O crime organizado latino-americano já deixou de ser um problema doméstico
E m diferentes momentos da história, ameaças que pareciam locais acabam revelando algo maior: sintomas de um desarranjo regional. O que começa como violência doméstica, tráfico ou corrupção passa, pouco a pouco, a assumir dimensões geopolíticas.
Sob a administração de Donald Trump na Casa Branca, esse diagnóstico começou a ganhar forma mais clara nos últimos meses nas discussões de segurança no continente. Para o presidente americano, o crime organizado latino-americano já deixou de ser um problema doméstico e se tornou uma ameaça regional.
Foi nesse contexto que surgiu a iniciativa do Escudo das Américas (Shield of the Americas), uma reunião voltada à cooperação hemisférica para enfrentar o crime organizado transnacional. O encontro reuniu autoridades de segurança, ministros, chefes de inteligência e representantes de diversos países do continente para discutir um problema que deixou de ser tratado como questão doméstica e passou a ser encarado como um desafio estratégico regional.
A proposta do Escudo das Américas é criar um mecanismo de coordenação entre governos para enfrentar ameaças que operam em múltiplos territórios ao mesmo tempo — narcotráfico, cartéis, redes de lavagem de dinheiro e organizações criminosas transnacionais.
A iniciativa ganhou impulso dentro da estratégia de segurança hemisférica defendida por Trump, que insiste na necessidade de tratar o narcotráfico e as grandes organizações criminosas como ameaças diretas à estabilidade do continente. A lógica por trás da reunião é simples: nenhum país consegue enfrentar sozinho estruturas que movimentam bilhões de dólares, controlam rotas internacionais e operam simultaneamente em diversas jurisdições.
Por isso, o encontro reuniu autoridades de diferentes governos das Américas, responsáveis pelas áreas de segurança, defesa e inteligência, para discutir mecanismos de cooperação mais robustos, como compartilhamento de informações, coordenação policial internacional e estratégias conjuntas para interromper cadeias logísticas do narcotráfico que atravessam o continente. Lula não apareceu e não enviou nenhum representante do Brasil para o importante evento.
O objetivo do Escudo das Américas é construir uma espécie de rede de proteção regional diante de ameaças que já não respeitam fronteiras. No diagnóstico apresentado durante o encontro, o narcotráfico e o crime organizado deixaram de ser apenas um problema policial.
Tornaram-se um fator de instabilidade capaz de pressionar instituições, financiar violência em larga escala e comprometer a soberania dos Estados.
Nesse contexto, duas siglas brasileiras passaram a aparecer com frequência crescente nos relatórios de inteligência e nas análises estratégicas: Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV).
Por décadas, esses grupos foram vistos essencialmente como facções criminosas domésticas, ligadas ao tráfico de drogas dentro do Brasil. Essa percepção, no entanto, tornou-se rapidamente obsoleta. Hoje, tanto o PCC quanto o CV operam redes logísticas que atravessam fronteiras, controlam rotas internacionais de narcotráfico, mantêm conexões com organizações estrangeiras e exercem influência em diversos países da América do Sul.
O que antes era tratado como crime organizado local começa a ser discutido, cada vez mais, como uma ameaça à segurança hemisférica. A mudança de linguagem não é apenas retórica política. Ela revela uma mudança de diagnóstico.
Quando o crime se torna poder O crime organizado moderno raramente se limita à criminalidade tradicional. Em muitos casos, evolui para algo mais complexo: estruturas paralelas de poder. Essas organizações controlam territórios, impõem regras próprias, corrompem instituições, movimentam bilhões de dólares e mantêm cadeias logísticas que lembram as de empresas multinacionais.
No caso latino-americano, esse fenômeno assume uma característica adicional: a convergência entre crime organizado, narcotráfico e estruturas paramilitares.
É por isso que, em círculos estratégicos, o termo narcoterrorismo voltou a aparecer com frequência. A expressão surgiu nos anos 1980 para descrever a atuação dos cartéis colombianos e suas relações com grupos insurgentes. Hoje reaparece para descrever uma realidade semelhante: organizações que utilizam o narcotráfico não apenas para lucro, mas também para ampliar influência territorial e institucional.
Esse é o ponto que tem despertado crescente preocupação sob a ótica do governo Trump. Quando redes criminosas passam a controlar corredores logísticos internacionais — portos, rotas marítimas e fronteiras terrestres — a questão deixa de ser apenas policial e passa a ser estratégica. E a América Latina vive hoje um momento delicado nesse campo.
Diversos países enfrentam a expansão acelerada do crime organizado. O Equador viu cidades inteiras mergulharem em crises de segurança. O Chile registrou um aumento abrupto de organizações transnacionais. O Peru enfrenta pressões nas rotas amazônicas. Na Colômbia, grupos armados continuam disputando territórios ligados ao narcotráfico.
Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição central. Não apenas pelo tamanho de sua economia ou de seu território, mas porque boa parte das rotas que ligam a produção de cocaína andina aos mercados globais passa pelo país. Portos brasileiros tornaram-se pontos estratégicos para exportação da droga rumo à Europa e à África.
Rotas fluviais na Amazônia conectam áreas produtoras a redes de distribuição. Fronteiras extensas e de difícil controle ampliam as oportunidades logísticas para as facções.
