quinta-feira, 6 de março de 2014

TSE resolve que Dilma 'trambique' pode transformar Alvorada em comitê do "Barba", porque é a 'casa dela'

ELEIÇÕES 2014: Comitê eleitoral para Dilma dentro do próprio Alvorada pode. O TSE já resolveu que sim, porque é a residência da presidente. Mas, durante o expediente de trabalho?

Blog Ricardo Setti - Veja
 
COMITÊ DO PT – Palácio do Alvorada vira escritório da presidente para receber os aliados que comandarão sua campanha em outubro (Foto: Ricardo Stuckert / Instituto Lula)
COMITÊ DO PT – Palácio do Alvorada vira escritório da presidente para receber os aliados que comandarão sua campanha em outubro (Foto: Ricardo Stuckert / Instituto Lula)

Transformar a residência oficial da Presidência da República em uma extensão do diretório do PT, como ocorreu ontem, em Brasília, não encontra obstáculo na questão de utilização indevida de edifícios públicos para fins eleitorais.

O Tribunal Superior Eleitoral já tem decisão consolidada de que, sim, um presidente pode conduzir reuniões eleitorais ali porque, enquanto está no poder, o Alvorada é sua residência.

O problema, com a reunião feita pela presidente Dilma ontem, no Alvorada, com seus principais conselheiros — a começar pelo seu patrono, o ex-presidente Lula, passando pelo marqueteiro João Santana e o ex-ministro da Comunicação Franklin Martins — é outro: Dilma resolveu debater os rumos de sua campanha à reeleição, a montagem de palanques e as chapas do partido nos Estados em pleno horário de expediente.

Ela tinha passado o Carnaval na base da Marinha em Aratu, na Bahia, e seu primeiro compromisso foi essa reunião — como se o Brasil não tivesse qualquer problema a ser tratado.

Lula chegou ao palácio para o encontro ainda antes das 18 horas — dentro, portanto, do horário de expediente. E fez-se a reunião eleitoral e eleitoreira sem qualquer problema, como se a presidente estivesse tratando dos grandes temas nacionais, como a inflação, o buraco nas contas externas ou a paralisação da economia, e não de seus interesses eleitorais.

Dilma lançou mão do que já chamei de “doutrina Paulo Bernardo”, por causa do inesquecível dia 25 setembro de 2010, quando Lula, presidente e palanqueiro, esteve em Maringá (PR) em viagem oficial, com todo o esquema da Presidência mobilizado, mas não deixou de pedir votos para a então candidata Dilma e para Osmar Dias (PDT), seu candidato (derrotado) ao governo do Estado.
Lula não falou com a imprensa, com quem para variar andava às turras. A tarefa coube a Bernardo, atual ministro das Comunicações, então ministro do Planejamento.

Acossado por repórteres de rádio que lhe perguntaram se era correto Lula fazer propaganda em viagem oficial, o ministro saiu-se com esta:

– Mas ele falou na hora do almoço! Que me conste, horário de almoço não faz parte do expediente.
Pela peculiaríssima doutrina constitucional de Bernardo, que é bancário, o almoço seria, então, um intervalo no exercício da Presidência.

Como o presidente, quando tomava café, almoçava e jantava não tinha o costume de transmitir o poder ao então vice José Alencar, isso significava que, durante suas refeições, segundo a “doutrina Bernardo”, não haveria ninguém governando o Brasil.

Tudo para justificar o injustificável: Lula usava indevidamente o cargo na campanha por sua candidata, era multado volta e meia pela Justiça Eleitoral, zombava dela, e tudo ficava por isso mesmo.

Dilma parece seguir o mesmo caminho e seguir à risca a “doutrina Bernardo”. Só faltou alguém dizer que, durante a reunião com seu pessoal de campanha, a presidente na realidade não estava sendo presidente porque estava na hora do lanchinho da tarde.