sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

"Acredite: o mundo está melhorando"

A pandemia atormenta nossa vida e há muitos outros desafios a superar. Mas o planeta está ficando cada vez melhor para todos nós




A cada 24 horas, 24 mil seres humanos morrem de fome nos cinco continentes. 

Mil por hora. 

Quase 650 milhões sobrevivem em situação de extrema pobreza, com menos de US$ 1,90 por dia (aproximadamente R$ 10). 

Os analfabetos somam 750 milhões de mulheres e homens espalhados pelo planeta e a rede de saneamento está fora do alcance de 4 bilhões de pessoas. 

Mas, acredite: o mundo está melhorando.

É o que mostram gráficos, mapas e diversos dados compilados pela Revista Oeste com base em números fornecidos por instituições de alta credibilidade. 

As estatísticas provam que, apesar de tudo, o mundo nunca foi um lugar tão bom para viver. 

O século 20 e este começo do 21 viram a diminuição da fome, das taxas de analfabetismo e da pobreza — e, simultaneamente, a expansão do uso de energia limpa, do acesso à informação e ao conhecimento, do desenvolvimento da medicina, da facilidade para viajar e do conforto para morar. 

Mais animador ainda: é possível aproveitar tudo isso por muito mais tempo.

Nos últimos 200 mil anos, a maioria das pessoas não completava 25 anos de vida. 

“A expectativa de longevidade global disparou no século 19 e depois dobrou no século 20, um piscar de olhos em termos evolutivos”, informou uma reportagem do jornal britânico The Guardian em outubro de 2020. 

Nem todos os lugares, convém ressalvar, melhoraram no mesmo ritmo. 

No Japão, por exemplo, as pessoas vivem em média até 85 anos. 

Na República Centro-Africana, apenas 53. Embora essas disparidades sejam chocantes, o prolongamento da vida é uma das maiores conquistas da humanidade.


No Brasil, enquanto a expectativa de vida de um bebê nascido em 1968 era em média de 58 anos, aqueles que nasceram em 2018 ultrapassarão facilmente os 75. 

Os principais responsáveis pelo fenômeno são os avanços da medicina, os cuidados preventivos com a saúde e a alimentação mais saudável. 

Cientistas garantem que já estão entre nós as crianças que viverão até os 150 anos. 

E é cada vez maior o número dos futuros centenários.

Não é pouca coisa, mas não é tudo: a mortalidade infantil é cada vez menor. 

“Restos humanos coletados em sociedades de caçadores-coletores apresentam taxas de mortalidade de até 70%”, constatou o The Guardian

Em meados do século 19, uma em cada duas crianças morria antes de completar 5 anos. 

Hoje, uma criança que morre antes de atingir a idade escolar é um evento relativamente raro. 

Calcula-se que seja 1 em cada 27 no mundo todo, em comparação com 1 em cada 11 em 1990.


No Brasil da década de 1940 morriam antes de completar 1 ano de idade quase 150 crianças em cada mil nascidas vivas. 

Outras 77, antes dos 5 anos. 

Em 2018, esses números caíram para 12 e 2, respectivamente.

Outro salto positivo ocorreu no campo da educação. 

Na década de 1950, a maioria das pessoas que viviam fora da América do Norte e da Europa Ocidental tinha menos de quatro anos de escolaridade. Passados 70 anos, a duração média do tempo de estudo dobrou. 

O número de crianças e adolescentes fora da escola também despencou. 

Na década de 1970, estavam nessa condição quase 30% daqueles que deveriam cursar o ensino fundamental. 

Hoje, esse total não chega a 10%.


Em 1820, apenas 10% das pessoas com mais de 15 anos sabiam ler e escrever. Essa proporção subiu para 30% em 1930. Hoje é de 85% no mundo todo. 

No Brasil, a taxa de analfabetismo em 1970 era superior a 30%. 

Em 2019, não passava de 7%. 

