiz Silveira/STF
Q uando o ministro Alexandre de Moraes desanda numa discurseira de improviso, mesmo amparada por anotações e trechos grifados de livros, convém que a Justiça se refugie em ruínas gregas ou romanas, que o idioma nacional se esconda na embaixada de Portugal e que a verdade se faça de morta no porão do Supremo Tribunal Federal. Foi assim neste 4 de fevereiro, quando a toga, sempre à beira do chilique, entrou em ação no, como direi?, Pretório Excelso. Previsivelmente, foram submetidas a outra medonha sessão de tortura a Lei, a língua portuguesa e os fatos. Surpreendente foi o esforço do ministro para cair fora do pântano gerado pelo Caso Master.
O Brasil que pensa e presta vê com justificada estranheza o contrato firmado entre Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e a advogada Viviane Barci de Moraes, mulher de Moraes. Ela não foi designada pelo golpista falido para cuidar de algum caso específico. A partir de janeiro de 2024, deveria atuar pelos três anos seguintes “onde for necessário”. Ainda mais estranhos são os valores. O trabalho renderia a Viviane R$ 129 milhões (isso mesmo: cento e vinte e nove milhões de reais), distribuídos em parcelas mensais de R$ 3,6 milhões. Até que o Banco Central fechasse a usina de espertezas, quanto foi pago a Viviane? Que serviços foram prestados pela advogada? Ela se aconselhou com o marido antes de assinar o contrato que deixaria em êxtase o mais caro advogado de filme de tribunal?
Como o caso foi transferido para o STF por ordem do onipresente Dias Toffoli, como se comportará o marido ministro? Ousaria condenar o cliente de Viviane, impedindo a própria mulher de embolsar a fortuna? Em dezembro, num único dia, Moraes telefonou seis vezes para o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Quem demonstra tamanha insistência precisa decerto tratar com urgência de assuntos relevantes. Quais foram? Buscava algum tipo de salvação para o banqueiro vigarista? Queria apenas cumprimentar Galípolo? O ministro Dias Toffoli sequestrou o caso Master, enjaulou-o no STF e resolveu manter sob sigilo todas as informações, provas e evidências resultantes das investigações da Polícia Federal. Moraes acha que o parceiro agiu corretamente? Enfim, pretende participar de um julgamento que terá sua própria mulher entre os defensores de uma das partes?
“Parece, Presidente, boa parte da imprensa, alguns críticos do Supremo Tribunal Federal, parece…ou por desconhecimento, ou por má interpretação, ou, infelizmente, muitos por absoluta má fé, que não há vedações aos magistrados, e que os magistrados não observam e não respeitam essas vedações”, disse o ministro no começo de mais um palavrório em que o sujeito troca socos e pontapés com o predicado, os verbos não sabem se tiram para dançar o singular ou o plural, o ponto vira vírgula ou vice-versa, o r dos verbos no infinitivo é amputado sem anestesia — e o que resta à plateia é tentar adivinhar o que o orador está querendo dizer. Transcrevo os melhores momentos do falatório, sem correções nem retoques:
“Não há nenhuma carreira pública com tantas vedações quanto a magistratura. O magistrado não pode fazê mais nada na vida, só o magistério! Como o magistério só pode dá aulas, só pode dá palestras, passaram a demoniziá palestras dadas por magistrados. Todas carreiras podem. Sê sócio comercial, inclusive atuando, podem exercê em outros horários outra atividade. O magistrado, não. Por falta do que criticá, daqui a pouco tamém a má fé vai pra quem dá aula… nas universidades. O magistrado não pode recebê a qualquer título ou pretexto custas ou participação em processo”.
Subitamente, entrou no assunto que efetivamente interessa ao país:
“O magistrado não pode ter ligação com o processo que julga. (…) E aí volta a má fé de muitas pessoas que querem prejudicá o Poder Judiciário e o Supremo Tribunal Federal dizendo, e não se dão trabalho que seja pelo menos uma má fé honesta, se é que isso existe, dizendo que este tribunal autorizouos magistrados a julgarem casos onde seus parentes são advogados. (…). Essa mentira absurda vem sendo repetida, dizendo que um determinado ministro possa julgá um casoque sua mulher ingressô, em que seu filho ingressô”.
Em novembro de 2024, Moraes fez muito mais que isso: ao autorizar uma operação da Polícia Federal destinada a prender um grupo acusado de tramar o assassinato do presidente Lula, do vice Geraldo Alckmin e do próprio ministro, o relator Moraes referiu-se 44 vezes ao “monitoramento do ministro Alexandre de Moraes”. Quem acredita em milagres talvez se anime a acreditar que o antigo professor de Direito Constitucional reencarnou no corpo que já possuiu. Mas o que anda fazendo há seis anos adverte aos gritos que Moraes não perderá um minuto de sono caso resolva convencer os colegas e até os capinhas de que a mulher defende a causa certa. Poderá até declararse impedido de votar, mas só depois de garantido o recebimento dos R$ 129 milhões.
