A entrevista do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Carlos Augusto Ayres de Freitas Britto ao Correio Braziliense leva a uma questão fundamental nesse momento gravíssimo que o Brasil atravessa:
Se este fosse um país sério, a presidente Dilma Rousseff, que até agora não teve a dignidade de abandonar o Palácio do Planalto, faria isso ainda neste domingo. Afinal, Ayres Britto é uma figura ética e moral muito acima da média dos homens públicos atuais.
Sobre a desmoralização que assola o país desde 2003, que teve por enquanto dois momentos extremamente vergonhosos, o mensalão e o petróleo, Ayres Britto diz experimentar ´um misto de desalento e de alento. O desalento é perceber que a corrupção no Brasil é sistêmica, é atávica, é impressionante. Isso me remete, desalentadoramente, ao padre Antônio Vieira, por volta de 1650, 1654, ele disse num trocadilho muito bem colocado: “Os governadores chegam pobres às índias ricas e retornam ricos das índias pobres”. E o alento é que a Constituição combate a corrupção. No artigo 37, está dito: os atos de improbidade administrativa importarão perda da função pública. Suspensão dos direitos políticos, indisponibilidade dos bens e ressarcimento ao erário. Melhor impossível. A Constituição joga duro com a corrupção.
Ayres Britto lembra que Dilma é chefe de governo e só precisa da Constituição. E é chefe da administração pública, e aí precisa da Constituição. Mas também exerce uma terceira chefia. Ela é chefe de Estado, protagoniza as relações internacionais do Brasil. Chefe da administração, chefe do governo e chefe do Estado. É muito poder, é imperial. Aí você exige que o presidente seja um estadista, um governante e um administrador. Quando falha nas três, a coisa fica delicada. E parece que é a situação da Dilma. Já não se reconhece nela nenhuma das três qualidades. O que se espera de Dilma? Ainda nos marcos da Constituição, ela foi eleita para governar quatro anos. Foi eleita democraticamente. E o que se espera? O desafio dela é se reinventar.