sexta-feira, 29 de maio de 2026

'O duro recado de Washington ao Brasil', por Ana Paula Henkel

Para o governo de Donald Trump, a cooperação no combate às facções criminosas continua sendo desejável, mas deixou de ser condição para a ação


O secretário de Estado, Marco Rubio, e o presidente dos EUA, Donald Trump, participam de uma reunião de gabinete na Sala do Gabinete da Casa Branca, em Washington, D.C., EUA (27/5/2026) - Foto: Reuters/Evan Vucci 

N ão foi por falta de aviso. Desde a sua volta à Casa Branca, Donald Trump deixou claro que o combate ao narcoterrorismo seria uma das prioridades centrais de sua política para as Américas. Washington sinalizou repetidamente que organizações criminosas transnacionais deixariam de ser tratadas apenas como um problema policial e passariam a ser encaradas como ameaças à segurança nacional dos Estados Unidos. 

Lula foi alertado. Participou de negociações, ouviu os sinais emitidos por Washington e conhecia perfeitamente a direção que a política americana estava tomando. O governo brasileiro teve inúmeras oportunidades para compreender essa mudança, cooperar de forma mais ampla e assumir um papel de protagonismo em uma agenda que afeta diretamente a segurança dos brasileiros e dos americanos. Preferiu outro caminho e apostou que teria tempo, margem de negociação e espaço para administrar o tema segundo suas próprias prioridades. 


Nesta semana, a conta chegou. 

Ao classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, os Estados Unidos não apenas elevaram a pressão sobre as duas maiores facções criminosas do Brasil. Também enviaram um recado inequívoco a Brasília: quando Washington considera determinado tema uma questão de segurança nacional, a disposição para esperar indefinidamente por consensos diplomáticos tem limites. 

A decisão do Departamento de Estado americano provocou reações imediatas em Brasília. Juristas passaram a discutir as implicações legais da medida. Diplomatas analisaram seus efeitos sobre a relação bilateral. Especialistas em segurança pública tentaram avaliar o impacto prático sobre o combate às facções criminosas.

Mas a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas levanta uma questão mais relevante do que as discussões jurídicas que inevitavelmente virão. 

Por que Washington decidiu dar esse passo agora? Há o contexto político do timing. A designação, logo após a visita do pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro à Casa Branca, pode ser lida como um claro recado a Lula no melhor estilo “trumpiniano”: cansei de encontros vazios e apertos de mão inúteis. 

O anúncio de Marco Rubio, o cão de guarda de Donald Trump quando o assunto é América Latina, não diz respeito apenas ao PCC e ao Comando Vermelho. Ele revela como Washington passou a enxergar o crime organizado nas Américas e, sobretudo, quais são as prioridades que a Casa Branca está disposta a impor quando considera que seus interesses de segurança nacional estão em jogo.


Secretary Marco Rubio - Primeiro Comando da Capital and Comando Vermelho are two of the most violent criminal organizations in Brazil. Their reach extends throughout our region and into our country.  Today, I designated these organizations as Foreign Terrorist Organizations and Specially Designated Mostrar mais 

state.gov Terrorist Designation of Comando Vermelho and Primeiro Comando da … Today, the U.S. Department of State is designating Comando Vermelho (CV) and Primeiro Comando da Capital (PCC) as Specially Designated … 7:01 PM · 28 de mai de 2026 80,6 mil Responder Copiar link Ler 14,4 mil respostas Durante décadas, organizações criminosas la


Durante décadas, organizações criminosas latino-americanas foram tratadas como um problema de segurança pública. Eram combatidas por forças policiais, agências de inteligência e mecanismos de cooperação internacional voltados ao narcotráfico. O desafio era grave, mas permanecia dentro de uma categoria relativamente bem definida. 

Essa lógica está mudando. Sob Donald Trump, o narcotráfico deixou de ser visto apenas como uma atividade criminosa lucrativa. Passou a ser tratado como uma ameaça estratégica à segurança nacional americana. 


