
“O tempo não é um rio que corre fora de nós, mas o espelho em que a alma contempla o seu próprio movimento.” Santo Agostinho, Confissões, LivroXI (paráfrase)
Santo Agostinho nasceu em 354 d.C., em Tagaste, na Numídia romana, atual Argélia. Mais tarde tornar-se-ia bispo de Hipona Regius, cidade que lhe daria o nome pelo qual atravessaria os séculos. Durante o período romano, Hipona era uma importante colônia e porto comercial, conhecida pela exportação de azeite, cereais e mármore. Tornou-se sede episcopal no século IV, e foi ali que Agostinho exerceu seu episcopado por mais de trinta anos, até morrer durante o cerco dos vândalos.
Quando Agostinho nasceu, o Império Romano declinava e o cristianismo se afirmava. O mundo antigo começava a despedir-se de si mesmo. O espírito grego, orientado pela ordem e pela razão, encontrava-se com o espírito cristão, voltado para a interioridade e para a graça. É nessa encruzilhada que o tempo muda de morada. Em Agostinho, o tempo grego encontra a eternidade divina, e Aurelius Augustinus Hipponensis torna-se a ponte viva entre o pensamento clássico e a nova visão cristã do mundo.
Aristóteles observava o tempo de fora, como quem contempla o fluxo das coisas e mede o ritmo dos astros. Em Agostinho, o tempo desce do céu ao coração. Deixa de ser apenas a medida do movimento e passa a ser o movimento da alma. O homem já não contempla o tempo como objeto, ele o experimenta como condição. O instante, que em Aristóteles era o limite entre o antes e o depois, torna-se agora o ponto onde a eternidade toca a consciência.
O olhar filosófico desloca-se do cosmos para o interior do homem, do universo ordenado ao mistério da memória, da razão à fé. O tempo deixa de medir o mundo e passa a medir o próprio homem. Em Agostinho, o tempo já não é algo que o homem observa. É algo que o homem é.
Nas Confissões, Agostinho interroga o próprio ser do tempo. “Se ninguém me pergunta, eu sei; se quero explicá-lo, já não sei.” A frase, que parece hesitação, revela uma descoberta decisiva. O tempo não se explica porque não está fora de nós. Ele é vivido antes de ser compreendido.
Essa interiorização do tempo constitui a grande revolução agostiniana. Aquilo que para os antigos era ordem cósmica torna-se experiência da consciência. O tempo não é mais o ritmo dos astros, mas a distensão da alma.
Por isso Agostinho pode afirmar: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.” Aqui o tempo não aparece como cronologia, mas como ferida. Ao tomar consciência do tempo, a alma reconhece a própria incompletude. Essa falta não é defeito, é sinal de origem. O tempo é o eco da eternidade ausente.
Em Aristóteles, o tempo aponta para a perfeição do ato. Em Agostinho, aponta para a perfeição perdida. Um vê no movimento a realização da forma; o outro, a lembrança da forma que já não possuímos. O tempo torna-se, assim, espelho da queda e instrumento da redenção. Ele é o intervalo entre a ausência e o reencontro.
Agostinho compreende o tempo como a tensão entre duas nostalgias, a do passado, que dói, e a do futuro, que chama. O homem, suspenso entre ambas, só existe plenamente quando reconhece sua condição de peregrino. O tempo é o caminho desse retorno, a travessia que conduz da dispersão à unidade. O instante presente, pequeno e fugaz, é o ponto onde o finito toca o infinito, onde a criatura fala com o Criador.
Essa é a verdadeira dimensão espiritual do tempo, não aquela que se mede, mas a que se vive. O tempo é o espaço da conversão, o lugar onde o homem reencontra a eternidade que perdeu. A eternidade, por sua vez, não é o prolongamento indefinido do tempo, mas o seu cumprimento. O tempo é a forma que a eternidade assume para tornar-se habitável ao amor humano.
Assim, Aristóteles e Agostinho se encontram no mesmo mistério, ainda que por vias distintas. O primeiro contempla a ordem do cosmos; o segundo, a inquietude da alma. Um vê o tempo como necessidade inscrita na natureza; o outro, como liberdade inscrita na consciência. Um o mede; o outro o sente. Ambos reconhecem que o tempo é o modo pelo qual o ser se manifesta, seja na harmonia dos astros, seja no silêncio interior.
Entre o cosmos e a alma, o tempo é ponte e travessia. É o campo onde a razão busca compreender e onde o amor busca permanecer. Quando o homem, após medir o movimento das coisas e sondar o movimento do próprio espírito, reconhece o tempo como dom, começa a emergir a síntese que Tomás de Aquino levará à maturidade, o tempo criado pela razão divina e vivido pela liberdade humana.
O tempo não é inimigo do eterno. É o seu reflexo em movimento. Compreender o tempo talvez seja compreender o próprio homem, essa criatura que vive entre o que passa e o que permanece, entre a memória e a esperança, entre o cosmos que o envolve e a alma que o sustenta.
Marcos H. Giansante - Mises Brasil