Os dados são menos animadores nas escolas públicas: 55% das crianças saem do 3º ano do ensino fundamental não alfabetizadas e quase 10% chega ao fim do ensino médio sem saber o suficiente de matemática. 

Depois de quase um ano de escolas fechadas por causa da pandemia de coronavírus, tal situação tem tudo para ficar ainda mais desoladora.

As carências no saneamento básico, uma das maiores vergonhas nacionais, tendem a se reduzir. 

Em 1989, menos de 50% dos habitantes dos municípios brasileiros tinham acesso à rede de coleta de esgoto. 

Em 2017, esse número superava os 60%. 

Com a aprovação no ano passado do novo Marco Legal do Saneamento Básico, que permite a ampliação de investimentos por parte da iniciativa privada, esse índice vai melhorar exponencialmente.

Em contrapartida, o serviço de telefonia deu consideráveis saltos qualitativos e quantitativos. 

Em 1990, havia 1 milhão de celulares e 10 milhões de telefones fixos. 

Naquela época, uma linha telefônica era tão rara e tão cara que os anúncios oferecendo aparelhos ocupavam páginas inteiras dos classificados dos jornais. 

Ter mais de um número de telefone era um luxo. 

O bem era declarado no Imposto de Renda e fazia parte do espólio legado pelos mortos a seus descendentes. 

Trinta anos e uma série de privatizações depois, existem quase 230 milhões de linhas móveis e 34 milhões de fixas no Brasil. 

O número é superior aos 210 milhões de habitantes.

Hoje, um smartphone é um computador portátil milhões de vezes mais eficaz do que todos os computadores da Nasa da década de 1960, quando a agência espacial norte-americana enviou dois astronautas à Lua. 

Nos países ricos, mais de 85% da população tem acesso à internet, enquanto a média nos países em desenvolvimento é de 43%.  Ainda assim, o crescimento da conectividade nas últimas décadas foi notável. 

Segundo a reportagem do The Guardian, “estima-se que 75 bilhões de dispositivos estarão conectados a cada pessoa, lugar ou empresa até 2025”.

“As mudanças positivas demoram mais, porque são construídas ao longo de décadas ou mesmo séculos”, observou o economista Max Roser, da Universidade de Oxford, autor de seis gráficos, publicados em seu site no fim de dezembro de 2017, que mostravam como a humanidade havia progredido nos últimos 200 anos. 

Roser destacou seis tópicos: pobreza extrema, educação, alfabetização, democracia, vacinas e mortalidade infantil.

“Há 130 mil pessoas a menos em situação de pobreza extrema que ontem”, ressaltou Roser, numa reportagem do El País

“Poderíamos ter repetido essa informação diariamente desde 1990. Em 1820, só uma pequena elite desfrutava de padrões de vida elevados, enquanto a ampla maioria enfrentava condições que hoje seriam classificadas de pobreza extrema. Em 1950, eram três quartos dos habitantes do planeta. Em 2016, a porcentagem caíra para 10%. Tudo isso graças ao crescimento da produtividade, que compensou o fato de a população ter se multiplicado por sete nos últimos 200 anos.”

No Brasil de 1979, por exemplo, era produzida 0,4 tonelada de alimentos para cada um dos 119 milhões de habitantes. 

Na safra de 2020, o agronegócio chegou a 1,2 tonelada para cada um dos 210 milhões de brasileiros.

“Evidentemente, devemos focar o que continua ruim para tentar melhorar”, observa Roser. O economista, entretanto, chama a atenção para a importância de perceber o que está indo bem, o que “nos anima a continuar”. 

“A principal mudança nos últimos 200 anos é que nos demos conta de que esses problemas têm solução”, disse. 

“Há dois séculos nem mesmo sabíamos que havia um problema.” 

O mundo, quem diria, está cada vez melhor.

Branca Nunes e Artur Piva, Revista Oeste