A diferença é enorme. 

Quando um tema passa a ser enquadrado como questão de segurança nacional, mudam as prioridades, mudam os recursos disponíveis e mudam as ferramentas que o governo está disposto a utilizar. É exatamente isso que está acontecendo. 

A designação do PCC e do Comando Vermelho como grupos terroristas não é apenas uma mudança de classificação. É a formalização de uma nova forma de enxergar o problema. E essa nova forma de enxergar o problema tem consequências diretas para o Brasil. 


O recado de Washington 

A leitura mais superficial da decisão americana sugere apenas uma ação voltada ao combate ao crime organizado ou apoio a um candidato para a eleição presidencial de outubro do Brasil. A realidade parece mais complexa. 

O governo Lula tentou evitar a classificação das duas facções como organizações terroristas a todo custo. Brasília buscava negociar um pacote mais amplo de cooperação com Washington para o enfrentamento do crime organizado e esperava encontrar uma alternativa que impedisse a adoção da medida. Os americanos, depois da inércia brasileira, seguiram adiante. O gesto é significativo porque demonstra que a administração Trump concluiu que o tempo das negociações já havia se esgotado.
























A história recente da política externa americana demonstra que os Estados Unidos raramente permanecem paralisados quando consideram determinado tema essencial para sua segurança. Quando governos nacionais não oferecem o nível de cooperação desejado, Washington frequentemente procura outros parceiros. 

Governadores, forças policiais estaduais, autoridades locais e agências especializadas podem passar a desempenhar papel crescente nesse processo. A própria designação do PCC e do Comando Vermelho como grupos terroristas amplia as possibilidades de cooperação direta em diferentes níveis. 

Mais uma vez, a mensagem parece clara: os Estados Unidos não pretendem abandonar a cooperação com o Brasil, mas também não pretendem depender exclusivamente dela. Essa talvez seja a mudança mais significativa produzida pelos acontecimentos das últimas semanas. Uma nova fase A discussão sobre a nova classificação do PCC e do Comando Vermelho inevitavelmente produzirá debates jurídicos, diplomáticos e políticos. 


Alguns defenderão a medida

Outros a considerarão excessiva. Haverá controvérsias legítimas sobre conceitos, definições e limites de atuação. Mas existe uma realidade mais difícil de ignorar. Washington acaba de formalizar uma mudança de percepção. O narcotráfico, a lavagem de dinheiro, o tráfico de armas, o tráfico de pessoas e as organizações criminosas transnacionais deixaram de ocupar uma posição secundária na estratégia americana para o continente e passaram a integrar o núcleo das preocupações de segurança nacional dos Estados Unidos. 

Essa mudança não aconteceu da noite para o dia. Ela vem sendo construída há anos, acompanhando a ascensão dos cartéis mexicanos, a expansão de organizações criminosas latino-americanas, a crise migratóriana fronteira sul e o crescimento de redes internacionais de tráfico que já não respeitam fronteiras nacionais. 

A decisão envolvendo o PCC e Comando Vermelho é consequência desse processo e também representa algo maior. Representa a entrada do Brasil em uma nova fase de sua relação com Washington — queiram governos ou não. Durante muito tempo, temas como comércio, diplomacia, meio ambiente e cooperação econômica dominaram a agenda bilateral. 

E eles continuarão importantes. A diferença é que agora existe um novo elemento na equação. A segurança. E quando a maior potência do planeta passa a enxergar determinado tema como questão de segurança nacional, as regras do jogo mudam. A notícia da semana não é que os Estados Unidos classificaram o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. A verdadeira notícia é que Washington perdeu a paciência com a bandidagem. 

Quando o assunto é segurança nacional americana, o relógio de Washington não segue necessariamente o calendário de Brasília.


Ana Paula Henkel - Revista Oeste