A inteligência artificial já foi revolucionária, mas esse início de milênio trouxe muito mais
“E disse Deus: ‘Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança’.” Gênesis 1:26
O s humanos estão criando seres à nossa imagem e semelhança nesse Jardim do Éden da tecnologia avançada por meio da inteligência artificial e da robótica.
Encomendamos receitas de salada ao ChatGPT, pedimos ao Grok que transforme velhas fotos em vídeos coloridos, conversamos com o Claude sobre a evolução do conhecimento humano,
fazemos planos de viagem com o Perplexity. Muitos desenvolvem amizades e namoros com seres virtuais em aplicativos como o Candy AI. Por enquanto, precisamos de celulares e computadores para dialogar com esses seres etéreos. Mas muito em breve teremos robôs de verdade lavando nossa louça e arrumando nossas camas. E não vai demorar para que esses robôs se transformem em seres atraentes, capacitados a praticar sexo e mais inteligentes e cultos do que qualquer ser humano.
Essa possibilidade está aí, na esquina do tempo. Os primeiros 25 anos deste milênio foram apenas o ensaio. Será o novo normal para nossos filhos e netos. Um dia eles perguntarão: “Como era a vida antes da inteligência artificial? Como vocês conseguiam sobreviver sem os robôs?”
A queda da Torre de Babel Em maio de 1997, o “supercomputador” Deep Blue, da IBM, derrotou em Nova York o campeão de xadrez Garry Kasparov num torneio de seis jogos. Foi considerada a primeira vitória de uma “máquina” sobre um humano.
O curioso é que o “super” Deep Blue, um enorme conjunto de máquinas interconectadas, seria derrotado hoje por qualquer celular.
A IA como a conhecemos hoje é filha do século 21. Ela só se tornou possível com algumas condições técnicas. Uma delas foi o radical aumento da capacidade de computação. Outra foi a explosão de dados na internet. É a era do Big Data. Os computadores aprendem a aprender através do conceito de redes neurais.
Nesses 25 anos, essas possibilidades técnicas foram rapidamente modificando nossas vidas. Desde 2006, nos tornamos todos poliglotas por meio de programas como o Google Translate. A barreira das línguas, simbolizada na Bíblia pela Torre de Babel, desabou. Hoje, graças à IA, todos podemos entender e escrever em mais de 250 línguas, como croata, maori, quirguiz, tsonga, nuer, wolof e zulu.
Em 2010, a Apple lançou a Siri, e a partir daí começamos a conversar com nossos celulares. As câmeras dos smartphones passam a usar a IA para definir foco e detecção facial. E esse foi só o começo. Os celulares se tornaram poderosos computadores em miniatura, capazes de nos acompanhar e nos auxiliar em praticamente qualquer necessidade de nossas vidas.
Capatazes de escravos
A partir de 2014, a inteligência artificial começou a salvar vidas. Aperfeiçoou os diagnósticos de imagem, como ressonâncias magnéticas. Naquilo que para os olhos humanos é uma mancha indefinida, a IA consegue enxergar, por exemplo, um câncer em estágio inicial.
Até então, a inteligência artificial era uma área exclusiva de “especialistas”. Isso muda em 2022 com a chegada e popularização do ChatGPT, o primeiro aplicativo de IA acessível a qualquer pessoa. A partir daí, tudo muda. Novos aplicativos surgem e estabelecem uma corrida acirrada por usuários. Depois de 300 mil anos, o Homo sapiens tem o direito a um segundo cérebro, funcionando 24 horas por dia, sete dias por semana.
Existe sim a questão dos empregos. A IA vai afetar o mercado de trabalho, sem dúvida. Mas essa também é uma questão inevitável. Profissões ficam obsoletas. Sempre ficaram. Acendedores de lampiões em vias públicas, condutores de charretes, capatazes de escravos, todos eles ficaram para trás. Assim como hoje, sonolentos cobradores de ônibus esperam que alguém apareça com papel moeda para ser trocado.
Profissões serão extintas. Mas outras, mais técnicas e avançadas, vão surgir. A IA é um convite à modernização e ao aperfeiçoamento do sistema de educação.
A corrida dos robôs
O tamanho da mudança provocada pela inteligência artificial pode ser medido pela icônica capa anual da revista Time com a “pessoa do ano”. Em 2025, as pessoas escolhidas são os “arquitetos da IA” — os técnicos e empreendedores que fizeram o parto da nova tecnologia e a espalharam pelo mundo. A matéria da Time calcula que as cinco principais empresas de tecnologia dos EUA (Meta, Oracle, Google, Microsoft e Amazon) estão gastando US$ 427 bilhões em tecnologia, especialmente na área de IA.
A mesma edição mostra outra forma de medir o tamanho da prioridade que se dá hoje à inteligência artificial. O projeto Manhattan, que criou a bomba atômica em 1944, gastou 0,4% do PIB americano. O projeto Apollo, que levou os primeiros humanos à Lua, gastou 0,8%. O atual esforço americano em permanecer à frente nessa nova tecnologia está consumindo 1,3% do PIB americano.
A reinvenção das finanças
A inteligência artificial é a personagem mais marcante dessa era de grandes revoluções tecnológicas. Outras mudanças se integraram em nossas vidas de uma maneira que nem nos lembramos mais como tudo era antes.
O comércio se digitalizou e se tornou remoto. Ir ao banco virou
desnecessário, já que o banco está no seu celular. O papel-moeda hoje
é uma raridade. Os meios de pagamento são invisíveis e conectam
comprador e vendedor por meio de celulares e maquininhas.
Hoje parece impensável que antes do dia 16 de novembro de 2020 não existia o Pix. Transferências tinham que ser feitas no banco (com taxa), pagamentos eram realizados em cheque, que talvez tivesse fundo, talvez não.
