sexta-feira, 5 de junho de 2026

'O poder desembarca em Lisboa', escreve Cristyan Costa

O Gilmarpalooza 2026 reuniu em Lisboa figurões menos interessados nas investigações sobre o escândalo do Banco Master do que na censura das redes sociais


Encerramento do Fórum de Lisboa, com a presença do ministro Alexandre de Moraes e de sua mulher, Viviane Barci — 02/06/2026 - Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste

E m novembro de 1807, diante do avanço das tropas de Napoleão, a corte portuguesa — formada por nobres, magistrados e outros súditos de Dom João VI — zarpou rumo ao Brasil para preservar o centro do poder do Império. A esquadra aportou em Salvador em janeiro do ano seguinte, transferindo para o outro lado do Atlântico o coração político do Reino de Portugal. Duzentos e dezoito anos depois, o movimento se repete, mas em sentido inverso. 

Desde 2013, parte da elite política, jurídica e empresarial brasileira comparece ao Fórum de Lisboa, evento idealizado por Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal (STF). Neste junho, o 14° encontro reuniu 2.867 participantes — sendo 432 palestrantes — que se dividiram entre os 70 painéis. Durante três dias, ministros, parlamentares, empresários, banqueiros, advogados e dirigentes de órgãos públicos ocuparam auditórios, restaurantes, hotéis e eventos exclusivos da capital portuguesa — bem longe do escrutínio público. 


“Gilmarpalooza” 

Com o passar dos anos, o congresso que surgiu sob o propósito de discutir temas acadêmicos ganhou um apelido mais conhecido que seu próprio nome. Inspirada no festival de música Lollapalooza, a expressão “Gilmarpalooza” se popularizou na imprensa à medida que os debates começaram a atrair não apenas professores e pesquisadores, mas também a nata dos Três Poderes e, claro, do empresariado. 


Fachada do JNcQUOI Club, em Lisboa, onde ocorreu o evento do Instituto Esfera — 31/5/2026 - Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste

Oficialmente, a edição deste ano seria sobre “soberania digital” e “enfrentamento do tecnofeudalismo”. Na prática, porém, os debates se concentraram em temas como regulação das redes sociais, “combate à desinformação”, controle do Estado no entorno da inteligência artificial (IA) e novos mecanismos de governança (e censura) das plataformas digitais. Em diferentes painéis, o tema da regulação apareceu sob variadas roupagens, sempre com críticas à IA e às supostas notícias falsas que poderiam mudar o resultado de qualquer eleição. 

Na abertura do fórum, o ministro Alexandre de Moraes (único integrante do STF presente, além do anfitrião) defendeu essa agenda veementemente ao sustentar que a regulação das redes exige “coordenação internacional”. Moraes chegou a citar o papa Leão XIV ao defender “esforços globais para enfrentar o poder das big techs”. 

A avaliação foi acompanhada por Mendes, que voltou a defender “mecanismos mais robustos de governança digital” e maior capacidade de atuação dos Estados diante das empresas de tecnologia. Mendes elogiou ainda os decretos do presidente Lula que fortalecem a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD). Criada apenas para proteger os brasileiros de possíveis vazamentos, além de orientálos caso isso ocorra, a ANPD também poderá fiscalizar os conteúdos publicados nas plataformas digitais. A discussão passou ainda pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). 

Indicada pelo presidente Lula para a Corte sob a bênção de Flávio Dino, a ministra Estela Aranha criticou o que chamou de “colonialismo digital” e defendeu maior protagonismo dos países na definição das regras que regem o ambiente virtual. Estela nem sequer mencionou o aparato de vigilância que já existe no TSE, atualmente, sob o guardachuva da Assessoria Especial de Enfrentamento da Desinformação, órgão responsável por censurar inúmeros perfis nas redes sociais na disputa eleitoral de 2022 — nesse departamento, trabalhou Eduardo Tagliaferro, responsável por revelar o escândalo da “Vaza Toga”. 

O presidente da OAB, Beto Simonetti, acrescentou que “a Justiça não cabe em um algoritmo” e reafirmou a manutenção da “supervisão humana nas decisões judiciais”. As falas ilustraram uma característica recorrente do fórum. Embora os painéis abordassem temas distintos, da inteligência artificial às eleições, grande parte das discussões terminava no mesmo ponto: a necessidade de ampliar a supervisão e a censura à internet — tudo isso em pleno ano eleitoral, em um cenário de empate técnico entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Nem todas as apresentações permaneceram restritas ao universo digital. Em um dos debates mais acalorados do encontro, a ministra do Tribunal Superior do Trabalho Morgana Richa — namorada de Gilmar Mendes — e o deputado federal Leo Prates (PDT-BA), relator da proposta, divergiram acerca dos impactos econômicos e sociais do fim da escala 6×1, um tema que não tinha tanta relação com o escopo principal da cerimônia. 

Curiosamente, os painéis mais comentados do fórum foram justamente aqueles que escaparam da pauta dominante da soberania digital. As apresentações de Iván Duque, ex-presidente da Colômbia, Thomas Friedman, jornalista do New York Times, Joel Mokyr, prêmio Nobel de Economia, Magda Chambriard, presidente da Petrobras, e Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, atraíram auditórios relativamente cheios ao tratar de temas como segurança pública, economia, energia e competitividade. 

O encontro ocorreu sob circunstâncias diferentes das edições anteriores. Realizado meses após o tsunami provocado pelo escândalo do Banco Master e em meio ao debate sobre a criação de um Código de Ética para o STF, o fórum registrou uma edição bem menos estrelada. O Gilmarpalooza 2026 contou com menos autoridades de peso do que em anos anteriores, cenário que contrastou com o auge do evento observado na primeira metade da década. Em 2025, por exemplo, cinco juízes do STF prestigiaram a cerimônia.







Agenda extraoficial 

O verdadeiro interesse dos participantes do Gilmarpalooza está longe dos auditórios da Universidade de Lisboa, numa programação paralela que movimenta a capital portuguesa durante os três dias de evento. São nesses encontros, jantares e happy hours que empresários, lobistas, dirigentes partidários, banqueiros, advogados e magistrados discutem seus próprios interesses em conversas ao pé do ouvido.

