sábado, 20 de maio de 2017

"A cura pela Lava-Jato", por Zuenir Ventura

O Globo

Em condições normais, já deveria ser um escândalo o presidente da República receber em sua casa, à noite, o dono de uma empresa cinco vezes alvo da PF



Desta vez foi pior, pelo menos enquanto não surge a próxima. A cada fase da Lava-Jato, fica demonstrado que a crise que assola o país não é só política, nem econômica, é moral. 

“O país está sangrando”, disse o ministro Marco Aurélio Mello, do STF. Acho que a metáfora é outra: o país não está sangrando, está purgando. Do carnegão não sai mais sangue, e sim pus, aquela secreção produzida por um organismo infectado, já quase todo contaminado. A corrupção no Brasil é suprapartidária, é uma bactéria que ataca governo e oposição, vai de Lula a Temer, passando por Aécio a Dilma. A novidade é que não são mais histórias de ouvir dizer. Foi tudo na primeira pessoa, com som e imagem.

Em condições normais, já deveria ser um escândalo o presidente da República receber em sua casa, à noite, o dono de uma empresa cinco vezes alvo da PF. O que dizer então do fato de que a visita foi para relatar malfeitos e métodos antirrepublicanos de obstruir investigações, aliciando juízes e procuradores? Em vez de chamar a polícia para prender o transgressor confesso, o anfitrião chegou a contribuir com conivência e cumplicidade, quando não com aplauso e apoio. Por exemplo, disse “ótimo, ótimo”, com a naturalidade de quem parecia acostumado a ouvir proezas assim. E estimulou com um “tem que manter isso, viu?”, quando Joesley informou que estava mantendo boa relação com Eduardo Cunha, a quem bancava com propinas mensais, em troca de silêncio, ao ex-deputado e ao doleiro Lúcio Funaro, ambos presos.

Pena que de Aécio não se pôde ouvir muito além do pedido de R$ 2 milhões ao dono do Friboi. Os palavrões não deixaram. Se o termo não estivesse tão gasto, diria que foi um episódio estarrecedor. Esperava-se não respeito à ética, um valor fora de moda, mas que pelo menos o presidente, tão formal e protocolar, respeitasse a liturgia do cargo. “A montanha pariu um rato”, disse, aliviado, ao colunista Gerson Camarotti, parecendo ter motivos para esperar mais.

Por tudo isso, o “não renunciarei” do presidente soou não como o grito de um injustiçado inocente, mas como a afronta cínica de quem se julga o único dono de seu destino político.

Às investigações de agora vamos ficar devendo também a desmoralização da desculpa esfarrapada de que o juiz Moro veio ao mundo para perseguir Lula, acabar com o PT e preservar os tucanos.

Para terminar como comecei, usando a mesma metáfora, acabo de aprender que o pus cheira mal, mas é profilático, é uma reação saudável de nossas células de defesa, os glóbulos brancos, contra uma infecção, no caso, a corrupção. O consolo é que a Lava-Jato, ao espremer o carnegão, está operando a cura — uma demorada e dolorosa cura.


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