sábado, 8 de março de 2014

"Malthus, Marx e o moderno crescimento", por Kenneth Rogoff

O Globo

A promessa de que cada geração estará em melhor situação que a anterior é um princípio fundamental da sociedade moderna. No geral, a maioria das economias avançadas cumpriu a promessa, com padrões de vida em alta nas últimas gerações, apesar de retrocessos causados por guerras e crises financeiras.Também no mundo em desenvolvimento, a maioria das pessoas começou a experimentar melhorias contínuas em seus padrões de vida e rapidamente desenvolve expectativas de crescimento similares. Mas será que as futuras gerações, particularmente nas economias avançadas, realizarão tais expectativas?

Até agora, toda previsão na era moderna de que a situação da Humanidade iria piorar, de Thomas Malthus a Karl Marx, revelou-se errada. O progresso tecnológico tem superado obstáculos ao crescimento econômico. Reequilíbrio político periódico, às vezes pacífico, às vezes não, tem assegurado que a vasta maioria das pessoas se beneficie, embora uns muito mais que outros.Como resultado, as preocupações de Malthus sobre morte em massa causada pela fome não se materializaram em qualquer das economias capitalistas pacíficas. E, apesar de uma desconcertante queda da participação do trabalho na renda nas últimas décadas, a perspectiva a longo prazo ainda desafia a previsão de Marx de que o capitalismo seria miserável para os trabalhadores.

Mas a performance passada não garante que uma trajetória similar possa ser mantida ao longo do século. Deixando de lado rupturas geopolíticas, há alguns formidáveis desafios a superar. O primeiro conjunto de questões inclui problemas de queima lenta envolvendo externalidades, sendo o principal exemplo a degradação ambiental. Quando o direito à propriedade é mal definido, como no caso de ar e água, o governo precisa intervir para proporcionar regulamentação apropriada. Não invejo as futuras gerações por terem de enfrentar as possíveis ramificações do aquecimento global e do esgotamento da água potável.

Um segundo conjunto de problemas consiste na necessidade de assegurar que o sistema econômico seja percebido como fundamentalmente justo, o que é vital para sua sustentação política. Essa percepção não pode mais ser tomada como certa, pois a interação da tecnologia e da globalização exacerbou desigualdades de renda e riqueza dentro dos países. Até agora, nossas sociedades têm se mostrado competentes para se ajustar a novas tecnologias; mas a velocidade de mudança nas últimas décadas causou tremenda tensão, refletida nas enormes disparidades de renda dentro dos países, com enormes fossos entre os mais ricos e os demais. Desigualdade pode corromper e paralisar o sistema político de um país, levando o crescimento econômico junto.

O terceiro problema é o envelhecimento das populações. Como alocar recursos para cuidar dos mais velhos, especialmente em economias de baixo crescimento? Déficits públicos em alta certamente exacerbam o problema, pois as futuras gerações estão sendo chamadas tanto a pagar nossa dívida quanto nossa aposentadoria. O desafio final consiste numa ampla variedade de questões que requer regulamentação de tecnologias em rápida evolução por governos que não necessariamente têm competência ou recursos para fazê-lo. Já vimos onde a regulamentação insuficiente de mercados financeiros pode levar.

Todos esses problemas têm solução. Uma taxação global sobre emissão de carbono mitigaria os riscos climáticos e aliviaria o peso da dívida dos governos. Enfrentar desigualdades requer maior justiça fiscal, além de programas aprimorados de educação para adultos, com uso intensivo de novas tecnologias. Mas quanto tempo vai levar para que os governos ajam é uma questão em aberto.