Já no domingo à noite, parte dos convidados circulava por restaurantes, clubes e recepções privadas. O primeiro grande ato ocorreu no JNcQUOI Club, um dos cartões postais mais famosos da Avenida da Liberdade (uma mistura de Avenida Paulista com Rua Oscar Freire, por causa da extensão e da quantidade de lojas de grife, como Louis Vuitton, Cartier e Prada). Promovido pelo Instituto Esfera — espécie de centro de estudos e articulação entre homens de negócios e poder público —, o jantar reuniu o empresário João Camargo, presidente do grupo, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, Mendes, Morgana, o ministro aposentado Luís Roberto Barroso, o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski e o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, entre outros convidados. 


O vice-presidente do STJ, Luis Felipe Salomão, em happy hour com outros ministros no restaurante

Não muito longe dali, outra parte do establishment saboreava bife de tártaro, arroz de pato confitado com queijo chèvre, acompanhado de vinho do Porto, no prestigiado e tradicional restaurante Sacramento do Chiado. Entre os presentes estavam Lewandowski (que ficou pouco no rega-bofe do Esfera), Moraes, sua mulher, Viviane Barci, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), o presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Luis Felipe Salomão (cujo sonho é ganhar uma toga do Supremo e consolidar o triunfo do seu grupo no judiciário fluminense sobre o rival Luiz Fux), e o ministro Benedito Gonçalves, que teve rejeitado o ingresso no TSE. Salomão assumirá o comando do STJ em agosto. 

Entre 2022 e 2024, como corregedor nacional de Justiça, abriu uma série de procedimentos disciplinares contra magistrados críticos de Moraes e do próprio Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Gonçalves, por sua vez, está prestes a ampliar sua influência no Judiciário. Na próxima semana, o plenário do Senado vai analisar sua indicação para a corregedoria do CNJ, a mesma ocupada por Salomão. Gonçalves foi corregedor-geral da Justiça Eleitoral durante as eleições de 2022, relatou ações que resultaram na inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro no ano seguinte e também conduziu a cassação do exdeputado Deltan Dallagnol (Novo-PR). É de Gonçalves a frase “missão dada é missão cumprida”, dirigida a Moraes, que vazou numa sessão do TSE. 

No happy hour, Moraes, que há quase um mês mantém suspensa a Lei da Dosimetria aprovada pelo Congresso Nacional, passou boa parte da noite conversando com Motta, presidente da Casa que aprovou o projeto de redução das penas dos presos do 8 de janeiro. Enquanto isso, Viviane observava atentamente a movimentação ao redor da mesa. Desde dezembro de 2025, ela ainda não explicou o contrato de R$ 129 milhões entre seu escritório de advocacia e o agora falido Banco Master. No dia seguinte, durante a participação de Motta no fórum, o parlamentar defendeu a necessidade de regular a IA e anunciou para junho deste ano a votação de um “grande projeto de lei” nesse sentido. 

A programação paralela prosseguiu na segunda-feira com novos encontros reservados. Um deles ocorreu no Jockey Club de Lisboa, no horário do almoço, no intervalo de um dos painéis. Entre os participantes estava Gonet, que comeu um lombo de bacalhau à brasa, enquanto degustava um vinho branco rodeado de acadêmicos e advogados com casos no STF. 

Na tarde do dia seguinte, Barroso, o ministro do TSE Floriano de Azevedo Marques e outras autoridades compareceram a um convescote no Solar dos Presuntos, reduto tradicional de estudantes de Direito da capital portuguesa e um dos “points” famosos da elite brasileira. O evento mais luxuoso daquele dia, contudo, ocorreu no SUD Lisboa, às margens do Rio Tejo. Patrocinada pelo BTG Pactual, a recepção reuniu empresários, magistrados, advogados e políticos em um ambiente marcado pela ostentação. 

Aston Martins, Ferraris e Mercedes-Benz chegavam sucessivamente ao local enquanto convidados circulavam entre vestidos de gala, ternos sob medida e algumas das figuras mais influentes da vida pública nacional. Entre os presentes, o deputado federal Orlando Silva (PcdoB-SP), conhecido por usar o cartão corporativo para comprar uma tapioca enquanto era ministro do Esporte de Lula, o pastor Everaldo, vice-presidente do Podemos, e alguns cadáveres vivos da política nacional, como o expresidente da Câmara Rodrigo Maia (PSDB-RJ).

A agenda paralela se encerrou com mais dois encontros tradicionais do circuito lisboeta: a recepção organizada pelo advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, realizada em um palacete do grupo Tivoli. O evento reuniu autoridades, empresários e integrantes da comunidade jurídica em mais uma noite de confraternização. Por fim, mais de cem advogados se reuniram no disputado terraço do JNcQUOI Club (com a presença de Gonet e seu filho) para discutir a política brasileira e até mesmo palpites a respeito da eleição deste ano no Brasil. Membros da Advocacia-Geral da União, que compareceram com dinheiro público, chegaram a comentar que “precisavam aproveitar bastante o evento, porque só se vive uma vez”.


O ministro Alexandre de Moraes, do STF, no restaurante Sacramento do Chiado, onde passou boa parte do jantar conversando com Hugo Motta — 31/05/2026 - Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste

No happy hour, Moraes, que há quase um mês mantém suspensa a Lei da Dosimetria aprovada pelo Congresso Nacional, passou boa parte da noite conversando com Motta, presidente da Casa que aprovou o projeto de redução das penas dos presos do 8 de janeiro. Enquanto isso, Viviane observava atentamente a movimentação ao redor da mesa. Desde dezembro de 2025, ela ainda não explicou o contrato de R$ 129 milhões entre seu escritório de advocacia e o agora falido Banco Master. No dia seguinte, durante a participação de Motta no fórum, o parlamentar defendeu a necessidade de regular a IA e anunciou para junho deste ano a votação de um “grande projeto de lei” nesse sentido. 

A programação paralela prosseguiu na segunda-feira com novos encontros reservados. Um deles ocorreu no Jockey Club de Lisboa, no horário do almoço, no intervalo de um dos painéis. Entre os participantes estava Gonet, que comeu um lombo de bacalhau à brasa, enquanto degustava um vinho branco rodeado de acadêmicos e advogados com casos no STF. 