Nesse ambiente, organizações como PCC e CV expandiram sua presença para países vizinhos, criando alianças com grupos locais e consolidando rotas internacionais. O resultado é um fenômeno que especialistas descrevem como transnacionalização do crime brasileiro.
O objetivo da ação da Casa Branca com o encontro é claro: reconhecer que as ameaças contemporâneas nas Américas já não se limitam a conflitos militares tradicionais. Elas incluem redes criminosas globais, narcotráfico, terrorismo, lavagem de dinheiro e estruturas híbridas que combinam elementos desses fenômenos — por isso, a necessidade de maior cooperação entre governos para enfrentá-las.
A discussão incluiu inteligência compartilhada, coordenação policial internacional e novas estratégias de combate a redes logísticas que operam em múltiplos países.
A classificação de determinadas organizações como grupos terroristas e ameaças significativas à segurança regional surge nesse contexto, como gesto político, mas, principalmente, como parte de uma mudança de percepção: o reconhecimento de que certas estruturas criminosas já ultrapassaram o estágio da criminalidade convencional.
Uma ideia antiga que volta ao debate
Curiosamente, essa discussão também reacende uma referência histórica na política hemisférica: a Doutrina Monroe. Formulada em 1823, a doutrina partia de um princípio simples: as Américas deveriam permanecer livres de interferência externa e preservar sua estabilidade política.
Durante o século 21 e grande parte do século 20, essa ideia foi frequentemente associada à rivalidade entre potências e à presença de atores externos no continente. No mundo contemporâneo, no entanto, a ameaça pode assumir outras formas. Ela pode surgir não de impérios europeus ou de rivalidades ideológicas, mas de estruturas criminosas capazes de corroer Estados por dentro.
Nesse sentido, alguns analistas argumentam que o desafio atual nas Américas não é apenas geopolítico no sentido clássico. É também institucional, uma vez que redes criminosas que capturam territórios, corrompem autoridades e dominam economias locais produzem efeitos semelhantes aos de conflitos armados: enfraquecem o Estado e desestabilizam sociedades.
Talvez o aspecto mais perigoso desse fenômeno seja a sua normalização. Em muitos países, a presença do crime organizado tornou-se parte do cotidiano político e social. Governos tratam o problema como questão policial rotineira. Instituições convivem com níveis crescentes de infiltração. A sociedade aprende, pouco a pouco, a viver com a violência.
Mas há um ponto em que essa normalização deixa de ser sustentável. Quando organizações criminosas acumulam poder suficiente para influenciar eleições locais, controlar economias regionais ou desafiar diretamente a autoridade do Estado, o problema muda de escala e deixa de ser criminal. E passa a ser civilizacional.
A existência de Estados capazes de aplicar leis e garantir segurança não é um detalhe administrativo da vida moderna, mas um dos pilares da ordem política. E sem esse pilar, outras instituições — democracia, economia de mercado, liberdades individuais — começam a perder sustentação.
É por isso que o debate sobre narcotráfico e crime organizado nas Américas ganhou, nos últimos anos, uma dimensão mais ampla. A questão já não trata apenas de drogas ou violência urbana. Trata de soberania.
Estados que perdem controle territorial, que não conseguem conter a expansão de organizações criminosas ou que veem suas instituições capturadas por redes ilícitas acabam enfrentando uma forma silenciosa de erosão política.
Não se manifesta necessariamente em guerras ou golpes, mas em algo mais gradual: a substituição da autoridade legítima por estruturas paralelas de poder. Esse é o risco que muitos analistas enxergam no avanço das facções transnacionais.
A classificação de organizações como o PCC e o Comando Vermelho como ameaças relevantes no cenário hemisférico não resolve automaticamente o problema. Mas representa um sinal importante: parte da comunidade internacional começa a reconhecer que o crime organizado latino-americano deixou de ser um fenômeno doméstico. Tornou-se um desafio continental — um desafio que envolve segurança, governança, economia e estabilidade institucional e que exige respostas à altura dessa complexidade.
Entre as preocupações discutidas por autoridades americanas está também a possibilidade de conexões entre redes criminosas da América Latina e grupos classificados como organizações terroristas, especialmente o Hezbollah, movimento apoiado e financiado pelo Irã.
Ao longo dos últimos anos, investigações de segurança e relatórios de inteligência apontaram para a presença de estruturas ligadas ao grupo em áreas como a região da Tríplice Fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, tradicionalmente utilizada para atividades de contrabando e lavagem de dinheiro. Para analistas de segurança, a eventual convergência entre narcotráfico, crime organizado e redes de financiamento do terrorismo representaria um salto qualitativo no nível da ameaça.
No fim das contas, a questão central não é apenas a força das organizações criminosas, mas a capacidade das democracias de reagir. A história mostra que instituições podem ser corroídas lentamente quando ameaças persistentes deixam de ser enfrentadas com clareza.
Mostra também que sociedades capazes de reconhecer riscos e agir de forma coordenada conseguem preservar sua ordem política. O avanço do narcotráfico e do crime organizado nas Américas talvez seja um desses testes históricos — um teste sobre a capacidade do continente de defender suas instituições, sua soberania e a própria ideia de Estado de Direito.
Se a história ensina algo às democracias, é isto: ameaças raramente desaparecem sozinhas. Elas precisam ser reconhecidas — e, de fato, enfrentadas.
Ana Paula Henkel - Revista Oeste