quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

'O confeiteiro', por Sérgio Rizzo

Cena do filme 'O confeiteiro' Foto: Divulgação
Cena do filme 'O confeiteiro' Foto: Divulgação

A Academia de Hollywood divulgou em meados de dezembro a lista de nove candidatos que ainda se mantêm na disputa pelas cinco indicações ao Oscar de filme estrangeiro em 2019. Quase todos são pesos-pesados, em geral destaques nos principais festivais do ano, como o mexicano “Roma”, o polonês “Guerra Fria”, o japonês “Assunto de Família” e o sulcoreano “Em chamas”.
“O confeiteiro”, o representante israelense na disputa, caiu na fase anterior (assim como o brasileiro “O Grande Circo Místico”). Mas houve quem defendesse que ele poderia ter chegado às “semifinais”, também impulsionado por uma boa carreira internacional — e consagrado por sete prêmios, incluindo os de melhor filme, direção e atriz, pela Academia de Cinema de Israel.
Essa coprodução com a Alemanha é ambientada inicialmente em Berlim, onde um executivo israelense (Roy Miller) conhece um confeiteiro alemão responsável por uma pequena e charmosa doceria (Tim Kalkhof). Quem se lembra de “Asas do desejo” (1987) — que, em alemão, tem como título “O céu sobre Berlim” — identificará referências ao filme de Wim Wenders no papel simbólico também desempenhado aqui pela cidade.
Um golpe do destino, no entanto, faz com que a maior parte da trama se passe em Jerusalém. Ali, o confeiteiro se aproxima da mulher (Sarah Adler) e do filho (Tamir Ben Yehuda) do executivo, em um cenário judeu ortodoxo. Inexperiente no comércio, ela dirige um café kosher e, a partir do que ocorre nele, assistimos a pequenos embates de fundo religioso que ecoam situações emblemáticas da sociedade israelense.
Essa é a cobertura, digamos, do biscoito fino e delicado que o diretor e roteirista Ofir Raul Graizer, 37 anos, oferece ao espectador em seu primeiro longa-metragem. A massa é feita de histórias de amor improváveis, difíceis e dolorosas, que a varinha mágica do cinema poderia solucionar com um mero toque simplificador de roteiro, mas que recebem aqui uma abordagem realista, sem deixar de lado o romantismo (o que seria dele sem contos impossíveis de amor para narrar?) e a poesia das imagens.
O Globo