Na tarde do dia seguinte, Barroso, o ministro do TSE Floriano de Azevedo Marques e outras autoridades compareceram a um convescote no Solar dos Presuntos, reduto tradicional de estudantes de Direito da capital portuguesa e um dos “points” famosos da elite  brasileira. O evento mais luxuoso daquele dia, contudo, ocorreu no SUD Lisboa, às margens do Rio Tejo. Patrocinada pelo BTG Pactual, a recepção reuniu empresários, magistrados, advogados e políticos em um ambiente marcado pela ostentação. Aston Martins, Ferraris e Mercedes-Benz chegavam sucessivamente ao local enquanto convidados circulavam entre vestidos de gala, ternos sob medida e algumas das figuras mais influentes da vida pública nacional. 

Entre os presentes, o deputado federal Orlando Silva (PcdoB-SP), conhecido por usar o cartão corporativo para comprar uma tapioca enquanto era ministro do Esporte de Lula, o pastor Everaldo, vice-presidente do Podemos, e alguns cadáveres vivos da política nacional, como o expresidente da Câmara Rodrigo Maia (PSDB-RJ).

A agenda paralela se encerrou com mais dois encontros tradicionais do circuito lisboeta: a recepção organizada pelo advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, realizada em um palacete do grupo Tivoli. O evento reuniu autoridades, empresários e integrantes da comunidade jurídica em mais uma noite de confraternização. Por fim, mais de cem advogados se reuniram no disputado terraço do JNcQUOI Club (com a presença de Gonet e seu filho) para discutir a política brasileira e até mesmo palpites a respeito da eleição deste ano no Brasil. Membros da Advocacia-Geral da União, que compareceram com dinheiro público, chegaram a comentar que “precisavam aproveitar bastante o evento, porque só se vive uma vez”. 

Distantes da realidade O grande ausente do Fórum de Lisboa foi justamente aquele que mais ajudou a definir sua edição de 2026. O escândalo do Banco Master não apareceu nos painéis principais. Não ocupou mesas de debate. Não foi tema das palestras mais concorridas. Ainda assim, pairava sobre praticamente todos os ambientes do Gilmarpalooza, dos auditórios da Universidade de Lisboa aos jantares reservados. A ausência talvez seja compreensível. O caso colocou sob escrutínio justamente o tipo de relação que ajudou a transformar o Fórum de Lisboa em um dos encontros mais influentes do país: a convivência permanente entre magistrados, empresários, políticos, banqueiros, escritórios de advocacia e agentes públicos. 

Durante anos, os organizadores e frequentadores do Gilmarpalooza insistiram que não havia nada de extraordinário nessa proximidade. O Master, todavia, mudou a forma como parte da sociedade passou a enxergar esse universo. Ainda assim, pouca coisa parece ter mudado. As recepções continuaram acontecendo. Os brindes continuaram sendo erguidos. Os mesmos personagens continuaram dividindo mesas, salões e contatos. Como se nada tivesse acontecido. 

Talvez a imagem que melhor sintetize a edição de 2026 tenha surgido justamente no encerramento do evento. Sentados lado a lado, Mendes, Gonet e Salomão assistiram à plateia aplaudir Moraes depois de o PGR elogiar a atuação do ministro nos processos relacionados ao 8 de janeiro. O Master não foi mencionado uma única vez. 

Essa foi a principal lição deixada pelo Gilmarpalooza 2026. Não a discussão sobre soberania digital. Nem os debates sobre IA. Nem as teses que trataram da regulação das redes sociais. A verdadeira mensagem veio dos bastidores. Ela sugere que uma parcela da elite brasileira continua convencida de que não precisa dar explicações. E que os brasileiros assistirão a tudo isso, ano após ano, como se fossem um bando de idiotas.

Cristyan Costa - Revista Oeste

Agora é oficial: EUA efetivam designação do PCC e CV como organizações terroristas

Determinação de Trump passa a tratar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas estrangeiras


Cerco ao Comando Vermelho transformou Complexo da Penha em cenário de guerra no Rio (Foto: Reprodução/X/@MarcelinhoCaa)


As facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) foram oficialmente classificadas como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO), bem como designadas como Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGT). A oficialização da determinação anunciada em maio pelo presidente Donald Trump foi publicada na edição desta sexta-feira (5) do Federal Register, diário oficial do governo federal estadunidense.

Para o enquadramento como FTO, o secretário de Estado, Marco Rubio, considerou haver “base factual suficiente” para aplicar a seção 219 da Lei de Imigração e Nacionalidade e enquadrar o PCC e o CV como Organizações Terroristas Estrangeiras. A designação passa a tornar crime federal dar “apoio material” a grupos terroristas, com base na Lei de Imigração e Nacionalidade, e depende de aval do Congresso dos EUA.

Já a formalização como SDTG, vigente desde maio, tem base em decreto do ex-presidente George W. Bush, como reação aos atentados do 11 de Setembro de 2001, sem necessidade de aval do Congresso dos EUA.

Cerco ao terrorismo

As medidas equiparam as facções brasileiras a mais de 90 grupos extremistas, como Hamas, Hezbollah, Al Qaeda e Estado Islâmico. E garantem o congelamento patrimonial de bens ligados às facções, controlados de pessoas ou entidades dos EUA.

As designações impõem penalidades cíveis e criminais contra quem efetivar transações com o PCC e o CV, vetando e até deportando imigrantes faccionados nos EUA. E ainda obrigam instituições financeiras americanas a identificar e reportar ao Departamento do Tesouro a existência de fundos ligados às facções brasileiras.

“As pessoas conhecidas como Primeiro Comando da Capital (também conhecido como PCC, First Capital Command) e Comando Vermelho (também conhecido como Red Command) são estrangeiros que cometeram ou tentaram cometer, representam um risco significativo de cometer ou participaram de treinamento para cometer atos de terrorismo que ameaçam a segurança de cidadãos dos EUA ou a segurança nacional, a política externa ou a economia dos Estados Unidos”, diz o texto publicado no Federal Register.

Além do PCC e CV, ligados ao tráfico de drogas e diversos crimes brutais, já foram designados como terroristas pelo presidente Donald Trump os cartéis latino-americanos como Sinaloa, do México, e Tren de Aragua, da Venezuela.

