Aversão a emergentes faz dólar subir 1,17% e encerrar negociado a R$ 2,42
- Mercado também está de olho na reunião do Federal Reserve, que começa amanhã e termina na quarta-feira
- Banco Central americano pode anunciar mais um corte de US$ 10 bilhões em estímulos à economia
- Ibovespa fecha em queda de 0,18%, abaixo dos 48 mil pontos
João Sorima Neto - O Globo
Com agências internacionais
A aversão aos ativos de países emergentes - moedas e ações - se manteve nesta segunda-feira, dando continuidade ao movimento iniciado na semana passada. O nervosismo é potencializado, segundo analistas, pela reunião do Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos), que acontece na próxima quarta-feira. Além de decidir a política monetária do país, o Fed poderá cortar em mais US$ 10 bilhões os estímulos mensais à economia americana. Por isso, o dólar deverá ficar pressionado nos próximos dias.
- Acredito que o Fed deve cortar os estímulos em US$ 10 bilhões, mesmo com dados menos favoráveis do mercado imobiliário e do emprego. O resultado será um dólar mais alto por aqui, já que a tendência é ‘sobrar’ ainda menos capital para os países emergentes - avalia Álvaro Bandeira, economista da Órama.
O dólar iniciou a sessão desta segunda-feira em alta, reverteu a tendência após o leilão de dólares no mercado futuro feito pelo Banco Central, mas voltou a subir. No fechamento, a moeda americana encerrou negociada a R$ 2,423 na compra e R$ 2,425 na venda, uma alta de 1,17% e a maior cotação desde o dia 22 de agosto do ano passado, quando a moeda americana fechou a R$ 2,432. Na máxima do dia, a moeda atingiu o patamar de R$ 2,428 (alta de 1,29%) e na mínima foi negociado a R$ 2,391 (queda de 0,25%). No câmbio turismo, utilizado pelos turistas que vão ao exterior, a moeda americana fechou negociada a R$ 2,59, uma alta de 2,37%.
No exterior, as moedas de países emergentes, como a lira turca, o rand sul-africano e o peso mexicano, também se depreciaram frente ao dólar. Mas o real teve uma baixa mais expressiva.
O BC ofertou 4 mil novos contratos de swap cambial, o equivalente a US$ 197,2 milhões. Também rolou 25 mil contratos que vencem em 3 de fevereiro, totalizando US$ 1,2 bilhão. De acordo com o boletim Focus, compilação feita pelo Banco Central com economistas do mercado, a estimativa para a cotação do dólar comercial no final de 2014 foi mantida em R$ 2,45 e, para 2015, a expectativa permaneceu em R$ 2,50.
O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, disse na manhã, em palestra na London School of Economics, que a "depreciação do real desde o pico de julho de 2011 até agora é um movimento normal".
"Diante disso, estamos agindo para evitar o repasse desse movimento para a inflação", afirmou ele.
Para o economista do Bradesco, Octávio de Barros, as preocupações com o ritmo da atividade chinesa e o impacto da retirada de estímulos à economia dos EUA sobre as economias emergentes ampliaram a aversão ao risco presente na última semana.
- O cenário de aversão ao risco pressiona as moedas de países emergentes, que perdem valor frente ao dólar - diz relatório do Bradesco, divulgado nesta manhã.
Os investidores ampliaram a aversão aos ativos de mercados emergentes depois de números mais fracos da indústria chinesa terem sinalizado que o crescimento econômico pode estar desacelerando este ano. O mercado acompanha também a situação na Argentina e Turquia, que têm sofrido com uma forte desvalorização das suas moedas.
No país vizinho, a crise cambial está na pauta dos investidores. Hoje, o governo anunciou as novas regras para a compra de dólares por poupadores, uma tentativa de frear a fuga de divisas. A moeda americana se mantém a 8 pesos no câmbio oficial, mas no paralelo está valendo 12 pesos. E e a turbulência política na Turquia também preocupa. O governo anunciou uma reunião extraordinária de política monetária para esta terça-feira. A expectativa é que o governo turco aumente os juros.
- Em relação ao Brasil, o desconforto dos investidores está centrado na desconfiança de que os fundamentos da economia brasileira se deteriorarão em 2014, ano de eleições e compromissos com a realização da Copa do Mundo de Futebol. O discurso de austeridade da presidente Dilma Roussef foi bem recebido em Davos, na Suíça, mas o o governo precisa entregar resultados - diz o economista de um banco de São Paulo.
Juros futuros sobem
No mercado de juros futuros, as taxas dos contratos de Depósitos Interfinanceiros (DIs) fecharam em alta acompanhando o dólar. O Boletim Focus, divulgado nesta segunda pelo banco Central, apontou expectativa de elevação de 0,50 ponto percentual na Selic (taxa básica de juros) na próxima reunião do Copom, em fevereiro. Para 2014, a projeção subiu de 10,75% ao ano para 11%. Para 2015, os analistas consultados pelo Focus mantiveram a aposta em taxa básica de 11,50%. O contrato para janeiro de 2015, teve alta de 11,13% para 11,20%, enquanto os DIs para janeiro de 2017 avançaram de 12,61% para 12,73%.
