Um desconhecido na política até 2021, ele chegou aos primeiros lugares na pesquisas eleitorais e despontou nas primárias eleitorais da Argentina
Javier Milei, durante entrevista à TV
em Buenos Aires Foto: Luis Robayo/AFP
A votação expressiva de Milei
foi antecipada pelas próprias
campanhas enquanto a
apuração avançava e pegou
a Argentina de surpresa.
Nas horas de tensão até que
os primeiros resultados
fossem anunciados, o
governo chegou a prever
que o candidato de
direita poderia ter até 30%
dos votos, disse uma fonte
da Casa Rosada à emissora
local Todo Notícias.
O presidente da coalizão
Liberdade Avança capturou
uma atenção considerável do
eleitorado argentino quando
se colocou como “diferente
de tudo que está aí”. Com seu
lema de ser “contra a casta
política”, Milei enfatiza que
não faz parte nem da política
peronista nem da oposição
macrista. O discurso agradou
o país e não foi resolvida no
últimos governos de Alberto
Fernández e seu antecessor
À insatisfação popular se somou
presidenciais. A chapa peronista
União pela Pátria (antiga Frente
de Todos) travou batalhas até
os últimos dias para definir um
candidato. Enquanto a oposição
do Juntos pela Mudança decidiu
sair com dois nomes de peso
para a disputa, mas não sem
antes protagonizar trocas de
acusações entre eles e disputas
Um outsider na liderança
Javier Milei é a mais nova
expressão dos outsiders que
irromperam na política nos
anos recentes. O economista
de 51 anos, autodenominado
anarcocapitalista, disse que
iria acabar com a classe
dominante, cortar o governo
e fechar o banco central,
cuja política monetária ruim,
segundo ele, “rouba” dinheiro
dos argentinos por meio da
inflação.
Estrela do atual ciclo
eleitoral da Argentina,
Milei tem propostas radicais.
Além da dolarização da
economia do país, ele propõe
o fim da educação gratuita
e obrigatória, que substituiria
por um sistema de vouchers;
uma gradual privatização do
sistema de saúde;
desregulamentação do
mercado de armas; e o
fim da educação sexual
obrigatória.
Mas uma promessa parece
ter causado impacto: se eleito,
disse Milei, ele sortearia seu
salário mensal. “Para mim,
isso é dinheiro sujo”, disse ele.
“Do meu ponto de vista filosófico,
o Estado é uma organização
criminosa que se financia com
impostos retirados das pessoas
à força. Estamos devolvendo
o dinheiro que a casta política
roubou”.
Desde que Milei assumiu o
cargo em dezembro,
2,4 milhões de argentinos se
inscreveram para ter a chance
de ganhar seu contracheque
de US$ 3.200 em sorteios
transmitidos ao vivo nas redes
sociais. De talvez maior
consequência: o político
anteriormente obscuro, cujas
ideias geralmente fogem do
mainstream político aqui, é o
candidato líder nas primeiras
pesquisas para a eleição
presidencial do ano que vem,
com o apoio de eleitores de
todo o espectro.
“Milei articula a raiva das
pessoas melhor do que
ninguém”, disse Lucas
Romero, diretor da empresa
de consultoria de Buenos
Aires Synopsis. “Sua
verbosidade contra a liderança
política o ajuda a construir
apoio baseado em resultados
econômicos fracos na última
década.”
de Javier Milei em Buenos Aires: candidato
dá voz aos indignados com 'casta política'
Foto: Juan Ignacio Roncoroni/EFE
Como presidente, diz Milei,
ele cortaria os gastos
drasticamente para poder
reduzir os impostos. Ele
fortaleceria os laços com
os Estados Unidos e outras
potências ocidentais e
atrairia o apoio de aliados
que se opõem às ideias da
esquerda que corroem a região.
“A América Latina só tem
uma saída se abraçar
ideias de liberdade mais
uma vez”, disse Milei ao
The Washington Post no
ano passado. Ele disse que
“cortaria o próprio braço
antes de aumentar os
impostos”.
Milei é talvez o membro
mais radical de um grupo de
libertários que obteve vitórias
nas eleições de meio de
mandato de 2021. Foi a
primeira vez em décadas
que a filosofia de governo
limitado atraiu apoio
considerável, uma surpresa
em um país há muito
governado por variantes
do peronismo de esquerda.
