Seja lá o que resulte da disputa entre a base aliada do governo e a oposição
no Senado sobre a CPI que, de uma forma ou de outra, terá como peça de
resistência a cada vez mais suspeita compra da Refinaria de Pasadena, pela qual
a Petrobrás pagou uma fortuna e mais alguma coisa, a abertura do inquérito
parlamentar tornou-se nesta quarta-feira definitivamente imperativa.
O fato novo
que nenhuma esperteza será capaz de escamotear mediante as mesmas espertezas a
que o PT e a ala leal do PMDB recorreram nos últimos dias - com a aprovação da
presidente Dilma Rousseff e a cumplicidade do titular do Senado Renan Calheiros
- foi a incandescente revelação do advogado Edson Ribeiro.
Patrono do ex-diretor da área internacional da petroleira, Nestor Cerveró -
demitido há 13 dias do cargo de diretor financeiro da BR Distribuidora, que
passou a ocupar seis anos depois do escândalo de Pasadena -, Ribeiro mergulhou a
presidente no que é sem dúvida a sua pior enrascada desde que ascendeu ao
Planalto.
Na semana atrasada, como se recorda, informada de que o Estado tinha apurado
que a compra de metade da refinaria a preço extravagante havia sido autorizada
em fevereiro de 2006 por decisão unânime do Conselho de Administração da
Petrobrás, que ela chefiava na condição de ministra da Casa Civil no governo
Lula, Dilma se saiu com uma explicação literalmente extraordinária que a deixou
em confronto com a atual dirigente da empresa, sua até então amiga Graça Foster,
e o antecessor José Sérgio Gabrielli.
Separadamente eles foram se explicar ao Congresso no ano passado e imaginavam
ter administrado as reações ao malfadado negócio, trazido a público em 2012 pelo
Broadcast, o serviço em tempo real da Agência Estado. Ainda assim, o caso entrou
na mira do Tribunal de Contas da União (TCU) e do Ministério Público Federal no
Rio de Janeiro, por suspeita de superfaturamento e evasão de divisas.
Em 17 de
março, numa nota de próprio punho ao Estado, a presidente declarou que o seu
voto favorável à época se baseou em um mero resumo executivo, "técnica e
juridicamente falho", dos termos da transação por se consumar. O texto de um par
de páginas omitiu duas cláusulas descaradamente favoráveis à empresa belga Astra
Oil, em vias de se tornar parceira da Petrobrás. Se as conhecesse, alegou Dilma,
"seguramente" teria se oposto à assinatura do respectivo contrato.
O texto cujas lacunas foram usadas para preencher a autodefesa da presidente
foi preparado por Cerveró, como lhe competia como responsável pelas atividades
da estatal no exterior. Ele teve a ajuda, como se viria a saber, do colega que
então dirigia o setor de Refino e Abastecimento da empresa, Paulo Roberto Costa.
Dias depois da estarrecedora confissão da presidente, Costa foi preso pela
Polícia Federal sob a acusação de ter ligações com o conhecido operador do
mercado clandestino de câmbio Alberto Yousseff, chefe de uma extensa rede de
lavagem de dinheiro. Costa, que saiu da Petrobrás depois que Graça o tirou do
cargo, continuou buscando grandes negócios amparado pelas amizades e interesses
que manteve na petroleira.
Enquanto novos aspectos da história de Pasadena continuavam a alimentar o
noticiário, já agora dominado pelas artimanhas do governo para impedir ou
desfigurar a instalação da CPI pedida pela oposição, o advogado de Cerveró
tratou de fazer jus aos seus honorários. Na terça-feira, Ribeiro circulou pelas
duas Casas do Congresso, o TCU e a Polícia Federal - que também apura a esbórnia
da refinaria -, distribuindo cartas em que seu cliente se diz pronto a prestar
os esclarecimentos que lhe venham a ser cobrados.
No dia seguinte, com
profissional senso de oportunidade, lançou a sua bomba. Desmentindo a
presidente, afirmou que ela e os demais conselheiros da Petrobrás à época
receberam a íntegra da proposta do contrato com a Astra Oil 15 dias antes da
fatídica reunião em que foi aprovada.
"Os conselheiros tiveram tempo hábil para examinar o contrato. Se não o
fizeram, foram no mínimo levianos ou praticaram gestão temerária", disse Ribeiro
à Folha de S.Paulo. Resta saber, se o desmentido ficar comprovado, como Dilma se
sairá dessa. Se é que conseguirá sair.