domingo, 19 de abril de 2026

'Lula, Cuba e a irremovível lepra moral', por Flávio Gordon

 


O ditador de Cuba, Miguel Díaz-Canel, ao lado do presidente Lula | Foto: Ricardo Stuckert/PR 

No verão de 1965, depois de três anos exercendo a função de adido cultural na Bélgica, o escritor Guillermo Cabrera Infante retornou a Cuba para o funeral de sua mãe. Mas ele não ficaria muito tempo na terra natal. Alguns meses depois, decidiu retornar para Bruxelas (a qual costumava descrever como sua Sibéria particular). 

Não suportou viver na Cuba de Fidel Castro — para a qual jamais voltaria, tendo morrido no exílio belga em 21 de fevereiro de 2005, aos 76 anos. Em seu livro Mea Cuba — um dos mais comoventes relatos de exílio já escritos na América Latina contemporânea —, Cabrera Infante registrou o momento da vital decisão:


“Havana era uma cidade que eu não reconhecia, e eu não regressava propriamente de Paris, mas de uma Bruxelas provinciana e triste, feia. Em Cuba, a lua brilhava como antes da revolução, o sol era o mesmo, a natureza emprestava a tudo a sua beleza vertiginosa. A geografia era a mesma, estava viva, mas a história havia morrido. Cuba já não era Cuba. Era outra coisa — o duplo no espelho, seu doppelgänger, um robô ao qual um acidente no processo havia provocado uma mutação, uma alteração genética, uma troca de cromossomos. Nada estava em seu lugar. As feições eram reconhecíveis, mas até a própria cidade, os edifícios, exibiam uma nova lepra. As ruas estavam cobertas por uma viscosidade física, escorrida dos motores dos poucos veículos, em razão de um defeito insanável no refino do petróleo russo, mas pareciam, com sua pastosidade enegrecida na qual as mulheres deixavam seus sapatos (artefatos pré-históricos que alguns empreendedores alugavam por cinquenta centavos a hora!) e todas as marcas, como a metáfora de uma viscosidade moral”


A viscosidade moral a que se refere o escritor ainda impregna a cidade caribenha, bem como a alma de todos os apoiadores do regime castrista no continente e alhures. É essa viscosidade que escorre pela barba de Lula quando ele se presta ao papel de último defensor internacional da ditadura cubana. Não se trata de um lapso, de uma frase mal colocada ou de um excesso retórico: trata-se de uma posição deliberada, reiterada ao longo dos anos, sustentada com a tranquilidade de quem já não se preocupa sequer em disfarçar o que pensa. 

O que o Descondenado-em-chefe pensa e sempre pensou de Cuba ficou muito evidente numa célebre declaração, proferida no ano de 2010. Ao equiparar dissidentes cubanos em greve de fome a criminosos comuns, o papa-paca não apenas insultou vítimas de um regime brutal, mas expôs o núcleo moral de sua visão política: para ele, opositores de ditaduras amigas são “bandidos”, e a repressão estatal, quando exercida pelos aliados ideológicos corretos, é não apenas aceitável como respeitável. “Temos de respeitar a Justiça cubana”, disse ele. E a “justiça” cubana — assim como hoje se tornou a brasileira — não passa de um aparato de coerção destinado a esmagar qualquer vestígio de dissenso. 


Bandeira de Cuba: sob ditadura comunista, país caribenho tem apoio de Lula - Foto: Humam Musawwir/Pexels 


Lula, Cuba e cosmovisão da esquerda latino-americana 

Lula representa a cosmovisão clássica da esquerda latino-americana. Ainda que a palavra não saia da boca de seus embolorados militantes, para essa esquerda a opressão nunca foi um problema. Importa saber quem a exerce. Quando o carrasco veste o uniforme ideológico correto, a violência vira “soberania”, a prisão vira “aplicação da lei” e o assassinato vira silêncio diplomático. A renitente defesa de Cuba, portanto, não é um “erro” de Lula. É a manifestação avançada, purulenta e nauseabunda de uma lepra moral incurável. 

Flávio Gordon - Revista Oeste