sábado, 24 de janeiro de 2026

Guilherme Fiuza - Nova York contra o crime (ou a favor?)

Você quer escrever no New York Times lamentando a captura de Maduro, não lamentando o regime ditatorial que ele liderou e ainda criticando o presidente dos EUA por não respeitar o direito? Aí fica difícil, companheiro


Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock


Deu no New York Times: a captura de Maduro foi lamentável. 

Claro que foi. Ninguém gosta de ver um parceiro de longa data se dando mal. 

Mas e se esse parceiro tiver cometido algumas atrocidades nas últimas décadas? 

Ou melhor: muitas atrocidades? 

Aí depende. Se você não ficou sabendo das atrocidades, pode alegar vínculo afetivo e isenção de consciência. Ah, mas você soube das atrocidades? 

Não só soube, como foi parceiro político do sujeito agora capturado e do seu regime imposto por décadas sem alternância de poder? \

Você inclusive levou investimentos para o país dele, ajudando a financiar o regime? 

Bem, ainda assim você pode lamentar a queda do seu amigo. 

Mas ou você lamenta junto toda a biografia dele, ou você vai precisar dizer que não se importa com a democracia. 

Ah, você quer escrever no New York Times lamentando a captura de Maduro, não lamentando o regime ditatorial que ele liderou e ainda criticando o presidente dos EUA por não respeitar o direito? 

Aí fica difícil, companheiro. 

Não fica? Tem razão, não fica. 

Ninguém está mais nem aí pra esses detalhes. 

Ainda mais no New York Times, que deu voz a tantos embelezadores da ditadura chavista — todos sempre empenhando seu charme pessoal, seu brilho acadêmico ou sua notoriedade hollywoodiana em defesa da “causa”. 


Nicolás Maduro: de ditador da Venezuela durante quase 13 anos a presidiário sob custódia do governo dos Estados Unidos — Nova York, 05/01/2025 - Foto: Adam Gray/Reuters 


Nunca importaram os milhões de venezuelanos fugindo da tirania e da miséria para várias partes do mundo. Sempre importou o verniz de herói intelectual dos propagandistas da revolução imaginária. 

É urgente mais um artigo no New York Times lamentando a hostilidade de Trump contra o aiatolá do Irã, outro parceiro de longa data. Só porque o povo iraniano está sendo esfolado ao vivo pela ditadura teocrática, o que o presidente americano tem com isso? 

Faça como a diplomacia brasileira: lave as mãos e diga esperar que tudo termine bem. E vamos comemorar mais um prêmio para o cinema que combate a ditadura. Qual ditadura? Ah, pesquisa aí.


Guilherme Fiuza - Revista Oeste