domingo, 6 de agosto de 2023

'O Brics que não interessa ao Brasil', editorial do Estadão

O País deveria repensar sua presença no bloco se prosperar a ideia de ampliação advogada pela China, que faria do Brics um grupo geopolítico de orientação autocrática e antiocidental


Foto Arquivo

A Cúpula do Brics (Brasil, 

Rússia, Índia, China e África 

do Sul) nos dias 22 e 23 de

 agosto, em Johannesburgo,

 pode ser um divisor de águas 

para o grupo. A presença

 de 22 países que manifestaram

 interesse em integrá-lo, entre

 eles Argentina, Arábia Saudita, 

Cuba, Irã e Venezuela, realça a 

discussão mais importante do 

fórum: criar ou não um processo

 formal para admitir novos 

integrantes e em que termos. 


Até o momento, o bloco foi mais 

simbólico do que concreto, mais 

econômico do que geopolítico,

 mais defensivo do que 

construtivo. A prevalecerem 

as ambições da China, que 

pressiona pela expansão, essas 

condições podem se inverter. 


Mas isso dificilmente serviria

aos interesses do Brasil.


O acrônimo “Bric” foi 

fabricado como uma 

ferramenta de marketing 

pelos economistas da Goldman 

Sachs em 2001 para descrever

 grandes economias 

emergentes em crescimento 

acelerado. Mas, à parte essa

 similaridade, desde a 

formalização do grupo, em 

2009, era indisfarçável um 

certo caráter contingencial 

e acidental, dada a 

heterogeneidade entre os

 membros. São duas das 

maiores democracias do 

mundo (Brasil e Índia) e 

duas das maiores 

autocracias (China e 

Rússia), uma das duas 

potências nucleares (Rússia)

 e um dos maiores produtores

 agrícolas (Brasil). Em geral, 

o Brics atuou como um grupo

 de pressão, relativamente 

unido pela desconfiança ao 

poder exercido pelos EUA por 

meio de sanções e intervenções 

militares. Não surpreende que, 

além de discussões abstratas 

sobre governança, a única 

 mas que é relativamente 

pequeno.


Ao longo da última década, 

mesmo a confluência 

econômica foi afetada por 

disparidades. O único país 

que cresceu expressivamente, 

investindo em uma economia

 baseada em conhecimento 

e inovação tecnológica, foi a

 China. A Índia começa a 

seguir esses passos, 

enquanto os outros 

permaneceram estagnados, 

dependentes de commodities, 

com sistemas políticos 

marcados por 

disfuncionalidades e carentes 

de reformas.


Em princípio, a guerra da 

Rússia contra a Ucrânia e 

a intensificação da rivalidade 

entre China e EUA sugeririam 

que o grupo deveria se 

concentrar em questões de 

interesse comum, como o

financiamento de projetos, e 

evitar a pauta da expansão. 

Mas justamente essas 

circunstâncias têm motivado 

a China a fazer uma 

campanha agressiva pela 

ampliação. Para Pequim, ela 

seria uma oportunidade de 

expandir sua influência política 

e econômica. Para a Rússia, 

por sua vez, seria um meio de 

se defender do crescente 

isolamento diplomático por 

parte do Ocidente.


Brasil e Índia sempre 

resistiram à ampliação, 

conscientes de que ela 

diluiria sua influência no 

grupo em favor da China. 


Declarações recentes do 

presidente Lula da Silva 

parecem favorecer uma 

inversão dessa atitude. Mas, 

na atual circunstância, a 

resistência é mais, não 

menos, importante.


Como apontou o diplomata 

Rubens Barbosa,

 “num clube de dez ou 

quinze membros que votam 

exatamente como a China e 

a Rússia em questões como 

direitos humanos, democracia 

e guerra na Ucrânia, o Brasil 

vai ficar ainda mais isolado”. 


A estratégia brasileira (e 

indiana) de manter 

equidistância na rivalidade 

entre China (e Rússia) e 

EUA (e Europa) ficaria 

comprometida. O clube de

 economias emergentes não 

alinhadas se tornaria um 

clube geopolítico de 

orientação autocrática 

pautado pelos interesses 

chineses.


Nessas condições, não 

surpreende que um analista

 de relações internacionais

 reputado por posições 

conciliatórias, como Barbosa, 

seja taxativo: “Caso haja 

incorporação desse grande

 número de países, não 

restará ao Brasil alternativa 

senão deixar o grupo para

 manter sua posição de 

independência e afirmar 

uma posição de liderança 

no Sul Global”. Na sua 

condição de grupo de pressão

 sobre o “Norte” e de foro de 

aproximação diplomática entre

 grandes economias 

emergentes e ocasionalmente 

de financiamento de projetos 

de interesse comum, o Brics 

mantém seu valor para o Brasil. 


Mas, se prevalecerem os 

termos de expansão da 

China, o País tem muito 

a perder e nada a ganhar.


Editorial do Estadão