quarta-feira, 1 de abril de 2015

Investimentos da Petrobras têm pior desempenho dos últimos sete anos

Dyelle Menezes - Contas Abertas


Os investimentos da maior empresa do país parecem não ter suportado a pressão da crise. As aplicações em obras e na compra de equipamentos da Petrobras caíram em quase 20%, em termos reais, no primeiro bimestre de 2015 na comparação com o mesmo período de 2014. O valor é o menor desde 2009 para os meses de janeiro e fevereiro.
A queda se une a outros indicativos ruins, como o aumento de gastos com importação de combustíveis, a explosão do endividamento e a diminuição do lucro. Como consequência, as ações despencaram na bolsa e o valor de mercado da companhia derreteu.
Petrobras Nos dois primeiros meses deste ano a Petrobras investiu R$ 11 bilhões contra os R$ 13,3 bilhões aplicados em 2014. A previsão das aplicações também caiu de um ano para o outro. Em 2015, R$ 83,5 bilhões foram autorizados no orçamento de investimento da estatal. Para 2014, a dotação no período era R$ 84,6 bilhões.
Apesar disso, apenas um terço dos investimentos previstos na Lei Orçamentária Anual já está autorizado a ser desembolsado, o que representa R$ 27,8 bilhões no caso da Petrobras. A delimitação acontece porque o orçamento ainda não foi sancionado pela presidente da República. Assim, o que vale até o momento é medida provisória que autoriza a execução das aplicações.
Os dados estão em valores constantes, atualizados pelo IGP-DI, da Fundação Getúlio Vargas. As informações fornecidas pela própria Petrobras são uma da únicas formas de acompanhar os investimentos das estatais brasileiras.
A principal ação da companhia em 2015, em termos de recursos previstos é a de “desenvolvimento da produção de petróleo e gás natural – pré-sal”, que conta com R$ 4,3 bilhões do orçamento disponível. No primeiro bimestre, R$ 1,9 bilhão foi efetivamente aplicado na iniciativa. Já a rubrica de exploração de petróleo e gás natural em bacias sedimentares marítimas conta com R$ 3,1 bilhões, porém, apenas R$ 631 milhões foram desembolsados.
A diminuição nos investimentos acontece no início da nova gestão, a cargo do ex-presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, escolhido por Dilma Rousseff para substituir Graça Foster na presidência da Petrobras. A companhia, no entanto, não quis comentar os números.
A queda nos investimentos se une a outros problemas que a empresa vem enfrentando. De fevereiro de 2012 a dezembro de 2014, as ações da Petrobras se desvalorizaram mais de 60% e a companhia encolheu mais de R$ 200 bilhões na bolsa, caindo para o 4º lugar no ranking das maiores da Bovespa. O valor de mercado caiu para menos de R$ 110 bilhões no fechamento do mês de janeiro, o equivalente a um terço dos R$ 330 bilhões da posição da companhia na bolsa em fevereiro de 2012.
Já o endividamento líquido da Petrobras passou do patamar de R$ 100 bilhões no início de 2012 para mais de R$ 260 bilhões no final de setembro de 2014, segundo o último balanço divulgado, o que levou a Petrobras a ganhar o título de “petroleira de capital aberto mais endividada do mundo”.
O Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) estima que, desde 2012, a companhia deixou de ganhar mais de R$ 48 bilhões em função da defasagem dos preços da gasolina e do diesel vendidos no Brasil, em relação aos valores internacionais. No acumulado de 2014, a perda com o chamado custo de oportunidade desperdiçada teria superado os R$ 10 bilhões.
A sangria é apontada como uma das razões para a queda do lucro da Petrobras no ano anterior. De um ganho de mais de R$ 33 bilhões em 2011, a companhia registrou lucro líquido de R$ 21,18 bilhões em 2012 e de R$ 23,57 bilhões em 2013. No acumulado de janeiro a setembro de 2014, o lucro foi de R$ 13,439 bilhões, uma queda de 22% frente ao mesmo período do ano passado.
Dificuldades de caixa
A Petrobras enfrenta dificuldades de caixa para financiar novos projetos e já admitiu que terá que rever mais uma vez o seu plano de negócios. A empresa previa investimentos de US$ 220,6 bilhões para o período entre 2014 e 2018. No plano estratégico anterior, de 2013 a 2017, eram previstos US$ 236,7 bilhões.
Para complicar ainda mais o cenário de “inferno astral”, os preços do petróleo caíram para níveis de 2009, abaixo dos US$ 50, o que diminui a rentabilidade de projetos no pré-sal.
Denúncias
Os negócios da Petrobras começaram a ficar sob suspeita a partir de indícios de superfaturamento na construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e de pagamento de propina a funcionários da petroleira pela companhia holandesa SBM Offshore. Mas foram as suspeitas de superfaturamento e evasão de divisas na compra da refinaria de Pasadena, no Texas, que colocaram a companhia de vez nas manchetes dos jornais.
Segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), o negócio causou à estatal um prejuízo de US$ 792,3 milhões. Em decisão preliminar, a Corte determinou, em 2013, o bloqueio dos bens de 11 atuais e ex-diretores da estatal, entre eles o antecessor de Graça Foster na presidência da empresa, José Sérgio Gabrielli.
À época, a principal executiva da petroleira admitiu que a compra da refinaria nos EUA “não foi um bom negócio”, mas afirmou que, na época, a aquisição foi aprovada por unanimidade pelo Conselho de Administração e estava dentro da diretriz da estatal de expandir o refino de óleo no exterior.
Operação Lava Jato
A operação Lava Jato foi deflagrada em março do ano passado e dois ex-diretores da Petrobras tiveram a prisão decretada, além de executivos e sócios de construtoras e doleiros. Segundo as investigações, diretorias da estatal fraudavam contratos com empresas fornecedoras para obter o pagamento de propinas.
A Justiça já aceitou a denúncia de dezenas de investigados. Informações divulgadas pelo Ministério Público Federal (MPF) apontam que os crimes investigados pela Lava Jato desviaram ao menos R$ 2,1 bilhões da Petrobras. Até o momento, a procuradoria apresentou 18 acusações criminais contra 86 pessoas por crimes como corrupção, contra o sistema financeiro, tráfico internacional de drogas, formação de organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Fora do Brasil, a Securities and Exchange Commission (SEC), que regula o mercado de capitais no país, abriu uma investigação sobre a Petrobras. A empresa ainda enfrenta ações movidas por acionistas nos Estados Unidos que a acusam de ter divulgado informações enganosas e de ter superfaturado o valor de suas propriedades.
Influência em outras áreas
O lucro líquido do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) teve crescimento de 5,4% em 2014, na comparação com o ano anterior. Os valores alcançaram R$ 8,594 bilhões, ante R$ 8,150 bilhões registrados em 2013. Apesar do desempenho, dados apontam perdas equivalentes a R$ 2,6 bilhões e destacam que o principal componente foi o investimento nas ações da Petrobras.
De acordo com o órgão, este foi o terceiro maior lucro da história do Banco. A perda com as ações da Petrobras foi citada por causa da queda prolongada e significativa no valor de mercado das ações da petroleira.