Davi Soares -  Diário do Poder 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Advogados de Vorcaro, comparsa do ex-presidiário Lula, defenderam operador do Mensalão e engenheiros ligados à tragédia de Brumadinho

 Escritório conta com procurador-geral da OAB e jurista que ajudou a escrever o Código Penal


Daniel Vorcaro era o dono do Banco Master, instituição financeira que foi liquidada judicialmente pelo Banco Central - Foto: Reprodução/YouTube/@JornaldaRecord 

Responsável pela defesa de Daniel Vorcaro, o escritório Marcelo Leonardo Advogados Associados está entre as bancas criminalistas mais conhecidas do país. Com atuação em processos de grande repercussão no Supremo Tribunal Federal (STF), o grupo participou da defesa de clientes como o publicitário Marcos Valério, um dos principais operadores do esquema do Mensalão, e dos engenheiros Joaquim Pedro de Toledo, Alexandre de Paula Campanha e Renzo Albieri Guimarães Carvalho, denunciados em decorrência da tragédia de Brumadinho. 

O caso de Vorcaro está sob os cuidados diretos do advogado Sérgio Leonardo, terceira geração da família à frente do escritório. Nesta semana, ele desistiu de participar do Fórum de Lisboa, evento popularmente conhecido como Gilmarpalooza. Organizado por Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), o encontro ocorreu entre os dias 1º e 3 de junho, na capital portuguesa.


Marcelo Leonardo representou Marcos Valério no julgamento do Mensalão - Foto: Reprodução/STF

Segundo o 'jornal' O Globo, o advogado chegou a ser confirmado como um dos palestrantes do fórum. A desistência ocorreu em meio às negociações do novo acordo de delação premiada de Vorcaro. No certame em análise, o ex-banqueiro teria ampliado a lista de envolvidos sobre a qual promete falar, com nomes dos três Poderes  da República, o que incluiria ao menos um dos dez ministros do Supremo.

Sérgio presidiu a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Minas Gerais de 2022 a 2024. Atualmente, é procurador-geral da OAB Nacional e um de seus conselheiros. Seu pai, Marcelo Leonardo, integrou a comissão de juristas do Senado responsável pelo anteprojeto do novo Código Penal brasileiro, apresentado em 2011. O avô, Jair Leonardo Lopes, fez parte da comissão do Ministério da Justiça que promoveu a reforma do Código Penal do país em 1988

Artur Piva - Revista Oeste

Governo corrupto do ex-presidiário Lula avalia recusar novo embaixador dos EUA

 

Daniel Perez foi indicado por Donald Trump para assumir embaixada dos EUA no Brasil (Foto: Divulgação)


A militância petista no Itamaraty fez chegar a Lula (PT) a “sugestão” de negar agrément ao deputado Daniel Perez, que o presidente Donald Trump escolheu como futuro embaixador dos Estados Unidos em Brasília. Antes da oficialização, os governos anfitriões são informados da escolha e solicitados a emitir um “de acordo”, o agrément. Somente após essa etapa a indicação é formalizada. São raras as recusas de agrément, mas, no Brasil, há sempre precedente para desfeitas dessa natureza.

Anão em apuros

O ódio a judeus fez Dilma (PT) negar agrément ao embaixador de Israel em 2016. Em resposta, Tel Aviv tachou o Brasil de “anão diplomático”.

Ódio não cessa

Em 2025, Lula nem respondeu ao pedido de agrément para Gali Dagan como embaixador de Israel. Com a demora, a indicação foi retirada.

Ataque a Rubio

O alvo da desfeita não seria Trump diretamente, mas o chanceler Marco Rubio, que citou Brasil e Cuba entre os governos hostis aos EUA.

Ditadura covarde

O detalhe é que o secretário de Estado Marco Rubio e Daniel Perez são filhos de cubanos perseguidos que adquiriram horror à esquerda.


Diário do Poder

terça-feira, 2 de junho de 2026

‘Dos nossos bandidos, cuidamos nós’, diz José Múcio - auxiliar reincidente do ex-presidiário Lula - sobre PCC e CV

Ministro defende que combate ao crime organizado seja conduzido pelo Brasil e afirma que a questão deve ser resolvida ‘intramuros’


Ministro da Defesa, José Múcio Monteiro | Foto: Divulgação / Ministério da Defesa


O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, criticou nesta terça-feira (2) a decisão dos Estados Unidos de classificar as facções Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho como “Terroristas Globais Especialmente Designados”.

A medida entra em vigor em 5 de junho.

A declaração foi dada durante cerimônia de entrega do caça Gripen F à Força Aérea Brasileira (FAB), realizada em Linköping, na Suécia. Ao comentar a decisão dos Estados Unidos, Múcio afirmou que o enfrentamento ao crime organizado deve ser conduzido pelo próprio Brasil.

“Estou falando como cidadão. Gostaria que, dos nossos bandidos, nós cuidássemos. Acho uma intromissão um vizinho se meter nos problemas da minha casa. Sabemos que são bandidos. Precisamos achar caminhos para resolver”, declarou.

O ministro defendeu que o combate ocorra dentro dos limites da soberania nacional.

“Tem que ser uma solução intramuros, fixar na nossa soberania”, afirmou.

Para o Planalto, medidas unilaterais adotadas sem coordenação com as autoridades podem representar interferência em assuntos internos do país. Durante a conversa com jornalistas, Múcio também comentou o atual cenário. Segundo ele, o ambiente global tem sido marcado por instabilidade e mudanças rápidas nas relações diplomáticas.

“Tem sido intermitente, tão instável. Há 15 dias, o meu presidente estava nos EUA. Voltou em um clima de muita amizade e hoje nos surpreendemos”, disse o ministro.


Lucas Soares - Diário  do Poder   

'Keynes, o Homem: O Teórico Político Burkeano e a Arrogância e a Pseudo-originalidade', por Murray N. Rothbard

 

Nota da edição:

O artigo a seguir é um trecho dos capítulos 6 e 7 do livro Keynes, The Man. Na obra, Murray Rothbard busca fazer uma análise crítica da biografia do economista John Maynard Keynes, traçando as origens da sua defesa de uma política econômica intervencionista e como ela obteve adesão de parte considerável da opinião pública dentro e fora do ambiente acadêmico.


