O ministro comunista usou seu tempo de fala não para esclarecer
fatos, mas para representar erudição que não tem, mal citando os
autores citados e ironizando sem saber o que é ironia
Ministro Flávio Dino | Foto: Rosinei Coutinho/STF
“A retórica não deve conhecer como as coisas são em si mesmas,
mas descobrir algum mecanismo persuasivo de modo a parecer, aos ignorantes,
conhecer mais do que aquele que tem conhecimento.”
(Platão, Górgias)
“Os sofistas não nos são tão extemporâneos como poderíamos supor.”
(G. W. F. Hegel, Lições sobre a História da Filosofia)
Flávio Dino é um comunista. E, em sendo comunista, ele é
também um sofista. Não por acidente biográfico, mas por
tradição ideológica: o comunista, como o sofista antigo, não
compreende a linguagem como instrumento de comunicação da
realidade, mas como arma de manipulação dos sentimentos e das
percepções da audiência. Para ambos, a palavra não serve para revelar o
mundo, mas para dobrá-lo à vontade de quem fala.
O interlocutor, nessa
lógica, nunca é um igual a ser convencido pela razão. Ele é uma presa a
ser capturada pela retórica.
Pois, na última terça-feira, 15, a sociedade brasileira foi transformada em
presa de um sofista do Supremo Tribunal Federal, quando a Corte
deveria decidir se abriria ou não investigação contra Alexandre de
Moraes, o Careca do Master, por seus vínculos com Daniel Vorcaro.
Na
infame sessão, que muitos têm considerado como o atestado de óbito do
STF tal como conhecíamos, coube a Flávio Dino — a quem apelidei
carinhosamente de Camarada Rocambole — a missão de pedir vistas travar o julgamento.
No caminho de fazê-lo, todavia, o militante togado
nos ofereceu uma aula — não de Direito, mas de impostura.
Minha amiga Bruna Torlay, professora de filosofia, fez uma observação
muito pertinente: Dino lembra Hípias, dos diálogos platônicos Hípias
Maior, Hípias Menor e Protágoras. Platão retrata esse sofista como um
homem extremamente vaidoso, convencido da própria erudição,
apaixonado pelo sucesso e pelo dinheiro, superficial a despeito de todo o
conhecimento que arrota em praça pública. Trocando Atenas por Brasília
e a túnica clássica pela toga moderna, a descrição cai como uma luva.
Dino discursou empolado.
Citou Aristóteles. Citou Hobbes — embora,
deste, tenha recolhido apenas a frase que já é praticamente adesivo de
para-choque de caminhão: “o homem é o lobo do homem”. Ocorre que
Aristóteles e Hobbes, na boca do ministro, soam tão adequados quanto
uma bola de futebol nos pés de um perna-de-pau: o instrumento existe, a
intenção de usá-lo é evidente, mas a perícia simplesmente não
acompanha a pretensão.
Curiosamente, quando o Camarada Rocambole abandonou os clássicos e
foi buscar na baixa cultura referências mais comezinhas — notadamente
o humorista Fábio Porchat e o cantor Chico César —, a voz mudou de
registro. Ali, sim, havia naturalidade, quase intimidade.
Faz sentido: esses os filósofos que Dino verdadeiramente consome. Se, nele,
Aristóteles é mencionado como quem exibe um diploma emprestado,
Porchat e Chico César o são como quem fala de amigos de infância. A
discrepância entre os dois registros é, ela mesma, a prova do que se quer
demonstrar: em Dino, como em Hípias, há erudição de vitrine.
Mas o ápice da encenação veio quando, ao dirigir uma ironia ao
presidente Edson Fachin, Dino sentiu a necessidade de explicar o próprio
recurso: a ironia, disse ele, serve para descontrair o ambiente.
E
completou, grandiloquente: “como diria Aristóteles”.
Eis o momento em que o colosso tropeça na própria toga. Porque
Aristóteles, na Ética a Nicômaco (1127a-1127b), não trata a ironia como
recurso de descontração de ambiente. Trata-a como um dos modos pelos
quais os homens se apresentam a si mesmos e aos outros, estabelecendo
três disposições possíveis, duas viciosas (por desmedidas) e uma
virtuosa (por comedida).