Bovespa inverte sinal e cai
A aversão ao risco também chegou à Bolsa de Valores de São Paulo, que abriu em alta, manteve a tendência até o início da tarde, mas virou para o negativo acompanhando as principais Bolsas americanas. O Ibovespa fechou em queda de 0,18% aos 47.701 pontos e baixo volume negociado de R$ 5,6 bilhões, o que mostra a cautela dos investidores em tomar posições antes da decisão do Federal Reserve.
Entre as ações mais negociadas do índice, Vale PNA caiu 0,31% a R$ 28,55; Petrobras PN teve leve alta de 0,06% a R$ 15,12; Itaú Unibanco PN subiu 2,01% a R$ 29,86 e Bradesco PN se valorizou 0,49% a R$ 26,50.
Para o economista Álvaro Bandeira, da Órama, a Bolsa brasileira só tem chance de recuperação, no curto prazo, se pegar carona nos mercados externos. O fluxo de recursos para a Bovespa é baixo, e as perspectivas são de alta de juros para combater a alta da inflação, o que deve impactar no crescimento econômico do país. Segundo levantamento da UM Investimentos, os investidores institucionais já retiraram R$ 908 milhões em janeiro da Bovespa.
- O mercado deve ficar cauteloso até sair a decisão do Fed, na quarta-feira - diz Bandeira.
A maior alta do Ibovespa foi apresentada pelo papéis ordinários da construtora Brooksfield, que se valorizaram 4,03% a R$ 1,29. A empresa confirmou nesta manhã, em comunicado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que estuda alternativas estratégicas para a Brookfield Incorporações. A avaliação que está sendo feita em conjunto com o controlador indireto integra a realização de uma oferta pública de aquisição de ações (OPA) para fechamento de capital e a capitalização da empresa por meio de uma emissão de novas ações. Rumores sobre o assunto fizeram as ações da empresa terem uma alta de 19% na quinta-feira passada.
Segundo o comunicado, uma decisão sobre as alternativas deve ser concluída em 120 dias. A empresa "dará divulgação imediata" da decisão, diz o comunicado.
A maior queda do Ibovespa foi apresentada pelas ações preferenciais da Oi, que se desvalorizaram 4,94% a R$ 4,04.
Fora do índice, os papéis ordinários da B2W dispararam nesta segunda após o anúncio na sexta-feira de um acordo de subscrição de ações entre sua controladora, Lojas Americanas, e a Tiger Global Brazil. No fechamento, os papéis subiram 41,54% a R$ 21,94. O acordo aprovado pelo Conselho de Administração prevê um aumento de capital privado de R$ 2,38 bilhões, respeitando o direito de preferência dos atuais acionistas. Com isso, serão emitidas 95,2 milhões de ações ao preço de R$ 25, valor 61,29% superior ao do fechamento da última sexta-feira.
A maior queda do Ibovespa é apresentada pelas ações preferenciais da Oi, com queda de 3,76% a R$ 4,09.
Bolsa na Ásia recuam
As bolsas asiáticas fecharam com perdas nesta segunda-feira, pressionadas pelas fortes desvalorizações das moedas emergentes na semana passada. Na China, os mercados já realizaram lucro antes de uma semana de férias em razão do Ano Novo Lunar. Na Europa, os principais pregões também fecharam em baixa nesta segunda, a despeito da alta do sentimento econômico Ifo na Alemanha.
"O contágio das quedas nos mercados emergentes, os receios sobre o Fed e as preocupações sobre a China contribuíram para as perdas", afirma Brenda Kelly, do IG Markets. Segundo ela, porém, a principal justificativa para os rumos das negociações de hoje é que os índices tinham subido "muito e muito rapidamente", sendo inevitável uma correção no mercado.
Nos Estados Unidos, os principais índices acionários começaram o dia em alta, mas inverteram o sinal. O S&P500 cai 0,46%; o Dow Jones tem baixa de 0,15% e o Nasdaq recua 1,17%.
Nesta segunda, foi divulgado que as vendas de imóveis residenciais novos nos Estados Unidos caíram 7% em dezembro ante novembro, saindo de 445 mil unidades para 414 mil. A queda foi maior do que a prevista pelos analistas.
Mas o foco do mercado está na reunião do Federal Reserve, nos EUA, que pode decidir por mais um corte de US$ 10 bilhões aos estímulos à economia americana.
- Na quarta-feira o Fed deve anunciar nova redução do programa de compra de títulos federais, ainda que os últimos dados de atividade tenham surpreendido para baixo - prevê o economista Octávio de Barros, do Bradesco, em relatório divulgado nesta segunda.