quarta-feira, 15 de março de 2017

"Tião vs. King Kong", por Ruy Castro

Folha de São Paulo


Divulgação
King Kong (1933)
Cena do filme King Kong (1933)


Outro dia, meio sem querer —piscou na tela do computador e deixei rolar—, assisti ao trailer do filme "Kong: A Ilha da Caveira". Foram só dois minutos, mas suficientes para me convencer a passar longe dos cinemas que o exibem. Mais: a advertir os amigos ainda seduzidos pelo doce e bárbaro "King Kong" de 1933 —um favorito dos antigos cineclubes— a que se cuidem. A julgar pelo trailer, ver este novo "Kong" representa envelhecer 25 anos em duas horas e meia, o que, na nossa faixa, significa risco de vida.

Pela amostra, nenhuma imagem fica mais do que um segundo na tela. 

As cenas se superpõem, a câmera dispara, sobe e desce, vai e vem, e o pobre olho, em suplício, vai junto. A montagem é alucinante, o ritmo, avassalador, o efeito, acachapante. Para quem vai muito ao cinema, deve ser normal. Mas, para mim, é suficiente para provocar queda de pressão, aceleração cardíaca, zumbido no ouvido, descontrole peristáltico, parada respiratória e, talvez, epilepsia.

Desde o pioneiro Georges Méliès (1861-1938), o cinema sempre usou efeitos especiais. Mas a graça estava em que eles não fossem percebidos. 

Hoje, os efeitos são ostensivos e 90% das imagens são geradas eletronicamente. Os filmes se tornaram grandes desenhos animados.

Como ainda prefiro macacos de carne e osso, já me declaro à espera de "Macaco Tião - O Candidato do Povo", um documentário em preparo pelo diretor Alex Levy-Heller sobre o famoso chimpanzé do zoo do Rio que, nas eleições municipais de 1988, recebeu 400 mil "votos" para prefeito.

Dizia-se que Tião (1963-1996) jogava cocô nos políticos que iam pedir seu "apoio". Não é verdade, garantem seus tratadores. Jogava, sim, um bolo de terra, lama e frutas. Não que esses políticos não merecessem. 

Mas, ao contrário deles, Tião não botava a mão na merda.