
Daniele Nogueira - O Globo
Vendas de carne bovina, frango e suíno representam 7% das exportações brasileiras
As irregularidades na produção de carnes de gigantes do setor encontradas pela Polícia Federal afetam a imagem do Brasil no exterior e podem levar à criação de barreiras fitossanitárias, prejudicando as exportações brasileiras, segundo especialistas. O país é o maior exportador de carne bovina e de frango, além de ocupar o quarto lugar nos embarques de suínos. Juntos, os três segmentos responderam por 7,2% das exportações em 2016 ou US$ 11,6 bilhões.
A operação da PF está majoritariamente focada em carne bovina, mas especialistas acreditam que a repercussão negativa se dará nos demais segmentos. Eles avaliam que as irregularidades são pontuais, mas o dano à imagem do país já foi feito, o que pode levar tanto ao endurecimento das exigências para a importação de carne como suspensão temporária da compra do produto brasileiro.
— É uma situação muito preocupante. Pessoalmente, acredito que as irregularidades sejam pontuais e devem ser investigadas. Mas é muito ruim para nossa imagem, para nossa reputação. Muitos países podem rever as exigências (fitossanitárias) e pedir para enviar equipes próprias para fiscalização — afirma Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e sócio da Barral M. Jorge.
DESCONTOS PARA MANTER VENDAS
No comércio internacional de carnes, cada país apresenta exigências específicas, a certificação de venda é individual. É comum que cada nação envie de tempos em tempos equipes próprias para fiscalização nos frigoríferos brasileiros. Da mesma forma, qualquer questionamento é feito individualmente e diretamente ao governo brasileiro, sem que haja necessidade de passar pela Organização Mundial do Comércio (OMC).
— Não será surpresa se algum país suspender as importações de carne brasileira. As empresas terão de adotar uma política de esclarecimento e serem bastante agressivas comercialmente. Para não perderem clientes, podem ter que oferecer descontos — avalia José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil.
Para onde o Brasil mais vende carne bovina?
Ranking dos maiores importadores do produto, em US$ (dados de 2016)
Caso algum país de fato levante barreira fitossanitária e o Brasil entenda que cumpre as exigências, aí sim o governo brasileiro pode recorrer à OMC para defender o acesso ao mercado que está fechado. Hoje, há dois casos na OMC envolvendo carne e frango brasileiros, ambos contra a Indonésia.
A operação da PF ocorre num momento em que o Brasil vinha abrindo mercado para a carne nacional. Em julho do ano passado, o país acertou com os Estados Unidos acordo para liberação de carne bovina “in natura” para os americanos, pondo fim a uma negociação que se arrastava desde 1999. Os dois países lideram a exportação de carne bovina, seguidos da Austrália. Os principais mercados consumidores de carne in natura são Hong Kong, China, Egito, Rússia e Irã. Considerando carne industrializada, Estados Unidos e Reino Unido são os principais importadores.
ASSOCIAÇÕES CONDENAM IRREGULARIDADES
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) não se manifestou. A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que reúne produtores de frangos e suínos, disse em nota que “falhas que eventualmente venham a ser comprovadas são exceções em um modelo produtivo que é referência para o mundo”. A associação condenou “quaisquer práticas comprovadas que impactem negativamente o consumidor do Brasil e do exterior” e disse que “todos os problemas detectados serão rapidamente corrigidos pelo setor”.
O presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), João Martins da Silva Junior, considerou as descobertas da PF “lamentáveis”. Defendeu que as irregularidades sejam apuradas “com rigor” e a “punição exemplar” dos envolvidos. “Não é justo que (produtores rurais) tenham a sua imagem maculada pela ação irresponsável e criminosa de alguns”, afirmou Silva Júnior.
A Confederação Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação e Afins (CNTA Afins) manifestou preocupação com os resultados da Operação Carne Fraca, destacando que os fatos apurados colocam em xeque a conduta das companhias e do governo em outras áreas.
"Este tipo de prática ilícita e antiética não é diferente para com os trabalhadores que, por muitas vezes, são submetidos a pressões psicológicas e ritmos frenéticos de trabalho, com grande número de adoecimentos e acidentes, em detrimento do lucro da empresa. O possível envolvimento do governo neste esquema nos traz insegurança e falta de credibilidade quanto a outros tipos de fiscalizações muito importante para nós, como as do Ministério do Trabalho, órgão sucateado há muitos governos", diz a nota.
A entidade cita ainda que o setor de frigoríficos é líder em acidentes do trabalho na área de Alimentação, com expansão de 8,7% entre 2012 e 2014, chegando a 19.821 ocorrências.