O Teórico Político Burkeano

“Se Moore foi o herói ético de Keynes, Burke pode reivindicar fortemente o posto de seu herói político”, escreve Skidelsky (1983, p. 154). Edmund Burke? O que esse conservador admirador da tradição poderia ter em comum com Keynes, o estatista e planejador central racionalista? Mais uma vez, assim como ocorreu com Moore, Keynes venerava seu autor com uma adaptação keynesiana, selecionando os elementos que se ajustavam ao seu próprio caráter e temperamento.

O que Keynes extraiu de Burke é revelador. (Keynes apresentou suas opiniões em um longo ensaio premiado de graduação, em inglês, com o título “The Political Doctrines of Edmund Burke” [As doutrinas políticas de Edmund Burke, em tradução livre]). Há, em primeiro lugar, a oposição militante de Burke aos princípios gerais na política e, em particular, sua defesa da conveniência política contra direitos naturais abstratos. Em segundo lugar, Keynes concordava fortemente com a elevada preferência temporal de Burke, com sua desvalorização do futuro incerto em comparação com o presente existente. Keynes, portanto, concordava com o conservadorismo de Burke no sentido de que este era hostil a “introduzir males presentes em troca de benefícios futuros”.

Há também a versão de direita da depreciação geral que Keynes fazia do longo prazo, quando dizia “no longo prazo, estaremos todos mortos”. Como Keynes colocou: “É dever supremo dos governos e dos políticos assegurar o bem-estar da comunidade no presente e não assumir riscos excessivos em nome do futuro” (ibid., pp. 155–56).

Em terceiro lugar, Keynes admirava a valorização que Burke fazia da elite governante “orgânica” da Grã-Bretanha. Havia divergências quanto às políticas, naturalmente, mas Keynes juntou-se a Burke na exaltação do sistema de governo aristocrático como algo sólido, desde que o pessoal governante fosse escolhido a partir da elite orgânica já existente. Escrevendo sobre Burke, Keynes observou: “ele considerava a máquina em si [o estado britânico] suficientemente sólida, desde que a capacidade e a integridade daqueles encarregados dela pudessem ser asseguradas” (ibid., p. 156).

Além de seu desprezo neo-burkeano pelos princípios, sua falta de preocupação com o futuro e sua admiração pela classe governante britânica existente, Keynes também estava convencido de que a devoção à verdade era meramente uma questão de gosto, tendo pouco ou nenhum lugar na política. Ele escreveu: “Uma preferência pela verdade ou pela sinceridade como método pode ser um preconceito baseado em algum padrão estético ou pessoal, incompatível, na política, com o bem prático” (Johnson 1978, p. 24).

Na verdade, Keynes demonstrava um gosto explícito pela mentira na política. Ele habitualmente inventava estatísticas para adequá-las às suas propostas políticas e defendia a inflação monetária mundial com hipérboles exageradas, ao mesmo tempo em que sustentava que “as palavras deveriam ser um pouco selvagens — o ataque dos pensamentos contra os irrefletidos”. Contudo, de maneira bastante reveladora, uma vez alcançado o poder, Keynes admitiu que tal hipérbole teria de ser abandonada: “Quando os assentos do poder e da autoridade forem alcançados, não deverá mais haver licença poética” (Johnson and Johnson 1978, pp. 19–21).

O Economista: Arrogância e Pseudo-Originalidade

A abordagem de Maynard Keynes na economia não era muito diferente de sua atitude em relação à filosofia e à vida em geral. “Tenho medo de ‘princípios’”, disse ele a uma comissão parlamentar em 1930 (Moggridge 1969, p. 90). Os princípios apenas restringiriam sua capacidade de aproveitar as oportunidades do momento e atrapalhariam seu desejo de poder. Por isso, ele estava sempre disposto a abandonar suas crenças anteriores e mudar de opinião num instante, dependendo da situação.

Sua posição sobre o livre comércio serve como um exemplo evidente. Como um bom marshalliano, seu único princípio político-econômico aparentemente fixo ao longo da vida era uma adesão devota à liberdade comercial. Em Cambridge, escreveu a um bom amigo: “Senhor, odeio todos os sacerdotes e protecionistas. (…) Abaixo aos pontífices e as tarifas”. Durante as três décadas seguintes, suas intervenções políticas estiveram quase exclusivamente voltadas à defesa do livre comércio (Skidelsky 1983, pp. 122, 227–29).

Então, subitamente, na primavera de 1931, Keynes passou a defender ruidosamente o protecionismo e, durante os anos 1930, liderou a defesa do nacionalismo econômico e de políticas francamente concebidas para “empobrecer o vizinho”. Mas, durante a Segunda Guerra Mundial, Keynes voltou novamente ao livre comércio. Em nenhum momento qualquer exame de consciência ou mesmo hesitação pareceu dificultar suas mudanças extremamente rápidas.

Na verdade, no início da década de 1930, Keynes era amplamente ridicularizado pela imprensa britânica por suas posições camaleônicas. Como escreve Elizabeth Johnson, “ele era Keynes, o homem de borracha: o Daily News and Chronicle de 16 de março de 1931 publicou um artigo com o título ‘Economic Acrobatics of Mr. Keynes’ [As Acrobacias Econômicas do Sr. Keynes, em tradução livre]” — ilustrado por um desenho de “Uma Performance Extraordinária. O Sr. John Maynard Keynes, como o ‘homem sem ossos’, vira as costas para si mesmo e engole uma poção” (1978, p. 17).

Keynes, contudo, não se incomodava com as acusações de inconsistência, pois se considerava sempre certo. Era particularmente fácil para Keynes adotar essa convicção, já que ele não dava a mínima para princípios. Assim, estava sempre pronto para mudar de posição em busca de expandir seu ego por meio do poder político.

Com o passar do tempo, escreve Elizabeth Johnson, Keynes “tinha uma ideia clara de seu papel no mundo; ele era (…) o principal conselheiro econômico do mundo, do Chanceler do Tesouro do Reino Unido da época, do ministro das Finanças francês, (…) do presidente dos Estados Unidos”. A busca por poder para si mesmo e para uma classe governante significava, naturalmente, uma adesão cada vez maior às ideias e instituições de uma economia de planejamento central.

