sexta-feira, 7 de março de 2014

Dólar sobe 1,16% e fecha a R$ 2,34 após dados mostrarem recuperação do mercado de trabalho nos EUA

 

  • Criação de vagas surpreendeu e dólar voltou a ganhar força frente ao real e no exterior. Foi a maior alta percentual em um mês
  • Números ruins da balança comercial e do fluxo cambial também pesaram no humor dos investidores
  • Preço do minério de ferro recua e ações da Vale voltam a ser afetadas, pressionando o Ibovespa, que cai mais de 1%
 
João Sorima Neto - O Globo
Com agências internacionais
 
 Com dados mais fortes do mercado de trabalho americano, o dólar teve um rodada global de valorização frente a outras divisas, incluindo o real. No fim da sessão, a moeda americana terminou negociada a R$ 2,346 na compra e R$ 2,348 na venda, uma valorização de 1,16%, a maior alta percentual em um mês. Na mínima do dia, a moeda americana chegou a R$ 2,323 (alta de 0,08%), enquanto na máxima chegou a R$ 2,349 (valorização de 1,20%). Na semana mais curta por causa do feriado de carnaval, o dólar fechou com valorização de 0,12%, mas no ano a moeda americana ainda recua 0,38% frente ao real.

O mercado foi surpreendido com a criação de 175 mil novas vagas em fevereiro, mais do que as 145 mil esperadas pelos analistas. O número de janeiro também foi revisado para cima - de 113 mil para 129 mil novos postos. Mas a taxa de desemprego subiu de 6,6% para 6,7%. Os analistas previam que ela caísse a 6,5%. A leitura é que a maior economia do mundo continua se expandindo e o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, deverá manter o ritmo de retirada dos estímulos à economia.

- A criação de novas vagas veio mais forte do que o esperado e fez o dólar subir. Os dados mostraram que a recuperação da economia americana continua e que os números do emprego haviam sido afetados negativamente pelo rigoroso inverno, no início do ano. Com isso, o programa de estímulos à economia, através da compra mensal de títulos, continuará a ser reduzido pelo banco central americano - avalia Reginaldo Siaca, superintendente de câmbio da Advanced Corretora.

Para o analista da Guide Investimentos, Luis Gustavo Pereira, o mercado esperava números mais fracos de criação de vagas, e o dado surpreendeu.

- Além disso o dólar estava muito ‘socado’ a R$ 2,30, e agora ganha força com sinais de recuperação mais forte da economia americana - diz o analista.

No exterior, o dólar também recuperou força frente a outras divisas, inclusive frente ao euro, que ontem ganhou força após o Banco Central Europeu manter a taxa de juro em 0,25% ao ano nos países da zona do euro.

A moeda americana já tinha começado o dia em alta, ainda embalada pelos números decepcionantes da balança comercial brasileira e do fluxo cambial divulgados ontem.

Para o economista e sócio da corretora de câmbio NGO, Sidnei Nehme, os dados da balança comercial no primeiro bimestre do ano são preocupantes. Já há um saldo acumulado negativo de US$ 6,183 bilhões. Ele lembra, entretanto, que neste período, começam as negociações de câmbio das safras agrícolas, especialmente da soja, o que poderá aliviar um pouco este pesado déficit inicial. Mas a tendência negativa para o saldo da balança comercial não deve ser não alterada.

E os dados negativos do fluxo cambial confirmam que a entrada de divisas estrangeiras no país continua fraca, diz Nehme. Fevereiro terminou com um saldo negativo no fluxo cambial de US$ 1,856 bilhão, consumindo o superávit de US$ 1,610 bilhão obtido em janeiro. O saldo final acumulado do bimestre é negativo em US$ 246 milhões.

Dólar deve manter tendência de alta

Em relatório assinado pelo economista Roberto Padovani, a Votorantim Corretora avalia que a apreciação recente do real em relação ao dólar não indica uma reversão da tendência observada desde meados do ano passado.

"Ainda que algum excesso de pessimismo possa ter sido corrigido, os fundamentos econômicos sugerem que o alívio atual na taxa de câmbio será temporário. Algum exagero pode ter sido retirado da moeda brasileira, aproximando-a de um patamar que consideramos mais adequado no curto prazo. No entanto, ainda vemos uma tendência de depreciação, com o câmbio acima de 2,40 no final do ano", diz o relatório.

Nesta manhã, o Banco Central fez novo leilão de contratos de swap cambial, operação que equivale a uma venda de moeda americana no mercado futuro. Foram ofertados 4 mil contratos, no total de US$ 197,8 milhões. Mas o leilão não reverteu a trajetória de alta do dólar.