O Pix foi uma invenção brasileira durante a presidência de Roberto Campos Neto no Banco Central. Junto com as outras mudanças financeiras, abriu um grande espaço para que pessoas simples, sem capital, pudessem estabelecer seus negócios de maneira simplificada e direta.
Foi essa tecnologia financeira (junto com o home of ice, também viabilizado graças ao avanço tecnológico) que garantiu a sobrevivência dos negócios durante a catastrófica pandemia de covid19. Hoje até mendigos pedem esmola com o Pix
Com a inteligência artificial, cada computador se transformou num complexo de edição e criação
O próprio sistema financeiro mudou nesse furacão de um quarto de século. O poder dos grandes bancos foi diminuído com o surgimento das fintechs. Hoje, literalmente, qualquer um pode ter um cartão de plástico para pagar suas contas, guardar seus lucros e participar da economia global.
O grande comércio teve que mudar completamente seu modo de funcionamento. Lojas tradicionais que resistiram à transformação acabaram fechando. Consumidores continuam indo às lojas, mas é muito mais comum que façam suas compras em qualquer lugar, a qualquer hora, por meio de empresas gigantes online como Amazon, Shopee e Mercado Livre. Sem ter que se deslocar, enfrentar filas, enfrentar o trânsito. Clica aqui, clica ali e o produto aparece na sua porta, às vezes no mesmo dia.
Chama um Uber
Até 2014, o brasileiro tinha três opções de transporte: o particular, o coletivo (ônibus e metrô) e o táxi, que era caro e pouco seguro. Todo mundo já passou pela experiência de entrar num carro com um motorista que você nunca viu e sentir que ele está esticando o caminho para fazer o taxímetro aumentar o preço.
A chegada da Uber e da 99 ao Brasil em 2014 mudou esse panorama. O
transporte passou a ser planejado no celular, atende em casa, e você já
parte sabendo o quanto vai gastar. Muita gente passou a não querer
mais ter carro particular depois da chegada dos aplicativos de
transporte.
A invenção da Uber em San Francisco, em 2010, não se restringiu ao transporte urbano. Ela criou um novo modelo de negócios. Uma empresa como a Buser usa o mesmo princípio para ônibus intermunicipais. A Uber e a 99 abriram seus serviços para transporte de pequenas cargas por motos. Jatinhos executivos já são alugados usando praticamente o mesmo modelo, que também funciona para a contratação de serviços de faxina num aplicativo como o Parafuzo.
É a “uberização” da economia. Em poucos anos, estaremos usando aplicativos nos celulares para chamar os primeiros carros voadores autônomos.
A nova vida social
O início do século trouxe outra mudança fundamental — para o bem e para o mal: as redes sociais. Elas explodiram a partir de 2006 com a popularização do Facebook e do Twitter, hoje X. Agora são amaldiçoadas por terem fragmentado nossa atenção e provocado brigas entre amigos e familiares.
Esses não são problemas da tecnologia, mas do uso que se faz dela. Redes sociais permitiram que qualquer pessoa pudesse divulgar sua opinião e seu trabalho, sem ter que passar por intermediários, como a imprensa e a mídia.
Falando de imprensa e mídia, essa foi outra mudança fundamental com base na tecnologia. Imprimir uma revista ou um livro custava uma fortuna, e outra fortuna era gasta na distribuição, que acabava sendo geograficamente limitada. A digitalização permite que uma revista como a Oeste esteja disponível no mundo inteiro.
É bom se preparar: os próximos 25 anos vão ser alucinantes
A cultura também passou, nesses 25 anos, por sua mais profunda transformação. Dois exemplos dramáticos dessa mudança aconteceram em 2006 e 2007, quando foram lançados o streaming de música Spotify e o streaming de vídeos Netflix, respectivamente
Logo esses serviços se multiplicaram na concorrência. Filmes e músicas deixaram de ser um produto caro. Com o preço que se comprava um CD ou um DVD, hoje temos (quase) todos os CDs e todos os DVDs disponíveis nos streamings, em qualidade muito maior.
Você é capaz de imaginar hoje um mundo sem o YouTube? Pois até 2005 ele não existia. As pessoas gravavam vídeos e tinham que carregar seus registros numa fita VHS. Hoje, o YouTube é uma instituição internacional, o canal de TV de todos para todos. Com a inteligência artificial, cada computador se transformou num complexo de edição e criação capaz de gerar animações em 3D e trilhas sonoras profissionais.
Os próximos 25 anos
A educação também está dando seus primeiros passos de mudança em relação aos obsoletos métodos de ensino convencionais. Ficou mais fácil aprender com a ajuda da IA e de aulas à distância. Algumas escolas de vanguarda estão revolucionando os métodos de ensino, deixando os alunos mais motivados para as questões práticas da vida e mais independentes com relação à figura do professor.
A tecnologia revolucionou também a área vital da saúde. As longas filas de espera por atendimento foram reduzidas por meio de rápidas e objetivas teleconsultas. E esse método provou sua eficácia especialmente durante a pandemia.
A medicina deixou de ser uma atividade passiva nas mãos dos médicos. Qualquer pessoa hoje pode manter o registro permanente de suas funções vitais usando um smartwatch de R$ 150. Esses dados são registrados e, quando o médico perguntar como o paciente está se sentindo, vai receber não um “mais ou menos”, mas gráficos e números exatos que podem determinar um diagnóstico preciso.
Se você está sentindo vertigem com essas mudanças todas proporcionadas pela tecnologia na sua vida, é bom se preparar: os próximos 25 anos vão ser alucinantes
Dagomir Marquezi - Revista Oeste