Entre os homens respeitáveis da elite orgânica que governava a nação, ele atribuía a si mesmo o papel crucial de acadêmico-técnico, a versão do século XX do “rei-filósofo” ou, ao menos, do filósofo que orienta o rei. Não é surpresa que Keynes “tenha saudado o presidente [Franklin D.] Roosevelt como o primeiro chefe de estado a procurar aconselhamento teórico como base para ações em larga escala” (Johnson and Johnson 1978, pp. 17–18).

Ação era o que Keynes buscava do governo, especialmente com o próprio Keynes elaborando os planos e dando as ordens. Como escreve Johnson,

“Seu oportunismo fazia com que reagisse aos acontecimentos de maneira imediata e direta. Ele produzia uma resposta, escrevia um memorando, publicava imediatamente, qualquer que fosse a questão. (…) No Tesouro Britânico durante a Segunda Guerra Mundial, ele quase enlouqueceu alguns de seus colegas com sua propensão a meter o dedo em tudo. ‘Não fique aí parado, faça alguma coisa’ teria sido seu lema nos dias de hoje” (ibid., p. 19).

Johnson observa que a

“atitude instintiva de Keynes diante de qualquer nova situação era assumir, primeiro, que ninguém estava fazendo nada a respeito e, segundo, que, se alguém estivesse fazendo alguma coisa, estava fazendo errado. Era um hábito mental cultivado ao longo da vida, baseado na convicção de que possuía uma inteligência superior (…) e, como bom Apóstolo de Cambridge, era dotado de sensibilidades superiores” (ibid., p. 33).

Uma ilustração marcante da arrogância injustificada e da irresponsabilidade intelectual de Maynard Keynes foi sua reação ao brilhante e pioneiro Treatise on Money and Credit [Teoria da Moeda e do Crédito], de Ludwig von Mises, publicado em alemão em 1912. Keynes havia sido recentemente nomeado editor do principal periódico acadêmico de economia da Grã-Bretanha, o Economic Journal [Jornal Econômico, em tradução livre], da Universidade de Cambridge. Ele resenhou o livro de Mises de maneira extremamente desdenhosa. O livro, escreveu ele de forma condescendente, tinha “mérito considerável” e era “esclarecedor”, e seu autor era certamente “um bom leitor”, mas Keynes expressou sua decepção com o fato de que a obra não era nem “construtiva” nem “original” (Keynes 1914). Essa reação brusca conseguiu destruir qualquer interesse pelo livro de Mises na Grã-Bretanha, e Money and Credit permaneceu sem tradução por duas fatídicas décadas.O aspecto peculiar da resenha de Keynes é que o livro de Mises era altamente construtivo e sistemático, além de extraordinariamente original. Como Keynes não percebeu isso? Esse mistério foi esclarecido uma década e meia depois, quando, em uma nota de rodapé de seu próprio Treatise on Money [Tratado sobre a Moeda, em tradução livre], Keynes admitiu de maneira travessa que “em alemão, só consigo compreender claramente aquilo que já sei — de modo que novas ideias tendem a me escapar por causa das dificuldades da língua” (Keynes 1930a: I, p. 199 n.2). Que descaramento absoluto. Isso era Keynes em sua forma mais pura: resenhar um livro em um idioma no qual era incapaz de compreender ideias novas e, em seguida, atacar esse livro por não conter nada de novo é o cúmulo da arrogância e da irresponsabilidade1.

Outro aspecto da arrogância espalhafatosa de Keynes era sua convicção de que grande parte do que fazia era original e revolucionário. Sua carta a G.B. Shaw, em 1935, é bem conhecida:

“Acredito estar escrevendo um livro sobre teoria econômica que revolucionará em grande medida (…) a maneira como o mundo pensa os problemas econômicos. (…) Quanto a mim, não apenas espero que aquilo que digo esteja correto; em minha própria mente, tenho absoluta certeza disso” (Hession 1984, p. 279).

Mas essa crença em sua própria fanfarronice não se limitava a Teoria Geral.

Bernard Corry aponta que “desde praticamente o início de seu trabalho em economia ele afirmava estar revolucionando a disciplina”. Keynes estava tão impregnado de fé em sua própria criatividade que chegou até mesmo a proclamar grande originalidade em um artigo sobre ciclos econômicos baseado no livro Study of Industrial Fluctuations [Estudo das Flutuações Industriais, em tradução livre], de D.H. Robertson, logo após a publicação dele em 1913. Corry relaciona essa atitude à ênfase insistente do clube social Bloomsbury Group na “originalidade” (pela qual, naturalmente, eles queriam dizer principalmente a própria originalidade). A originalidade, observa ele, era “uma das obsessões do Grupo de Bloomsbury” (Crabtree and Thirlwall 1980, pp. 96–97; Corry 1986, pp. 214–15, 1978, pp. 3–34).

Keynes foi enormemente auxiliado em suas alegações de originalidade pela tradição econômica que Alfred Marshall conseguira estabelecer em Cambridge. Como aluno de Marshall e jovem professor em Cambridge sob sua proteção, Keynes absorveu facilmente a tradição marshalliana.Não que o próprio Marshall reivindicasse uma originalidade extraordinária, embora de fato alegasse ter inventado independentemente a utilidade marginal e fosse reservado e ciumento em relação a estudantes que pudessem roubar suas ideias. Marshall desenvolveu a estratégia de manter um mundo marshalliano hermeticamente fechado em Cambridge (e, consequentemente, na economia britânica em geral). Ele criou o mito de que, em seu magnum opus de 1890, Principles of Economics [Princípios de Economia, em tradução livre], havia construído uma síntese superior, incorporando os aspectos válidos de todas as teorias anteriormente concorrentes e conflitantes (dedutivismo e indutivismo, teoria e história, utilidade marginal e custo real, curto prazo e longo prazo, Ricardo e Jevons)2.