Sessão plenária extraordinária do STF (15/09/2026) | Foto: Alejandro Zambrana/STF
A disposição virtuosa é a alḗtheia (ἀλήθεια): a veracidade, o apresentar-se
aos outros como de fato se é. A primeira, e menos grave, disposição
viciosa é a eirōneía (εἰρωνεία): a ironia no sentido grego, que consiste na
dissimulação modesta, o hábito de negar ou diminuir qualidades que
realmente se possui. Se usada como ferramenta retórica para a busca da
verdade — como Aristóteles reconhece ser o caso da maiêutica socrática
—, a ironia tem o seu valor. O problema mesmo está na segunda
disposição viciosa, que é a alazoneía (ἀλαζονεία): a alazonia, a jactância, a
impostura, a bazófia, a fanfarronice, a vanglória, em suma, o vício de
atribuir a si mesmo qualidades maiores do que as que se tem.
Se pudesse retornar do Hades e examinar a retórica do Camarada
Rocambole naquela sessão, não é a ironia que saltaria aos olhos de
Aristóteles, mas justamente o seu oposto. O estagirita não veria em Dino
um homem afetando modéstia, disposto a diminuir as próprias
qualidades; veria, ao contrário, um homem disposto a inflar qualidades
que não tem. Não veria eirōneía, mas alazoneía. O eirōn — o agente da
ironia — é o exato oposto do alazṓn — o agente da alazonia. O primeiro
pode ser chamado de irônico; o segundo, de alazônico. Ou, simplesmente,
de fanfarrão.
Flávio Dino é esse fanfarrão, esse jactancioso, no sentido aristotélico. Ao
invocar Aristóteles para justificar uma ironia como “recurso de
descontração”, ele mostra não ter a menor intimidade com o autor que
cita. O Camarada Rocambole não parece ter as qualidades exigidas para
se tornar irônico no sentido grego. Ele é, isso sim, um espécime quase
perfeito de alazṓn: o sujeito dedicado a atribuir a si mesmo talentos — de
jurista, de filósofo, de homem de humor fino, de estadista acima do
partidarismo — que a sua vida real de militante comunista permanente
insiste em desmentir.
Platão e Aristóteles caminhando e debatendo. Detalhe da pintura Escola de Atenas, de Rafael (1509–1511) | Foto: WIkimedia Commons
Não é pouca ironia — essa, sim, no sentido comum da palavra — que um
pretenso magistrado tenha adiado, com citações postiças de Aristóteles, o
julgamento que poderia esclarecer se seu colega de Corte manteve
relação promíscua com o homem por trás de um dos maiores rombos
bancários da história recente do país. Enquanto o Brasil esperava para
ver se Alexandre de Moraes tinha como explicar a troca de mensagens
comprometedoras com Daniel Vorcaro, teve de assistir a uma sessão em
que a substância desse fato cedeu lugar ao teatro de erudição de um
sujeito que confunde pompa com conhecimento, e chicana com justiça.
Trata-se do método sofístico em estado puro: quando a pergunta é
incômoda — “o senhor Alexandre de Moraes deve ser investigado?” —, a
resposta hábil não é responder, mas adiar. E o adiamento precisa ser
embrulhado num verniz filosófico para não parecer o que é. Hípias
também fazia isso. Diante de Sócrates, sempre tinha uma resposta
pronta, elegante, cheia de nomes ilustres — e sempre, no fim, vazia. A
diferença é que Sócrates estava ali para desmontar o artifício. Não
tínhamos um Sócrates no STF, caso em que o Camarada Rocambole sairia
dali desencarambolado.
Fica, então, o registro para a posteridade: um membro da mais alta Corte
do país pediu vista de um julgamento sensível à credibilidade do próprio
Judiciário, e usou seu tempo de fala não para esclarecer fatos, mas para
representar erudição que não tem, mal citando os autores citados,
ironizando sem saber o que é ironia, e confundindo, mais uma vez, o
exercício do saber com o exercício da sofística. Um homem, dizem que
disse Hobbes (ou terá sido Porchat?), talvez seja o lobo de outro homem.
Mas o fanfarrão, isso Aristóteles realmente disse, é sempre o fanfarrão de
si mesmo.