domingo, 7 de janeiro de 2018

'Tortura depende muito do ponto de vista', diz nos EUA brasileiro preso pelo chavismo

Cláudia Trevisan, Correspondente , O Estado de S.Paulo

WASHINGTON - Libertado no sábado depois de dez dias de detenção na Venezuela, o brasileiro Jonatan Moisés Diniz disse ao Estado que está “bem”, mas se recusou a responder se foi torturado no período em que ficou sob poder do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin). “Tortura depende muito do ponto de vista de uma situação”, escreveu em mensagem enviada pelo Facebook.
Diniz  foi expulso do país no sábado e colocado em um avião com destino a Miami. O brasileiro afirmou que não dormia desde às 6h do sábado e que, no momento, não poderia dar detalhes de sua detenção nem confirmar se estava em Miami. Sua intenção era publicar um relato de sua experiência em sua conta no Instagram, se possível ainda na noite deste domingo.
A detenção de Diniz foi anunciada no dia 27 pelo número dois do chavismo, Diosdado Cabello, que acusou o brasileiro de usar uma ONG como fachada para financiar opositores ao governo de Nicolás Maduro. Em novembro, Diniz começou a pedir nas redes sociais doações para a entidade Time to Change the Earth (Tempo de Mudar a Terra). Sua intenção era entregar presentes no Natal para 600 famílias venezuelanas. 
Venezuela - brasileiro preso
O brasileiro Jonatan Moisés Diniz, de 31 anos, que foi preso em Caracas acusado de conspirar contra o governo de Nicolás Maduro Foto: Reprodução / Jonatan Diniz / Facebook


O governo brasileiro só foi comunicado oficialmente da prisão na sexta-feira, quando um alto funcionário do Ministério das Relações Exteriores telefonou para a embaixada do país em Caracas para dar a informação e dizer que Diniz estava bem de saúde. No dia seguinte, a mesma pessoa entrou em contato com a diplomacia brasileira para informar que o Ministério Público havia decidido puni-lo com a expulsão do país. Segundo uma fonte do Itamaraty, o primeiro voo disponível tinha Miami como destino.
Diniz vive na Califórnia há pelo menos quatro anos e estava com sua carteira de motorista americana quando foi detido, junto com três venezuelanos. Cabello insinuou que as atividades do brasileiro eram patrocinadas pela CIA. A família de Diniz, que vive em Camburiú (SC), negou as acusações. “Parece que os venezuelanos acreditaram que ele era americano e, por mais que ele insistisse em dizer era brasileiro, não acreditaram. Por isso, eles disseram que ele era um informante da CIA, alguém patrocinado pelos EUA. O que é um absurdo”, disse o irmão de Diniz, Juliano, antes de sua expulsão. 
Sua libertação foi negociada pelo Itamaraty e por diplomatas em Caracas. Durante todo o período de detenção, os representantes brasileiros reiteraram três demadas: autorização para visitar Diniz, identificação do local em que ele estava detido e revelação do que ele era acusado. Nenhuma delas foi atendida. Ainda assim, a fonte ouvida pelo Estado observou que houve cooperação de integrantes do governo de Caracas, que se refletiu na decisão de libertar Diniz.
No sábado, o ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira, escreveu no Twitter que o “incidente” havia sido “encerrado” com a expulsão do brasileiro da Venezuela.
Nos últimos dois anos, Diniz foi pelo menos quatro vezes à Venezuela. No início de 2017, ele chegou a viver no país por dois meses. Designer gráfico, o brasileiro postou várias fotos suas no país, algumas das quais com imagens dele distribuindo roupas e alimentos.