Como conseguiu difundir esse mito com sucesso, acabou gerando a visão universal de que “tudo está em Marshall”, de que, afinal, não havia necessidade de ler mais ninguém. Pois, se Marshall havia harmonizado todas as visões econômicas unilaterais e limitadas, já não existia razão alguma, exceto antiquarismo, para se dar ao trabalho de lê-las. Como resultado, o economista típico de Cambridge lia apenas Marshall, desenvolvendo e elaborando frases ou passagens enigmáticas do Grande Livro. O próprio Marshall passou o resto da vida retrabalhando e expandindo O Texto, publicando nada menos que oito edições dos Principles até 1920.

Quanto ao restante, havia a lendária “tradição oral” de Cambridge, na qual os alunos e discípulos de Marshall tinham prazer em ouvir e transmitir as palavras do “Grande Homem”, bem como em ler seus escritos seminais menores em manuscritos ou em audiências de comissões, já que Marshall manteve a maior parte de seus textos mais curtos fora de publicação até perto do fim de sua vida. Assim, os marshallianos de Cambridge podiam atribuir a si mesmos a aura de uma casta sacerdotal, os únicos iniciados nos mistérios dos escritos sagrados negados aos homens comuns.

O mundo hermeticamente fechado da Cambridge marshalliana logo passou a dominar a Grã-Bretanha; havia poucos desafiantes naquele país. Essa dominância foi acelerada pelo papel singular de Cambridge e Oxford na vida social e intelectual britânica, especialmente nos anos anteriores à expansão educacional que se seguiu à Segunda Guerra Mundial. Desde os tempos de Adam Smith, David Ricardo e J.S. Mill, a Grã-Bretanha conseguira dominar a teoria econômica em todo o mundo, de modo que Marshall e sua seita conseguiram assumir a hegemonia não apenas da economia de Cambridge, mas da economia mundial (ver Crabtree 1980, pp. 101–05)3.



Mises Brasil

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Deputado Sanderson aciona TCU para investigar gastos de 'autoridades' no 'Gilmarpalooza'

Parlamentar pede levantamento de despesas com viagens, hospedagens e diárias custeadas pelo poder públicoo 


Reprodução

O deputado federal Ubiratan Sanderson (PL-RS) protocolou uma representação no Tribunal de Contas da União (TCU) para apurar os gastos públicos relacionados à participação de autoridades brasileiras no Fórum de Lisboa 2026, mais conhecido como “Gilmarpalooza”, realizado em Portugal. 

O evento, promovido pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, reúne integrantes dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além de empresários, advogados e representantes de diferentes segmentos econômicos. 

Na petição encaminhada ao TCU, Sanderson solicita a verificação da regularidade das despesas custeadas por órgãos públicos, incluindo passagens aéreas, hospedagens, diárias e outros gastos vinculados às viagens internacionais dos participantes.

De acordo com informações divulgadas pela imprensa, ao menos 135 autoridades e servidores públicos receberam autorização para comparecer ao encontro. Somente os custos autorizados por parte dos órgãos envolvidos já somariam centenas de milhares de reais, sem considerar passagens e demais despesas associadas.


Ofício 275/2026

Assunto: Representação por possível desvio de finalidade e violação dos princípios da Administração Pública no custeio de viagens internacionais de agentes públicos destinadas à participação no denominado Fórum de Lisboa 2026. Senhor Ministro, Cumprimentando-o cordialmente, sirvo-me do presente para encaminhar a Vossa Excelência representação sejam apurados fatos relacionados ao custeio de viagens internacionais de agentes públicos destinadas à participação no denominado Fórum de Lisboa 2026, bem como para que sejam avaliadas medidas normativas e de controle voltadas à ampliação da transparência, da moralidade administrativa e da prevenção de conflitos de interesses em eventos semelhantes realizados no exterior, pelos fatos e fundamentos a seguir expostos. 

A presente representação decorre de informações amplamente divulgadas pela imprensa nacional 1 indicando que ao menos 135 autoridades e servidores públicos vinculados aos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário receberam autorização para participar do Fórum de Lisboa, evento realizado em Portugal e tradicionalmente associado ao Ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Ferreira Mendes. As reportagens apontam que parcela significativa dos custos relacionados às viagens, hospedagens e diárias está sendo suportada por recursos 1 Acesso em 31 de maio de 2026. Acesso em 31 de maio de 2026. Brasília – DF | Câmara dos Deputados, Anexo I

Segundo os dados divulgados, apenas o Tribunal de Justiça do Estado do Piauí e o Tribunal de Contas da União teriam autorizado despesas que, somadas, alcançariam aproximadamente R$ 692.000,00 em diárias, sem considerar passagens aéreas e demais custos correlatos. 

Há ainda registros de autorizações concedidas por diversos outros órgãos públicos, sem que exista, até o momento, divulgação consolidada dos gastos totais, dos critérios utilizados para seleção dos participantes, dos objetivos institucionais específicos de cada deslocamento ou dos resultados concretos obtidos em favor da administração pública. 

Embora não se questione, em tese, a legitimidade da participação de agentes públicos em congressos, seminários e fóruns acadêmicos nacionais ou internacionais, é indispensável observar que toda despesa pública deve atender aos princípios constitucionais da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência, previstos no artigo 37 da Constituição Federal. 

O dispêndio de recursos públicos para custear deslocamentos internacionais somente se justifica quando demonstrada, de forma objetiva e documental, a existência de interesse público direto, específico e mensurável, capaz de justificar a utilização de verbas oriundas dos contribuintes. 

No caso em análise, chama atenção a expressiva quantidade de autoridades públicas participantes, oriundas de instituições que exercem funções de julgamento, fiscalização, regulação, controle, persecução, advocacia pública e elaboração legislativa. 

A reunião simultânea de membros dos três Poderes da República em ambiente que também congrega empresários, advogados, representantes de setores regulados e agentes econômicos com interesses submetidos à atuação estatal exige especial atenção dos órgãos de controle, não necessariamente em razão da ocorrência de irregularidades concretas já comprovadas, mas em razão da necessidade de preservação da confiança pública, da imparcialidade institucional e da integridade das funções exercidas pelos participantes.

A Constituição Federal impõe à Administração Pública não apenas o dever de agir dentro dos limites formais da legalidade, mas também a obrigação de observar padrões elevados de moralidade administrativa. A jurisprudência consolidada dos tribunais superiores reconhece que o princípio da moralidade possui conteúdo jurídico próprio e exige comportamento compatível com os valores éticos que devem nortear o exercício da função pública. 