A ascensão de Milei foi
auxiliada por sentimentos
generalizados de pessimismo
e apatia. O país concluiu um
acordo com o Fundo
Monetário Internacional para
evitar o mais recente de uma
série de inadimplências, mas
a inflação mensal de 6,7%
em março sugere que as
pressões sobre os preços
estão apenas piorando.
Pesquisas indicam que a
maioria dos argentinos
acredita que a economia
estará pior daqui a um ano
e espera que seus filhos
também estejam piores
no futuro.
“Hoje, Milei é um repositório
das frustrações das pessoas”,
disse Mariel Fornoni, diretor
da empresa de pesquisas de
Buenos Aires Management & Fit.
“As expectativas são
incrivelmente baixas. Cada
líder político que medimos
tem uma imagem pública
muito ruim, e isso é algo que
nunca vi em anos”.
Infância difícil e goleiro
Milei foi goleiro do clube de
futebol argentino Chacarita
Juniors, mas encerrou a
carreira no começo dos anos
1990. Nascido no bairro
portenho de Palermo, em 22
de outubro de 1970, Milei
teve uma infância marcada
por polêmicas em família.
Ele mesmo reconhece que
não se dava bem com a
família, apenas com sua irmã,
Karina Milei. Ele diz que ela
é a pessoa que melhor o
conhece e “a grande arquiteta”
de seus acontecimentos
políticos. Milei disse a
diferentes meios de
comunicação que, caso se
torne presidente, ela
desempenhará o papel de
primeira-dama.
O jornalista Juan Luis González
é um dos pesquisadores da
biografia não autorizada do
economista, intitulada “El Loco”.
À CNN, ele declarou que a
passagem de Javier Milei pelo
Colégio Cardenal Copello, em
Villa Devoto, foi marcada por
bullying na maior parte da vida.
Foto: Natacha Pisarenko/APHoje Milei vive com cinco
Mastiffs ingleses, cada um
pesando cerca de 100 quilos,
e ele reconhece nesses
cachorros sua verdadeira
família.
A partir de 2018, a ascensão
de Milei começou nos
principais meios de comunicação
argentinos, com a divulgação de
seu discurso “liberal libertário”,
como costuma chamar. Suas
aparições no rádio e na televisão
locais geraram polêmica, seja
entre seus colegas economistas,
jornalistas ou apresentadores.
O grande salto em sua carreira
política veio em 2020, quando
anunciou sua candidatura à
presidência nas eleições de
2023. Esse passo abriu
caminho para que seu partido,
La Libertad Avanza,
conquistasse duas cadeiras
na Câmara dos Deputados
no ano seguinte, ocupados
por ele e por sua candidata
à vice-presidência, Victoria
Villarruel.
Enquanto a corrida estava
indefinida dentro dos partidos
tradicionais da Argentina,
Milei se beneficiava de ser o
único nome certo na disputa
para as primárias que ocorrem
em agosto e já ocupava
espaços na televisão e no
rádio para compartilhar suas
ideias de governo.
As palavras fortes contra os
políticos e a marca registrada
do cabelo desordenado - que
lhe rendeu comparações com
o ex-premiê britânico Boris
Johnson - conquistou um
público que se viu representado
em seu jeito mais próximo “do
povo”. Mas foi seu diploma de
confiança de parte da população
resolver o problema da inflação
acima dos 110%. Ainda que seus
planos fossem vagos ou radicais,
como acabar com o Banco
Central ou dolarizar a economia
- em um cenário de fuga de
dólares.
Escândalo
Além das mudanças no
xadrez dos adversários,
Milei se vê agora prejudicado
pelo maior escândalo
envolvendo seu nome desde
que entrou para a política em
2021. A Justiça Eleitoral
Segundo denunciou
ex-aliados do candidato,
sua equipe chegou a cobrar
mais de US$ 50 mil dólares
para indicar nomes às
corridas para prefeitos,
vereadores e governadores
nas eleições provinciais.
Áudios divulgados pelo
La Nación em que Milei é
citado pelo nome reforçaram
as denúncias até que a Justiça
abriu o inquérito. Milei nega a
venda e se diz vítima de
difamação.
Além disso, nenhum dos
candidatos apoiados por ele
conseguiu cargos nas eleições
provinciais, que até então veem
predominância dos candidatos
apoiados pelo governo. No
entanto, ainda faltam eleições de
províncias importantes e que
concentram a maioria do
eleitorado, como Buenos
Aires e Santa Fé.
Washington Post, AFP, EFE,
com Carolina Marins - Estadão