sexta-feira, 17 de março de 2017

Trump e Merkel aparam arestas em 1º encontro na Casa Branca

Merkel e Trump fazem coletiva de imprensa na Casa Branca Foto: JIM BOURG / REUTERS
Merkel e Trump fazem coletiva de imprensa na Casa Branca - JIM BOURG / REUTERS
Com O Globo e agências internacionais


WASHINGTON — "Concordar em discordar" foi o tom do primeiro encontro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com a chanceler federal alemã, Angela Merkel. Na Casa Branca, nesta sexta-feira, os dois tentaram reforçar a relação entre os dois países e reduzir as divergências provocadas por seus estilos e políticas radicalmente distintos. Mas, na realidade, os dois ressaltaram suas diferenças a respeito da Otan, da Rússia, do comércio internacional e outros assuntos — até que Trump ironizasse que um raro ponto em comum entre eles seria o fato de que Merkel foi alvo de escutas da Inteligência americana, voltando a acusar o ex-presidente Barack Obama de fazer o mesmo com ele.

— Pelo menos temos alguma coisa em comum, talvez — disse aos risos Trump na coletiva de imprensa após o encontro, quando questionado sobre as acusações não fundamentadas via Twitter de que teve seu escritório grampeado a mando de Obama, mesmo após o próprio Congresso rejeitar ter achado qualquer evidência disto. — Às vezes me arrependo dos meus tuítes, mas muito raramente.

Em 2013, as revelações do ex-analista da CIA e da NSA Edward Snowden sobre espionagem em massa pelo governo americano mostraram que as comunicações de Merkel foram alvo de grampos da agência.

Trump destacou a importância da Otan, mas pediu que o país se comprometa mais financeiramente com a aliança militar. Diante de Merkel, ressaltou as ações dela para amenizar a situação militar na Ucrânia e em enfrentar o terrorismo islâmico. Mas foi crítico do política dela de portas abertas a refugiados.

— A imigração é um privilégio, não um direito. A segurança dos cidadãos deve vir primeiro, sem dúvidas — disparou Trump.

Questionado por repórteres, o presidente discordou de afirmações na imprensa de que parece buscar um governo que faça pouco caso das parcerias internacionais.

— Não sou um isolacionista. Isto são notícias falsas — criticou. — Não acredito em políticas isolacionistas, mas os EUA foram tratados muito injustamente, e isso tem que parar. Sou um livre comerciante, mas um comerciante justo.

Já Merkel manteve um tom conciliador ao se referir ao combate ao terror e as divergências que ambos tiveram durante a campanha eleitoral americana de 2016.

— É muito melhor falar um com o outro, não sobre o outro. Falamos sobre a situação internacional e os interesses comuns que temos — disse Merkel, que em outro momento defendeu suas políticas migratórias no auge da crise humanitária da Síria. — Temos que dar oportunidades para os refugiados.



Merkel e Trump se encontram no Salão Oval da Casa Branca - JONATHAN ERNST / REUTERS


Por outro lado, Merkel discordou de Trump: após o presidente americano afirmar que acordos de livre comércio tiraram postos de trabalho dos EUA, ela disse o contrário.

— Nós nos beneficiamos. Este é o espírito que deveria guiar estes acordos.

A reunião no Salão Oval foi marcada para terça-feira, mas uma tempestade de neve na Costa Leste do país forçou seu adiamento.

Depois do encontro, Trump deixa a Casa Branca à tarde para pegar o avião presidencial em direção a Flórida, onde deve seguir o costume desde o início de seu mandato de passar o fim de semana no clube Mar-a-Lago, em Palm Beach.



Merkel e Trump fazem coletiva de imprensa na Casa Branca - SAUL LOEB / AFP


PREOCUPAÇÕES EUROPEIAS

As declarações polêmicas e às vezes contraditórias de Trump nas poucas semanas em que está na Presidência aumentaram o interesse por seu primeiro encontro com Merkel. A Europa acompanhou de perto o encontro para ver a postura da chanceler, amplamente criticada por Trump durante a corrida eleitoral americana.

Com a aproximação da data, o governo americano destacou a "fortaleza" da relação com a Alemanha e a intenção de Trump de aproveitar a experiência da chanceler, em particular a respeito da questão ucraniana e na forma de abordar o presidente russo Vladimir Putin.

Para Merkel, que busca um quarto mandato e, a visita é como um exercício de malabarismo: deve confirmar o vigor dos vínculos transatlânticos, econômicos e militares, mas ao mesmo tempo manter uma certa distância do governo Trump



Presidente Donald Trump recebe a chanceler alemã, Angela Merkel, na Casa Branca - JIM BOURG / REUTERS


Um alto funcionário da Casa Branca antecipou um “encontro cordial e muito positivo”. A chanceler viaja com “a mente aberta”, disse uma fonte do governo alemão.

Trump criticou a Europa ao falar do “maravilhoso” Brexit ou com a previsão de que outros países abandonarão a UE. Não poupou críticas à Alemanha, com críticas ao papel dominante do país e o que chamou de “catastrófica” política de recepção aos refugiados.

— A Alemanha olha hoje para os Estados Unidos com um misto de perplexidade e preocupação — resumiu Jeffrey Rathke, do Center for Strategic and International Studies (CSIS).

O analista cita, em particular, os temores ligados “às afinidades do presidente e de alguns membros de seu círculo mais próximo com os movimentos nacionalistas e populistas na Europa”.