Nesse contexto, a utilização de recursos públicos para participação em eventos cuja programação combine atividades acadêmicas, institucionais, sociais e de relacionamento demanda mecanismos rigorosos de controle e transparência. A ausência de divulgação prévia e padronizada dos custos totais envolvidos, dos critérios de escolha dos participantes, das agendas oficiais cumpridas, dos encontros institucionais realizados e dos resultados efetivamente alcançados dificulta o controle social e compromete a plena observância do princípio da publicidade. 

Em uma República fundada na prestação de contas e na transparência administrativa, não basta que a despesa seja formalmente autorizada; é necessário que a sociedade possa compreender, fiscalizar e avaliar sua efetiva utilidade pública. 

Também merece especial atenção a circunstância de que eventos dessa natureza frequentemente reúnem autoridades responsáveis pela tomada de decisões relevantes para setores econômicos específicos, incluindo instituições financeiras, empresas reguladas, grupos empresariais e organizações com interesses perante o Poder Público. 

Ainda que não exista qualquer prova de conduta ilícita, o simples risco de surgimento de situações potencialmente caracterizadoras de conflito de interesses, influência indevida, captação de prestígio institucional ou comprometimento da aparência de imparcialidade recomenda atuação preventiva dos órgãos de controle. 

Nesse sentido, ganham relevância informações públicas que associam edições anteriores do evento à presença de representantes do Banco Master e de seu controlador, o empresário Daniel Vorcaro. É de conhecimento público que a referida instituição financeira tem figurado em debates relevantes envolvendo o sistema financeiro nacional, operações empresariais e temas sujeitos à atuação de órgãos reguladores, fiscalizadores e jurisdicionais. 

Embora a mera participação de empresários em eventos acadêmicos não configure qualquer irregularidade, a coexistência de agentes privados com interesses potencialmente submetidos à apreciação estatal e de autoridades públicas investidas de funções decisórias exige elevados padrões de transparência, governança e prestação de contas. 

Por essa razão, mostra-se legítimo e necessário que o Tribunal de Contas da União avalie se os órgãos participantes adotaram mecanismos adequados para prevenção de conflitos de interesses, controle de agendas institucionais, registro de reuniões, prestação de contas das atividades realizadas e demonstração dos benefícios concretos decorrentes da participação de seus agentes no evento. 

Mais do que a apuração dos fatos específicos relacionados ao Fórum de Lisboa 2026, a presente representação busca provocar reflexão institucional acerca da necessidade de aperfeiçoamento dos mecanismos de governança aplicáveis à participação de agentes públicos em eventos realizados no exterior. 

Atualmente, observa-se significativa heterogeneidade nos critérios adotados pelos diversos órgãos da Administração Pública para autorizar viagens internacionais, custear despesas e divulgar informações relacionadas às missões oficiais. Tal cenário recomenda a atuação do Tribunal de Contas da União, no âmbito de suas competências constitucionais, para avaliar a conveniência de expedir orientações, recomendações ou determinações voltadas à uniformização de procedimentos mínimos de transparência e controle. 

Entre tais medidas, poderiam ser consideradas a obrigatoriedade de divulgação prévia dos participantes e dos custos estimados; a publicação integral das agendas institucionais; a identificação das fontes de financiamento; a apresentação obrigatória de relatórios circunstanciados de resultados; a divulgação de reuniões realizadas com agentes privados; e a demonstração objetiva dos benefícios institucionais obtidos com cada participação.

A adoção dessas medidas não possui caráter restritivo nem busca impedir a participação de agentes públicos em eventos acadêmicos ou institucionais relevantes. Ao contrário, objetiva fortalecer a legitimidade dessas participações, assegurar a correta aplicação dos recursos públicos e preservar a credibilidade das instituições perante a sociedade. A crescente preocupação social com os gastos públicos, especialmente em deslocamentos internacionais de autoridades, torna imprescindível que os órgãos de controle promovam mecanismos que ampliem a transparência e permitam avaliação objetiva da relação custo-benefício dessas atividades. A transparência não deve ser vista como obstáculo à atuação institucional, mas como instrumento de fortalecimento da confiança pública e de proteção dos próprios agentes públicos contra questionamentos futuros. 

Diante do exposto, requer-se o recebimento da presente representação para que o Tribunal de Contas da União promova fiscalização, em virtude de possível desvio de finalidade, bem como de possíveis violações aos princípios da legalidade, legitimidade, economicidade, eficiência e finalidade das despesas públicas relacionadas à participação de agentes públicos brasileiros no Fórum de Lisboa 2026. 

Sendo recebida, requer-se, também, que esta Corte identifique os órgãos que custearam passagens, hospedagens, diárias e demais despesas; verifique a existência de justificativas formais, relatórios de missão e resultados institucionais; avalie eventuais riscos relacionados a conflitos de interesses e à observância dos princípios da moralidade e da impessoalidade administrativa; e examine a conveniência de estabelecer diretrizes gerais de transparência, governança e prestação de contas aplicáveis à participação de membros e servidores da Administração Pública em eventos realizados no exterior, especialmente aqueles que reúnam simultaneamente autoridades públicas, agentes políticos, representantes de órgãos de controle, empresários e demais particulares com interesses potencialmente submetidos à atuação estatal. 

Por fim, requer-se que, constatadas falhas, lacunas normativas ou insuficiência dos mecanismos atualmente existentes, sejam adotadas as providências cabíveis para aprimorar o controle e a transparência dessas despesas, em prestígio aos princípios republicanos, à moralidade administrativa, à publicidade dos atos estatais e ao dever constitucional de proteção do patrimônio público. 

Deputado Ubiratan Sanderson


No documento, o deputado argumenta que a aplicação de recursos públicos deve observar os princípios constitucionais da legalidade, moralidade, publicidade, impessoalidade e eficiência. Segundo ele, deslocamentos internacionais financiados pelo Estado exigem comprovação objetiva de interesse público, transparência na divulgação dos custos e prestação de contas sobre os resultados alcançados. 


Deputado Sanderson - Reprodução



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Isabela Jordão - Revista Oeste