segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Quem é Javier Milei, o candidato libertário que venceu as prévias eleitorais na Argentina

Um desconhecido na política até 2021, ele chegou aos primeiros lugares na pesquisas eleitorais e despontou nas primárias eleitorais da Argentina



O deputado e presidenciável argentino, 

Javier Milei, durante entrevista à TV 

em Buenos Aires Foto: Luis Robayo/AFP


A votação expressiva de Milei

 foi antecipada pelas próprias

 campanhas enquanto a 

apuração avançava e pegou

 a Argentina de surpresa. 

Nas horas de tensão até que

 os primeiros resultados 

fossem anunciados, o 

governo chegou a prever 

que o candidato de 

direita poderia ter até 30% 

dos votos, disse uma fonte 

da Casa Rosada à emissora

 local Todo Notícias.


O presidente da coalizão 

Liberdade Avança capturou 

uma atenção considerável do 

eleitorado argentino quando 

se colocou como “diferente 

de tudo que está aí”. Com seu 

lema de ser “contra a casta

 política”, Milei enfatiza que 

não faz parte nem da política

 peronista nem da oposição 

macrista. O discurso agradou 

quem está cansado da enorme

 crise econômica que passa

 o país e não foi resolvida no

 últimos governos de Alberto 

Fernández e seu antecessor

Mauricio Macri.


À insatisfação popular se somou

 as brigas internas dentro das 

coalizões de governo e 

oposição pelas candidaturas 

presidenciais. A chapa peronista 

União pela Pátria (antiga Frente

 de Todos) travou batalhas até

 os últimos dias para definir um 

candidato. Enquanto a oposição 

do Juntos pela Mudança decidiu

 sair com dois nomes de peso 

para a disputa, mas não sem 

antes protagonizar trocas de 

acusações entre eles e disputas 

até mesmo pela prefeitura de 

Buenos Aires.


Um outsider na liderança



Javier Milei é a mais nova 

expressão dos outsiders que 

irromperam na política nos 

anos recentes. O economista 

de 51 anos, autodenominado

anarcocapitalista, disse que 

iria acabar com a classe 

dominante, cortar o governo

 e fechar o banco central, 

cuja política monetária ruim, 

segundo ele, “rouba” dinheiro 

dos argentinos por meio da 

inflação. 


Estrela do atual ciclo 

eleitoral da Argentina, 

Milei tem propostas radicais.

Além da dolarização da 

economia do país, ele propõe

 o fim da educação gratuita 

e obrigatória, que substituiria 

por um sistema de vouchers; 

uma gradual privatização do 

sistema de saúde; 

desregulamentação do 

mercado de armas; e o 

fim da educação sexual 

obrigatória.


Mas uma promessa parece 

ter causado impacto: se eleito, 

disse Milei, ele sortearia seu 

salário mensal. “Para mim, 

isso é dinheiro sujo”, disse ele. 

“Do meu ponto de vista filosófico,

 o Estado é uma organização

 criminosa que se financia com 

impostos retirados das pessoas

 à força. Estamos devolvendo 

o dinheiro que a casta política 

roubou”.


Desde que Milei assumiu o

 cargo em dezembro, 

2,4 milhões de argentinos se

 inscreveram para ter a chance 

de ganhar seu contracheque

 de US$ 3.200 em sorteios

 transmitidos ao vivo nas redes 

sociais. De talvez maior

 consequência: o político 

anteriormente obscuro, cujas

 ideias geralmente fogem do

 mainstream político aqui, é o 

candidato líder nas primeiras 

pesquisas para a eleição 

presidencial do ano que vem,

 com o apoio de eleitores de 

todo o espectro.


“Milei articula a raiva das 

pessoas melhor do que

 ninguém”, disse Lucas

 Romero, diretor da empresa 

de consultoria de Buenos 

Aires Synopsis. “Sua 

verbosidade contra a liderança

 política o ajuda a construir 

apoio baseado em resultados 

econômicos fracos na última

década.”


Jovens argentinos participam de um comício 

de Javier Milei em Buenos Aires: candidato 

dá voz aos indignados com 'casta política' 

Foto: Juan Ignacio Roncoroni/EFE


Como presidente, diz Milei, 

ele cortaria os gastos

 drasticamente para poder 

reduzir os impostos. Ele 

fortaleceria os laços com 

os Estados Unidos e outras 

potências ocidentais e 

atrairia o apoio de aliados 

que se opõem às ideias da

 esquerda que corroem a região.


“A América Latina só tem 

uma saída se abraçar 

ideias de liberdade mais 

uma vez”, disse Milei ao 

The Washington Post no 

ano passado. Ele disse que

 “cortaria o próprio braço 

antes de aumentar os 

impostos”.


Milei é talvez o membro 

mais radical de um grupo de 

libertários que obteve vitórias 

nas eleições de meio de 

mandato de 2021. Foi a 

primeira vez em décadas 

que a filosofia de governo

 limitado atraiu apoio 

considerável, uma surpresa 

em um país há muito 

governado por variantes 

do peronismo de esquerda.


