quarta-feira, 1 de abril de 2015

Senado vai investigar rombo de mais de R$ 5 bi no fundo de previdência dos Correios — que os 120 mil empregados serão obrigados a cobrir

Com Blog Ricardo Setti - Veja




Servidores perderão 25% de seus salários durante mais de 15 anos

(Ilustração: 123rf.com)
(Ilustração: 123rf.com)

Por Yuri Hage (*)
A partir de hoje, 1º de abril, 120 mil empregados filiados e quase 500 mil dependentes dos colaboradores da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) serão obrigados a cobrir o rombo de R$ 5,6 bilhões no Postalis, o Instituto de Seguridade Social dos Correios e Telégrafos.
Os funcionários dos Correios terão 25% seus salários descontados pelo período de 15 anos e 5 meses.
De acordo com o que está sendo colocado aos contribuintes do Postalis, um funcionário que receba um salário de R$ 5 mil, por exemplo, terá cerca de R$ 1.250 direcionados compulsoriamente para tapar o buraco deixado pelos responsáveis por gerir o fundo. Este percentual extra será pago pelos funcionários que entraram até 2008, cerca de 75% dos colaboradores dos Correios.
Informações divulgadas recentemente pela imprensa apontam como causa para o rombo a falta de transparência e ingerência política no fundo do Postalis e fazem ligação direta aos investigados pela Operação Lava Jato. Durante as investigações, foi encontrado pela Polícia Federal e-mails do doleiro Alberto Youssef atribuindo relação direta do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, à aplicação de R$ 73 milhões das fundações Petros e Postalis.
Nesta quarta-feira, 01, o assunto foi tema de discussão no plenário do Senado Federal, em Brasília. O senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) lembrou que os problemas no fundo de previdência da ECT se arrastam desde 2008 e que desde então nada havia sido feito para conter os casos de corrupção no Postalis.
– Somente agora, com as investigações da Polícia Federal em curso é que passamos a entender o motivo da displicência do então presidente Lula, que tratou com descaso a situação no Postalis, em 2008 — afirmou o senador.
– São muitas as operações controversas que utilizam recursos do fundo de previdência dos trabalhadores dos Correios. São várias as notícias sobre a perda de R$ 190 milhões com papéis lastreados em títulos de dívida da Argentina e a compra de notas relacionadas à dívida externa da Venezuela. São exemplos de como o dinheiro suado de carteiros e demais colaboradores da ECT vinha sendo utilizado, de forma inclusive, absolutamente irresponsável.
Em 2008, a diretoria do Postalis apresentou relatório aos beneficiários do fundo previdenciário, apresentando rombo no Plano de Benefício Definido (PBD). “À época, foi repassado aos beneficiários que o saldamento seria a medida mais acertada, pois fortaleceria o plano”, prosseguiu Flexa Ribeiro. “Sete anos depois, ao invés de aparentar a robustez assegurada aos beneficiários, os trabalhadores dos Correios são forçados a contribuírem para tapar o rombo de R$ 5.6 bilhões”.
Investimentos fora da curva
Em entrevista ao jornal Valor Econômico, André Luis Carvalho da Motta e Silva, que assumiu o posto de diretor financeiro do Postalis há cerca de um ano, afirma que “há investimentos que são fora da curva”. Segundo o diretor, o maior plano da fundação, com déficit já contabilizado de R$ 5,6 bilhões, tem ativos extremamente ilíquidos, que ainda continuarão afetando a performance futura do fundo.
O diretor informou que, no ano passado, quase quintuplicou as provisões para perdas de investimentos que concentram em títulos de crédito privado e investimentos estruturados, como fundos que compram participação em empresas. Esses dois tipos de aplicação compõem grande parte da carteira da fundação, algo bastante incomum entre fundos de pensão brasileiros, que têm um perfil mais conservador.