Bolsa abre em queda, mas inverte sinal

Na Bolsa de Valores de São Paulo, o Ibovespa, índice de referência do mercado brasileiro, abriu o dia em queda, inverteu o sinal após a divulgação dos dados do mercado de trabalho americano, mas voltou a cair. No fim da sessão, o índice se desvalorizou 1,80% aos 46.244 pontos e volume negociado de R$ 7,3 bilhões, puxado pela queda da Vale, siderúrgicas e elétricas.

Na Europa, as principais Bolsas fecharam em queda com as atenções voltadas para a crise na Ucrânia e dados mais fortes do mercado de trabalho nos EUA, que indicam que o Fed vai continuar a retirada dos estímulos à economia. Nos EUA, os principais índices acionários estavam em baixa no fim da tarde.

Entre as ações mais negociadas no pregão brasileiro, os papéis preferenciais (sem direito a voto) classe A da Vale perderam 3,62% a R$ 27,10, enquanto as ações ordinárias (com direito a voto) da mineradora recuaram 3,77% a R$ 30,56. Já as ações preferenciais da Petrobras perderam 0,81% a R$ 13,32. Os papéis da Vale voltaram a ser pressionados pela queda do preço do minério de ferro no mercado internacional, num cenário mais pessimista para o setor de mineração.

O valor da tonelada chegou a US$ 114,20 - menor patamar em oito meses - pressionando as ações do setor de mineração e também de siderurgia. Somente nessa semana, a commodity já se desvalorizou 3,3%. As estimativas de preço médio do minério de ferro para o ano permanecem em torno dos US$ 120/tonelada.

- Os números positivos do ‘pay-roll’ até fizeram a Bolsa inverter a queda verificada na abertura e subir, logo após a divulgação. Mas acabaram ficando em segundo plano, com os investidores de olho no preço do minério de ferro. Algumas corretoras preveem que o valor da tonelada do produto pode cair ainda mais com os sinais de desaceleração econômica na China. Com isso, o desempenho da Vale na semana está sendo um desastre. Acredito que nossa Bolsa está muito ‘achatada’ e que uma hora haverá um efeito de manada na ponta de compra. O problema é que todos os dias aparecem notícias negativas - avalia Álvaro Bandeira, economista da Órama.

Entre as maiores baixas do Ibovespa estão as ações de siderúrgicas. As ações preferenciais Classe A da Usiminas recuaram 5,60% a R$ 9,09, a segunda maior baixa do pregão, enquanto as ações ordinárias da Siderúrgica Nacional tiveram queda de 5,08% a R$ 9,18.

Também apareceram na lista das maiores quedas as ações de elétricas. os papéis ordinários da Light recuaram 5,92% a R$ 15,87, a maior baixa do pregão; Cesp PNB, com baixa de 5,18% a R$ 21,23, terceira maior queda do pregão; Energias BR ON, recuo de 4,98% a R$ 8,20, quarta maior baixa do Ibovespa, e Eletrobras, com perda de 4,69% a R$ 4,67, quinta maior baixa.

Novamente voltou a pesar sobre o humor dos investidores a incerteza em relação a um possível racionamento e como será dividida a conta pelo uso das termelétricas. Reportagem do jornal ‘Valor Econômico’ mostrou que a conta do uso das termelétricas pulou de R$ 1,8 bilhão para R$ 3,5 bilhões para as distribuidoras, entre janeiro e fevereiro.

- Alguém vai ter que arcar com essa conta. Ou o governo terá que repassar recursos às distribuidoras para evitar aumento na conta do luz. Ou o governo

Também está na pauta dos investidores o primeiro calote de títulos de dívida privada emitidos por uma companhia chinesa. A Shanghai Chaori Solar, uma empresa de painéis solares, pagou apenas uma parcela, estimada em cerca de 4,4%, do total de 89,8 milhões de yuans (US$ 14,6 milhões) que devia em juros de títulos emitidos há dois anos. Alguns analistas acreditam que o episódio pode provocar uma venda maciça de títulos privados, com investidores temendo novos calotes. Mas traders chineses afirmaram que o mercado se mostrava calmo.

Os papéis de bancos também recuam nesta sexta. As ações preferenciais do Itaú Unibanco perdem 1,86% a R$ 31,00, enquanto as preferenciais do Bradesco perdem 1,03% a R$ 27,72.

Juros futuros têm mais um dia de alta

As taxas dos depósitos interfinanceiros (DIs) também estão em alta, acompanhando a valorização do dólar e a taxa dos Treasuries, títulos do Tesouro americano, que se valorizam. O rendimento destes papéis saiu de 2,70% para 2,80%. A taxa do DI para julho de 2014 subia de 10,79% para 10,81%, e a taxa do contrato com vencimento em janeiro de 2017 avançava de 12,37% para 12,53%.