domingo, 9 de outubro de 2022

'Por que Bolsonaro ficou atrás de Lula no Primeiro Turno?", por Alan Ghani

 

Câmara dos Deputados | Foto: Montagem Revista Oeste/Agência Brasil




“É a economia, estúpido!” A famosa frase do estrategista de campanha de Bill Clinton reflete o peso da melhora econômica para eleger um presidente, seja nos EUA, seja no Brasil.

Evidentemente há outras variáveis capazes de influenciar a decisão do eleitor, como corrupção, segurança pública, pauta de costumes (aborto, legalização das drogas, etc.), saúde, educação; mas a economia é bastante relevante na hora do voto porque afeta diretamente o bem-estar do indivíduo.

Quando a economia vai bem, é mais fácil encontrar um emprego, a inflação fica sob controle e a renda aumenta. A população consome mais alimentos, educação, saúde e lazer, e o bem-estar geral da sociedade aumenta. Em sentido contrário, num cenário de desemprego e inflação elevada, a renda diminui, e o nível de bem-estar da sociedade cai.

Como o emprego, o nível de salários e a inflação de bens e serviços (alimentos, energia, combustíveis, etc.) fazem parte da vida das pessoas, a percepção de melhora ou piora da economia é sentida diariamente. E, como o aperfeiçoamento dessas variáveis é influenciada pelas decisões do governo, é natural associar o desempenho econômico ao presidente.

Na percepção da maior parte do eleitor, quando a economia vai bem, é mérito do presidente. Quando vai mal, é porque o presidente falhou. A associação costuma ser quase direta sem levar em conta a influência de variáveis fora do controle dos governantes, como desastres naturais, pandemia, crises externas e choques de petróleo. Tampouco se leva em conta a herança deixada pelo seu antecessor, seja ela positiva, seja negativa.

Em 2003, Lula herdou uma casa arrumada do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e lidou com um cenário externo bastante favorável (liquidez internacional, crescimento da economia mundial e elevação dos preços das commodities). Para o eleitor, pouco importava a influência dessas variáveis no crescimento brasileiro. Boa parte da população atribuía a melhora da economia ao ex-presidente Lula.

Em primeiro plano, Marisa Letícia e Luiz Inácio Lula da Silva, ao lado de Fernando Henrique Cardoso e Ruth Cardoso, durante a posse de Lula em 2003. Atrás, aparecem Marisa Gomes e o marido, José Alencar, vice-presidente eleito | Foto: Reprodução/Agência Senado

Na mesma linha de raciocínio, parte do eleitor, ao avaliar o desempenho econômico do governo Bolsonaro, não leva em conta o rombo fiscal deixado pela ex-presidente Dilma (Temer o minimizou um pouco o estrago), a pandemia e a guerra entre Rússia e Ucrânia. Sem dúvida, o ambiente econômico para a administração Bolsonaro foi muito mais desafiador e hostil, em comparação aos anos de governo Lula.

Apesar do cenário bem mais difícil, o governo Bolsonaro conseguiu entregar um país melhor do que aquele deixado pelo último governo do PT, marcado por duas quedas históricas e consecutivas do PIB, próximas de 4%, e uma inflação acima de 10% em 2015. As quedas do PIB e o patamar de inflação nos últimos anos do governo do PT eram do nível de pandemia, sem ter tido uma pandemia!

Chama a atenção como o quesito corrupção perdeu relevância para impactar os resultados das eleições no Brasil, em comparação a 2018

Já no governo Bolsonaro, a despeito de todas as consequências da pandemia e da guerra entre Rússia e Ucrânia — inflação global, diminuição da liquidez internacional, elevação das taxas de juros no mundo, falta de insumos, gargalos nas cadeias produtivas, elevação do preço de commodities e crise energética —, o Brasil deverá apresentar um crescimento acima de 3% (projeção do FMI) e uma inflação abaixo de 6% (previsão do Relatório Focus do Banco Central). O desempenho do PIB e da inflação brasileira neste ano deverá ser melhor do que o dos EUA e o da Zona do Euro. Talvez, em 2022, o Brasil cresça mais do que a China, segundo as previsões do próprio FMI.

Diante desse cenário, uma pergunta se torna inevitável: se a melhora econômica afeta o desempenho do presidente, por que ele ficou atrás de Lula no primeiro turno das eleições?

Uma possível explicação é o recall da economia de parte dos eleitores durante o governo Lula. Como colocado anteriormente, alguns eleitores não levam em conta as diferenças conjunturais entre os governos Lula e Bolsonaro, considerando apenas critérios absolutos e simplistas na base de comparação. Para esse tipo de eleitor, a vida estava melhor durante o governo Lula.

Coincidentemente, Lula teve uma melhor votação nos Estados mais pobres, enquanto Bolsonaro foi melhor nos Estados mais ricos e produtivos, conforme tabela abaixo.

Uma segunda explicação para Bolsonaro ter tido menos votos que Lula no primeiro turno é que essa melhora econômica ainda é pequena diante de todo o cenário adverso vivido pelo brasileiro desde 2014. De 2014 a 2021, a média de crescimento foi de -0,10%. Dilma, greve dos caminhoneiros, Joesley Day, crise na Argentina, pandemia e conflitos geopolíticos afetaram diretamente o crescimento econômico do Brasil. Dessa forma, a percepção de melhora econômica diante de todos esses anos de desgraça é ainda relativamente pequena, sem ter dado tempo de os brasileiros sentirem efetivamente no bolso a recuperação iniciada neste ano.

Uma terceira hipótese é a campanha de setores da imprensa contra Jair Bolsonaro na questão sanitária da covid-19. Apesar do alto índice de vacinação do Brasil (tabela abaixo) — impossível sem o apoio do governo federal —, Bolsonaro foi rotulado como “antivacinas” e “negacionista”. Nesse sentido, para determinado tipo de eleitor, a questão sanitária pesou mais do que a melhora da economia.

Além dessas explicações, chama a atenção como o quesito corrupção perdeu relevância para impactar os resultados das eleições no Brasil, em comparação a 2018. Lula foi condenado por nove juízes, em três instâncias, e teve seu processo anulado porque, segundo o STF, o julgamento não deveria ter começado em Curitiba, mas em Brasília. O processo do ex-presidiário não foi anulado por mérito, mas pelo “CEP,” por um formalismo e uma filigrana jurídica. Isso mostra que não apenas a Lava Jato foi anulada, mas toda moral de parte dos brasileiros foi rebaixada nos últimos tempos. A lembrança da corrupção caiu no esquecimento, perdeu relevância, e Lula não foi penalizado nas urnas por parte do eleitorado.

Todas essas hipóteses ajudam a explicar a razão pela qual Bolsonaro ficou atrás de Lula no primeiro turno, apesar da surpreendente recuperação da economia em 2022. “Não é a economia, estúpido!”


Alan Ghani é economista-chefe da Sarainvest e ph.D. em Finanças

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