A ascensão de Milei foi 

auxiliada por sentimentos 

generalizados de pessimismo

 e apatia. O país concluiu um

 acordo com o Fundo 

Monetário Internacional para

 evitar o mais recente de uma 

série de inadimplências, mas 

a inflação mensal de 6,7% 

em março sugere que as 

pressões sobre os preços 

estão apenas piorando. 

Pesquisas indicam que a 

maioria dos argentinos 

acredita que a economia 

estará pior daqui a um ano 

e espera que seus filhos 

também estejam piores 

no futuro.


“Hoje, Milei é um repositório

 das frustrações das pessoas”, 

disse Mariel Fornoni, diretor

 da empresa de pesquisas de

 Buenos Aires Management & Fit. 

“As expectativas são 

incrivelmente baixas. Cada

 líder político que medimos 

tem uma imagem pública 

muito ruim, e isso é algo que

 nunca vi em anos”.


Infância difícil e goleiro


Milei foi goleiro do clube de

 futebol argentino Chacarita

 Juniors, mas encerrou a 

carreira no começo dos anos 

1990. Nascido no bairro 

portenho de Palermo, em 22

 de outubro de 1970, Milei

 teve uma infância marcada 

por polêmicas em família. 

Ele mesmo reconhece que 

não se dava bem com a 

família, apenas com sua irmã, 

Karina Milei. Ele diz que ela

 é a pessoa que melhor o 

conhece e “a grande arquiteta”

 de seus acontecimentos 

políticos. Milei disse a 

diferentes meios de 

comunicação que, caso se 

torne presidente, ela 

desempenhará o papel de

 primeira-dama.


O jornalista Juan Luis González 

é um dos pesquisadores da 

biografia não autorizada do 

economista, intitulada “El Loco”. 

À CNN, ele declarou que a 

passagem de Javier Milei pelo

 Colégio Cardenal Copello, em 

Villa Devoto, foi marcada por 

bullying na maior parte da vida.

Foto: Natacha Pisarenko/AP

Hoje Milei vive com cinco 

Mastiffs ingleses, cada um 

pesando cerca de 100 quilos, 

e ele reconhece nesses 

cachorros sua verdadeira 

família.


A partir de 2018, a ascensão

 de Milei começou nos 

principais meios de comunicação

 argentinos, com a divulgação de 

seu discurso “liberal libertário”, 

como costuma chamar. Suas 

aparições no rádio e na televisão 

locais geraram polêmica, seja

 entre seus colegas economistas, 

jornalistas ou apresentadores.


O grande salto em sua carreira 

política veio em 2020, quando

 anunciou sua candidatura à 

presidência nas eleições de

 2023. Esse passo abriu 

caminho para que seu partido,

 La Libertad Avanza, 

conquistasse duas cadeiras

 na Câmara dos Deputados

 no ano seguinte, ocupados 

por ele e por sua candidata 

à vice-presidência, Victoria

Villarruel.


Enquanto a corrida estava 

indefinida dentro dos partidos

 tradicionais da Argentina, 

Milei se beneficiava de ser o 

único nome certo na disputa 

para as primárias que ocorrem 

em agosto e já ocupava 

espaços na televisão e no

 rádio para compartilhar suas 

ideias de governo.


As palavras fortes contra os

 políticos e a marca registrada 

do cabelo desordenado - que 

lhe rendeu comparações com 

o ex-premiê britânico Boris

 Johnson - conquistou um 

público que se viu representado 

em seu jeito mais próximo “do 

povo”. Mas foi seu diploma de 

economista que lhe rendeu a 

confiança de parte da população

 argentina de que ele saberia 

resolver o problema da inflação 

acima dos 110%. Ainda que seus 

planos fossem vagos ou radicais, 

como acabar com o Banco 

Central ou dolarizar a economia

 - em um cenário de fuga de

 dólares.

Escândalo

Além das mudanças no 

xadrez dos adversários, 

Milei se vê agora prejudicado

 pelo maior escândalo 

envolvendo seu nome desde

 que entrou para a política em 

2021. A Justiça Eleitoral 

argentina abriu uma 

investigação por denúncias

de venda de candidaturas 

dentro da coalizão Liberdade 

Avança.


Segundo denunciou 

ex-aliados do candidato, 

sua equipe chegou a cobrar 

mais de US$ 50 mil dólares 

para indicar nomes às 

corridas para prefeitos, 

vereadores e governadores 

nas eleições provinciais

Áudios divulgados pelo 

La Nación em que Milei é 

citado pelo nome reforçaram 

as denúncias até que a Justiça 

abriu o inquérito. Milei nega a 

venda e se diz vítima de 

difamação.


Além disso, nenhum dos 

candidatos apoiados por ele 

conseguiu cargos nas eleições

 provinciais, que até então veem 

predominância dos candidatos 

apoiados pelo governo. No 

entanto, ainda faltam eleições de 

províncias importantes e que 

concentram a maioria do 

eleitorado, como Buenos 

Aires e Santa Fé


Washington Post, AFP, EFE, 

com Carolina Marins - Estadão