sexta-feira, 6 de novembro de 2026

'Cabeças baldias', por Augusto Nunes

Tomografia do que há sobre o pescoço de um devoto de Lula (Parte 1)

 

Montagem: Revista Oeste/IA


S obre o pescoço de todo devoto da seita Adoradores de Lula, codinome Lulopetismo, o que há se assemelha ao que se vê em qualquer terreno abandonado: uma cabeça baldia. Nada existe de aproveitável. Entre um neurônio e outro — nunca passam de 20 — acumulam-se certezas bizarras, crendices grisalhas, ideias amalucadas, bandeiras em farrapos, vigarices eleitoreiras e outras formas de lixo ideológico. Único analfabeto a eleger-se presidente da República, Lula também se tornou o primeiro a exercer o cargo com mais de 80 anos. Para um devoto, é esse o Guia Genial do Povo Brasileiro. 

Para quem vê as coisas como as coisas são, a Era Lula será lembrada como um aleijão da história da República. Para quem venera um governante que não leu um só livro nem sabe escrever, Lula é o maior dos estadistas. O sinuelo dá ordens, o rebanho obedece sem qualquer balido dissonante. Lula traça trilhas que os devotos percorrem sem perguntas. Ele sabe o que faz. E está sempre certo o que diz.


Imediatamente, o Todo-Poderoso decidiu repassar à sumidade fardada a trabalheira que lhe dava aquela usina de crises políticas. Dispensado da tarefa, Deus foi socorrer paragens atormentadas por urgências urgentíssimas.

Assim agia a imensidão de seres domados pelo ditador Rafael Trujillo, chefe supremo da República Dominicana entre o golpe militar que liderou em 1940 e o atentado que lhe encurtou a vida em 1961. Estava no poder havia dez anos quando soube da teoria que um professor universitário chamado Joaquim Balaguer andava expondo em aulas e palestras. Deus cuidara do turbulento pedaço da América Central até lembrar que lá existia um Rafael Trujillo, ensinava o mestre.



Posse de Rafael Leónidas Trujillo Molina como presidente da República Dominicana e de Rafael Estrella Ureña como seu vice-presidente - Foto: Wikimedia Commons


Encantado com a tese, Trujillo presenteou seu autor com a Presidência da República. Com Balaguer administrando miudezas, sobraram ao ditador tempo e disposição para cuidar de questões bem mais relevantes. Saquear sem camuflagens os cofres do governo, por exemplo. Ou extorquir aliados, enquadrar descontentes, prender adversários e matar inimigos teimosos. Liberado pelo chumbo grosso que eliminou Trujillo, Balaguer transformou um cargo até então honorífico na ferramenta que lhe garantiria seis mandatos presidenciais numa República Dominicana enfim democratizada. Somados, foram 24 anos no poder. 

Lula nem precisou de intermediários. Entendeu-se diretamente com o Criador. Como revelou em 25 de maio de 2025, no meio de outro palavrório, na Paraíba. “Deus deixou o sertão sem água porque sabia que eu seria presidente”, disse o palanque ambulante no comício que festejou mais uma vez a transposição do Rio São Francisco, iniciada na primeira década deste século e ainda em andamento. Não foi concluída, convém ressalvar, por causa dos outros, sobretudo de quem não para de perturbar com heranças malditas o sossego do tetrapresidente.

Em janeiro, por sinal, Lula começará a desentender-se com o próprio legado. Não vai assumir culpa alguma. Talvez tente transferi-la para Fernando Henrique Cardoso, Jair Bolsonaro ou Flávio Bolsonaro. Talvez culpe Fernando Haddad — pelo que fez ou deixou de fazer no Ministério da Fazenda. Faça Lula o que fizer, os devotos dirão amém. Diga o que disser, terá o apoio da imensidão de cabeças baldias. Ele já explicou que jamais escorregou em falsidades. Não por temer o Juízo Final, mas porque dá muito trabalho. É preciso inventar outra mentira para se livrar da primeira, queixou-se numa entrevista, depois de contar uma terceira para escapar da segunda e assim por diante. Os devotos concordam.


O presidente Lula e o ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Todos juram que Lula nada teve a ver com o Mensalão, o Petrolão, a roubalheira no INSS ou o caso Master. Muito menos com as patifarias protagonizadas por amigos e aliados travestidos de ministros do Supremo Tribunal Federal. Na cabeça baldia de um devoto, a divindade de botequim não lucrou um só real desde que trocou a dura rotina de torneiro mecânico pelo doce cotidiano de dirigente sindical. Até ficou mais pobre ao virar político, reitera o patrimônio declarado neste ano pelo candidato à reeleição: apenas R$ 4,5 milhões.

Na cabeça baldia de um lulopetista, o único problema de Lula é a multidão de amigos extraordinariamente perdulários. Meio mundo faz questão de alegrá-lo com mimos que deixariam impressionado um Daniel Vorcaro e gentilezas de derreter o mais durãdos banqueiros. O sítio em Atibaia, por exemplo, foi-lhe emprestado por um amigo tão amigo que lhe permitiu desfrutar do vidaço de latifundiário por 111 fins de semana, enfeitar as paredes da casa no campo com retratos da família e abarrotar todas as gavetas do banheiro com remédios receitados pelos médicos que protegem a saúde de presidentes e primeiras-damas. 

Pouco importa que Lula tenha sido julgado e condenado a 12 anos de cadeia pela prática de dois crimes — corrupção passiva e lavagem de dinheiro — por nove juízes de três distintas instâncias. Aos olhos de um devoto, tampouco tem serventia o mundaréu de provas e evidências reunidas pela Operação Lava Jato. Cabeças baldias sofrem de estranhas disfunções, uma das quais é o estrabismo deliberado.

No momento, por exemplo, a seita enxerga no deputado mineiro André Janones uma versão brasileira de Napoleão Bonaparte. Isso é perigoso. Entre outras sandices, o general do exército do Lula acha que o presidente da Argentina é Emmanuel Macron. Se Lula perder a paciência com Javier Milei, pode ordenar a essa perfeita besta quadrada que prenda o governante inimigo. A tropa pode acabar em Paris, acampando no Arco do Triunfo. 


(Não perca na próxima edição a segunda e última parte.


Augusto Nunes - Revista Oeste