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| Cena do filme King Kong (1933)
Outro dia, meio sem querer —piscou na tela do computador e deixei rolar—, assisti ao trailer do filme "Kong: A Ilha da Caveira". Foram só dois minutos, mas suficientes para me convencer a passar longe dos cinemas que o exibem. Mais: a advertir os amigos ainda seduzidos pelo doce e bárbaro "King Kong" de 1933 —um favorito dos antigos cineclubes— a que se cuidem. A julgar pelo trailer, ver este novo "Kong" representa envelhecer 25 anos em duas horas e meia, o que, na nossa faixa, significa risco de vida.
Pela amostra, nenhuma imagem fica mais do que um segundo na tela.
As cenas se superpõem, a câmera dispara, sobe e desce, vai e vem, e o pobre olho, em suplício, vai junto. A montagem é alucinante, o ritmo, avassalador, o efeito, acachapante. Para quem vai muito ao cinema, deve ser normal. Mas, para mim, é suficiente para provocar queda de pressão, aceleração cardíaca, zumbido no ouvido, descontrole peristáltico, parada respiratória e, talvez, epilepsia.
Desde o pioneiro Georges Méliès (1861-1938), o cinema sempre usou efeitos especiais. Mas a graça estava em que eles não fossem percebidos.
Hoje, os efeitos são ostensivos e 90% das imagens são geradas eletronicamente. Os filmes se tornaram grandes desenhos animados.
Como ainda prefiro macacos de carne e osso, já me declaro à espera de "Macaco Tião - O Candidato do Povo", um documentário em preparo pelo diretor Alex Levy-Heller sobre o famoso chimpanzé do zoo do Rio que, nas eleições municipais de 1988, recebeu 400 mil "votos" para prefeito.
Dizia-se que Tião (1963-1996) jogava cocô nos políticos que iam pedir seu "apoio". Não é verdade, garantem seus tratadores. Jogava, sim, um bolo de terra, lama e frutas. Não que esses políticos não merecessem.
Mas, ao contrário deles, Tião não botava a mão na merda.
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quarta-feira, 15 de março de 2017
"Tião vs. King Kong", por Ruy Castro
Folha de São Paulo
